O País, casos ‘incendiários’ e o ‘incrível’…


O País está a braços com uma ‘maré incendiária’ que tem incinerado largas parcelas territoriais destruindo tudo à sua passagem.
Por outro lado, o País assistiu expectante à invasão do perímetro urbano pelo incêndio ocorrido no arredores do concelho do Funchal e ficou a saber que tudo foi devido a imponderáveis (mudanças súbitos de ventos, deficiências planeamento urbano, características específicas dos bairros históricos, etc.) que parecem encerrar liminarmente a questão.

Foram múltiplos os exemplos de fogos florestais declarados incontrolados (Águeda, Arouca, S. Pedro do Sul, etc.) e ‘sentiu-se’ um esgotamento da capacidade instalada de resposta pelas corporações de bombeiros o que levou à solicitação de ajuda externa, sem grande repercussão no combate aos fogos. Aparentemente, tudo o que podia correr mal acabou por correr pessimamente.

Na sequência destas catástrofes assistimos a chorrilho de opiniões veiculadas por comentadores, políticos, académicos, associações, organismos públicos, etc. .
Existem opiniões para todos os gostos a começar pelo Presidente da República e a acabar no mais isolado e recôndito pastor de uma qualquer serra do Interior. A prevenção que, ao contrário do sugerido pelo PR deve ser estudada e planeada ‘a frio’ link, não tem surtido efeito, não funcionou, por mais análises que se façam, estatísticas que se mostrem e justificações que se arranjem.

Como escrevia Henry Miller: “alguns pressentem a chuva; outros contentam-se em molhar-se”. Estamos um pouco neste estadio. Os conflitos de interesses que existem neste caso (como em outros, p. exº., na saúde) entre a prevenção e o tratamento das situações previsíveis são enormes, nem sempre facilmente detectáveis e a sua ultrapassagem exige conhecimento, discernimentio e capacidade de decisão. 

Os diagnósticos estão feitos, faltam, contudo, as soluções consensuais e viáveis, isto é, que respeitem a expectativa e a capacidade económica dos proprietários das florestas. 
Muitas das medidas a elencar e a promover estão para além das confederações profissionais, dos gabinetes ‘centrais’ e das estreitas análises locais, sendo desejável, desde logo, descortinar medidas políticas e administrativas, de âmbito nacional, entre elas a constitucionalmente prevista e sempre adiada - Regionalização.

Os sucessivos Planos Nacionais de Defesa da Floresta e Combate aos Incêndios podem estar bem 'construídos' mas são ignorados pelo grande ‘público’ por um inultrapassável distanciamento entre os seus autores (dos Planos) e as populações que habitam e trabalham nos locais críticos e múltiplos cidadãos vivem na doce ilusão – transmitida por políticos e governantes - de que está tudo preparado para combater os incêndios. 
Todavia, o comum continua a ser os incautos no inverno molharem-se e no estio arderem (ao sol ou no braseiro dos fogos).

A investigação ordenada pelo Ministério da Administração Interna às ocorrências verificadas em S. Pedro do Sul link (publicamente denunciadas pelo Presidente da Câmara) é bem-vinda (apesar de tudo o que mexe com bombeiros ser tabu) e poderá vir a esclarecer muito acerca do dispositivo disponível bem como de jactâncias de alguns políticos e ‘combatentes da paz’ sobre a situação real dos fogos (florestais e urbanos).

Por último, o incrível acontece e o País tomou conhecimento de uma outra situação que seria caricata se não fosse gravíssima. Num convívio festivo realizado em Câmara de Lobos (Madeira), de sábado para domingo último, onde compareceram bombeiros e agentes policiais  - e contrariando as disposições da Protecção Civil –  foi lançado, durante alguns minutos, fogo-de-artifício link
Nesta festa particular esteve presente para além de bombeiros, o comandante da Corporação local que, à posteriori, tentou justificar o ‘injustificável’. 
Mais uma situação de bradar aos céus a requerer um urgente inquérito.

Comentários

e-pá! disse…
Incêndios: candeia que vai à frente…

O director operacional da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), José Manuel Moura, começou por elogiar a abertura de um inquérito às circunstâncias de combate ao fogo que devorou grande parte do concelho de S. Pedro do Sul nos seguintes termos “… Acho que a abertura do inquérito foi uma extraordinária decisão,.. link”.
Até aqui tudo bem. Todos os organismos públicos devem estar sob escrutínio e mais prementemente quando estamos presentes de algo parece ter corrido mal.
Mas a frase não ficou por aí. O comandante operacional cujas decisões ou eventuais omissões cabem dentro do âmbito da investigação, acrescentou “…porque vai permitir [mostrar] a excelência do trabalho que o combate realizou nesse incêndio…link" .

Apetece dizer assim, não! Uma coisa é a convicção do dever cumprido, o que em termos genéricos tem sido considerado nesta época de incêndios em relação à ANPC, outra será a inquirição sobre a actuação operacional, para esclarecer a justeza e adequação das medidas tomadas ou, por outro lado, proceder à detecção de eventuais erros, falhas ou omissões. Esta é o caminho para uma constante aprendizagem. Para já é muito temerário adiantar resultados para esse inquérito e deveria existir alguma reserva verbal nos comentários até à conclusão do processo.

De facto, a actuação das forças empenhadas no combate ao incêndio no concelho de S. Pedro do Sul poderá ter sido pronta e adequada (deixo o qualitativo de ‘excelente’ para o investigado) mas existe uma realidade inultrapassável – um terço do concelho terá sucumbido às chamas …link.
O que teria acontecido se as operações de combate fossme medíocres ou, na pior das hipóteses, más?...

Adenda: Nada nos move contra a valente e abnegada prestação dos bombeiros nos dramáticos incêndios ocorridos neste ano. Mas, também, nada deve permanecer acima do competente escrutínio hierárquico.
Resultados? - só no final do 'jogo'...
Os interesses à volta dos fogos não podem deixar de ser escrutinados.
Joaquim Silva disse…
COMENTAR O QUE ? SE HÁ TANTA INCOMPLETUDE EM TERMOS PAIS REAL ????!!!!! .. OS INCENDIOS SÃO UMA AMOSTRA !

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