Daniel Ortega – as suas 5 vidas e uma morte anunciada…


A Nicarágua vive momentos cruciais para o seu futuro. Com um passado conturbado, turbulento e violento este País da América Central parece estar a voltar à matriz pós-colonial. Daniel Ortega o actual presidente e um remoto líder da Frente Sandinista da Nicarágua conseguiu que a Corte Suprema retirasse os mandatos dos deputados da Oposição no Parlamento e deverá apresentar-se às eleições presidenciais em Novembro próximo sem qualquer opositor link. O seu mais directo e credenciado opositor, Luis Callejas, está, após a aprovação desta medida, impossibilitado de concorrer ao acto eleitoral.
O percurso deste homem público nicaraguense é deveras elucidativo dos meandros que envolvem a política na América do Central e do Sul.
Podemos considerar que a sua trajectória comporta ‘5 vidas’ que se encaixam numa escabrosa evolução (ou involução).

Primeira vida:
Daniel Ortega tem um longo curriculum insurreccional embora nos momentos cruciais da contemporaneidade nicaraguense nunca tenha sido uma figura marcante ou relevante. Muito jovem (frequentava o 1º. ano de Direito) ingressa na Frente Sandinista, mas nunca possuiu uma estatura política, ideológica e moral de, por exemplo, Carlos Fonseca ou Tomás Borge, fundadores do movimento de libertação nicaraguense que só mais tarde haveria de identificar-se com os ideais de Sandino.
Após uma longa luta (de 1961 a 1979) que conduziu ao derrube da ditadura dinástica dos Somozas, Daniel Ortega integrou como coordenador a Junta de Reconstrução Nacional constituída depois da queda da ditadura da dinastia Somoza, nos difíceis tempos entre 1979 e 1985, exactamente porque as 3 principais facções (ideológicas) que se digladiavam no interior da Frente Sandinista (desde a guevarista à insurrecional) preferiram delegar a coordenação em alguém com ‘low profile’.
É um dos exemplos típicos de um homem que montou o cavalo do poder que lhe passou por perto, sem saber ler nem escrever.

Segunda vida:
Posteriormente, foi Presidente da Nicarágua entre 1985 e 1990 mais uma vez como bissectriz de sensibilidades em confronto e como um peão privilegiado do influente seu irmão, Humberto Ortega, que controlava o aparelho militar sandinista e era um dos pivots do regime sandinista. Começa aqui o implacável divórcio entre a Frente e camadas da pequena burguesia e trabalhadores rurais (camponeses) que apoiaram a insurreição sandinista. Este divórcio não se revelará inócuo.

Terceira vida:
Em 1990 foi derrotado nas urnas por Violeta Chamorro, também uma opositora de Somoza e membro efémero (durante 6 meses) da Junta de Reconstrução após queda do regime ditatorial. Através de uma União Nacional Oposicionista agregando 14 partidos (desde a Direita ao Centro-Esquerda) foi capaz de capitalizar nas urnas a frustração social, o descalabro económico e a fadiga de uma interminável e violenta guerrilha anti-sandinista orquestrada pela Administração norte americana (Reagan), através do grupo armado dos ‘Contra’, que corroeu o empobrecido tecido social nicaraguense.
Durante 17 anos a fragilizada frente sandinista esteve afastada do poder e muita gente teve a noção que terminava aqui a vida política de Daniel Ortega.
Após a dissolução da União Nacional Oposicionista, liderada por Violeta Chamorro, esta resolve cumprir só um mandato e abre as portas ao Partido Liberal Constitucionalista (através de Alemán e Bolaños) que governam até 2007.
A FSLN esteve afastada dos círculos do poder até 2007, sofre vários movimentos rectificativos com expressão pública de insanáveis dissidências, mas não desaparece da vida pública. Nestes 17 anos tem lugar uma progressiva deriva de Direita. Em 1999, Ortega firma com o ex-presidente Alemán (um demo-liberal) um acordo político conhecido por ‘El Pacto’ e por mais incrível que pareça um outro acordo (paralelo) com os ‘Contra’, pontas de lança das manobras da CIA em território da Nicarágua.

Quarta vida:
Em 2007, mais uma vez Daniel Ortega, depois de protagonizado uma brutal inflexão ideológica, muito embora continue a reivindicar a pertença ao movimento sandinista, apresenta-se a eleições desalojando o Partido Liberal Constitucionalista do poder à custa de cedências de toda a ordem, quer à Igreja, quer ao conglomerado empresarial enfeudado aos EUA. A sua submissão ao cardeal Obando y Bravo leva-o a participar numa cerimónia nupcial, largamente publicitada, consorciando-se religiosamente com a sua companheira de longa data. O cardeal ‘perdoou-lhe’ os desvarios sandinistas e participou na campanha eleitoral através dos meios televisivos, afirmando que Ortega era ‘de confiança’.
Daniel Ortega vence por curta margem umas eleições duramente disputadas em que beneficia da divisão dos opositores liberais e do apagamento da linha ortodoxa sandinista.
Inicia uma longa caminhada de consolidação do poder (pessoal e familiar) e dá sepultura à ‘luta histórica sandinista’ abrindo portas ao mais selvático e descabido oportunismo.

