"Así que pasen cinco años" [… como escreveu Lorca]

Fechamos – com as eleições presidenciais - mais um ciclo político em Portugal. Aparentemente, a primeira sensação é a de continuidade, i.e., vão manter-se os mesmos paradigmas, as mesmas condicionantes, os mesmos impasses. As pessoas são as mesmas – nos mesmos cargos. Todavia, não vale a pena iludir realidades que são evidentes. Caminhamos no sentido de enxertar à profunda crise económico-financeira, uma outra: – a política. Todas elas reflectindo-se, penosamente, no terreno social.

As preconizadas soluções de estabilidade são hoje, ao contrário do que foi apregoado, mais precárias do que nunca. A análise do desenrolar de todo este processo eleitoral pôs a nu esta liminar realidade. A (re)eleição de Cavaco Silva coloca, implacavelmente, o actual Governo a prazo. Um Governo saído de eleições legislativas ocorridas há pouco mais de 1 ano que, como todos estamos conscientes, não conduziu a qualquer maioria parlamentar sólida, quer directamente [resultados eleitorais], quer por via da negociação de coligações ou de pactos governativos. Portanto, um Executivo, politicamente frágil, que tem necessidade de negociar, passo a passo, programas, medidas orçamentais, projectos de investimento, etc.. E esta circunstância determina que a sua permanência em funções possa ser diariamente ameaçada. Ninguém, confrontado com uma crise tão profunda, consegue governar nestas circunstâncias.

Por outro lado, continuará a existir uma pressão constante da UE no sentido de serem adoptadas novas e mais medidas, ditas, “estruturantes”. Chegará o dia em que elas não serão politicamente possíveis [por variadas razões] e tal facto, só por si, inviabilizará a permanência em funções do Governo. A dependência da Europa – e a crise só poderá ser resolvida neste âmbito - não permite que haja soluções de continuidade entre governações [europeia e nacional]. Tudo o que está negociado [entre o PS e o PSD] em termos de instrumentos para enfrentar a crise é efémero e datado. Logo, são acordos a prazo condicionados pelos resultados eleitorais de Janeiro de 2011. Nada, existe de concreto para além de 2011, mesmo que os objectivos, entretanto, negociados [orçamentais e financeiros] sejam atingidos.

Existem demasiados escolhos políticos e estratégicos que apontam na direcção de uma crise. A partir de agora podemos acrescentar outro: o institucional.
Um deles será um baixo crescimento económico ou, pior, um novo período recessivo, situação que não está – nem de perto nem de longe – descartada, na sequência das medidas de austeridade entretanto tomadas. E essa eventualidade será fatal para o País e para o Governo.
Um outro motivo [que não um pretexto] é a apetência da nova direcção do PSD pelo Poder, aliada a uma manifesta impaciência resultante de um longo afastamento das áreas de decisão, facto que, aliado às críticas feitas à governação pelo candidato vencedor, indicia uma convergência política e estratégica.
Foi por estas razões que o [ainda] candidato Cavaco Silva, em determinado momento da campanha, levantou o espectro da eminência de uma crise política. Esqueceu-se, no entanto, de informar os portugueses quais as consequências da adição de várias crises, em simultâneo: política, financeira, económica e social. Consequências necessariamente drásticas e difíceis de avaliar em toda a sua plenitude.

A [re]eleição de Cavaco Silva colocou-nos, também, este novo desafio. Os resultados devem ser interpretados. Obtidos em conformidade com os princípios democráticos eles, contudo, revelam um País fracturado entre uma Esquerda [dividida], uma Direita [pragmática e sem qualquer cimento agregador] e um Centro instável e politicamente inviável [subsidiário de interesses múltiplos e contraditórios].
A enfática imagem do “presidente de todos os portugueses” poderá estar em vias de extinção. A campanha [e os resultados] revelou não existir qualquer personagem suficientemente consensual para congregar o País, à sua volta, neste momento de particulares dificuldades [políticas, económicas e sociais]. Embora disponha, nesta segunda eleição, de uma maior percentagem de apoio do que há 5 anos, o presidente eleito saí [desta disputa eleitoral] eticamente contestado e politicamente fragilizado. Na verdade, as nações têm momentos especiais e/ou cruciais. Este seria um deles. Muitos portugueses sentem que necessitávamos de um presidente que congregasse simultaneamente qualidades como: isenção, credibilidade, leitura idónea da Constituição, carisma, transparência, etc.. Os boletins de votos, de facto, não contemplavam essa [múltipla] opção. Daí, a estrondosa taxa de abstenção [> 50%] que, não retirando legitimidade ao eleito, fragiliza as instituições democráticas e, globalmente, os seus protagonistas.

Os dados estão lançados restando esperar pelo desenrolar dos acontecimentos e aguardar pelo futuro.
Para um País que – no entender do presidente eleito - não suportaria, sem elevados custos, uma 2ª. volta das presidenciais, falta saber como ultrapassará um longo período com um Governo de gestão, incapaz de assumir qualquer tipo de compromissos nos diversos fóruns de decisão [nacionais e europeus].

Poderia ter sido diferente? Podia, se…

Mas, como sabemos, o povo é soberano. E deve ciosamente conservar essa prerrogativa. A democracia oferecerá aos portugueses, daqui a 5 anos, outra oportunidade.

Comentários

Demo Gra Pia disse…
Não levou uns balázios antes de passarem os 5 anos?

2016 está tão longe

e cada dia fica mais
Manuel disse…
Em quantos concelhos ganhou o idiota Alegre?
Não contente em ter sido o principal responsável pela primeira eleição do cavaco ao ter dividido a esquerda, agora andou a ser moço de recados do francisco anacleto e... o resultado está à vista.

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