Quinta vida:
Em Janeiro de 2014, a meio do seu segundo mandato presidencial, Daniel Ortega, conseguiu fazer aprovar na Assembleia Nacional da Nicarágua – explorando a arquitectura constitucional existente - um reforço dos seus poderes e uma emenda que lhe permitirá continuar a concorrer à presidência mesmo já tendo completado 2 mandatos previstos constitucionalmente link.
Em Julho de 2016, expurga o Parlamento dos opositores, e caminha 'triunfalmente' para apresentar-se, em Novembro próximo, como candidato único.

Concluindo:
A Nicarágua depois de passar pelas agruras do domínio colonial hispânico desde o século XVI e pela posterior intervenção norte-americana que perdurou até ao primeiro quartel do século XX, revoltou-se sob o comando do guerrilheiro Sandino e conseguiu libertar-se do jugo estrangeiro. Uma libertação efémera já que a Guarda Nacional, dirigida por Anastácio Somoza, assumiu o poder através de um golpe de força, tratou de assassinar Sandino e criar uma ‘ditadura dinástica familiar’ que vigorou desde 1938 a 1978.
Daniel Ortega foi um dos muitos militantes da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) que, muitos anos após a saga heróica de Sandino, voltou a libertar a Nicarágua do jugo imperialista erradicando a sangrenta e feroz ‘ditadura somozista’, enfeudada a interesses estrangeiros (EUA).
Segundo relatos dos seus (ex-)camaradas da Frente Sandinista, Ortega, nunca foi um líder marcante da insurreição embora tenha aderido à causa na sua juventude (frequentava o 1º. ano de Direito). Ganhou experiência política enquanto coordenador da junta governativa durante a guerra civil desencadeada pelos ‘Contras’ apoiados pela CIA, circunstância que acabaria por moldar as arreigadas convicções marxistas e internacionalistas (gueravistas) que uniam, à partida, os heterodoxos 'partisans sandinistas'. Não existiu qualquer movimento de renovação (digno desse nome) no seio da Frente Sandinista durante o tempo de responsabilidade governativa ou enquanto esta esteve confinada ao papel de Oposição. Alguns dos seus protagonistas desertaram e outros (como Ortega) bandearam-se de armas e bagagens para o seio do (neo)liberalismo de 'cariz reganista'.

Resumindo o percurso:
Arrojado, é fazer opções ideológicas e alinhar numa revolução contra a opressão; gratificante, é após anos de luta derrubar uma cruel ditadura; complicado, será assumir o poder após a vitória e cumprir objectivos revolucionários; difícil, é manter-se fiel aos princípios ideológicos quando existe a oportunidade de governar e ter acesso ao dinheiro; ignóbil, será caminhar de regresso a uma ditadura que mais uma vez se desenha como ‘dinástica’.
De facto, com as novas alterações político-constitucionais, a Nicarágua iniciou a viagem de regresso aos tempos de Somoza, isto é, à remota era pós-colonial (imediata), ainda antes de surgir Sandino.

Ortega deveria ouvir a voz categórica e patriótica de Augusto César Sandino: “Eu não estou disposto a entregar as minhas armas mesmo que todos o façam; eu morrerei com os poucos que me acompanhem porque é preferível morrer como rebelde do que viver como escravo’.
 
Sandino, parece estar anunciar a inglória morte (política) para Daniel Ortega.

Comentários

Jaime Santos disse…
O Presidencialismo não funciona em lado nenhum, nem nos EUA. Ou dá origem a um Governo de um só homem, ou conduz ao bloqueio político quando o Poder Legislativo é de sinal contrário ao do/da Presidente e decide abrir-lhe guerra, como aconteceu no tempo de Clinton e mais recentemente com Obama, ou no Brasil com Dilma Roussef. Nos países latino-americanos (e os EUA seguirão este caminho, se Trump for eleito) junta-se a esta tentação de guerrilha, o caudilhismo, ou peronismo como por lá se chama. E isso é um invariante, mesmo em regimes supostamente esquerdistas, como a Nicarágua, a Venezuela ou a ditatorial Cuba. De onde resulta que o parlamentarismo, que mesmo na forma republicana é uma Monarquia disfarçada, é mesmo a pior forma de governo com exceção de todas as outras. Isso deveria dar alguma coisa que pensar a republicanos como nós... Aliás, convém lembrar que alguns historiadores consideram a ditadura de Sidónio como o melhor exemplo de proto-fascismo em Portugal, e não o Estado Novo (mas suspeito que Salazar teria provavelmente assumido uma Presidência executiva se não tivesse precisado dos militares para se manter no Poder, ele que teve aliás problemas com Carmona e com Craveiro Lopes)...

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