A afronta ao Tribunal Constitucional (TC) e o confronto com o PR
A afronta ao Tribunal Constitucional (TC) e o confronto com o PR
A eleição
de António José Seguro poupou o País à obsessiva exposição do PR em todos os
telejornais, introduzindo um módico de decência no exercício da função
presidencial, mas os portugueses não se resignarão a que o regime democrático
definhe por incúria de quem jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição. Nem o
PR o permitirá.
E são negras
as nuvens que se adensam no horizonte da democracia! O governo está em conúbio
contranatura com a extrema-direita, nostálgica do salazarismo, ressentida com a
descolonização e inconformada com os direitos individuais, a CRP e o 25 de
Abril.
Luís
Montenegro, sem condições éticas para o exercício das funções governamentais, é
capaz de tudo para se manter, e não se esperava que o PSD lhe permitisse ter no
Chega o aliado preferencial e ser o executor do seu programa de desforra contra
a democracia.
A forma
anómala como chegou ao poder só tem paralelo na forma como o mantém e o exerce,
desde a ficção AD que lhe permitiu formar governo, como se as coligações pré-eleitorais
sobrevivessem à contagem dos votos, até à dissolução da AR através de uma provocatória
moção de confiança que sabia previamente derrotada.
É possível
que o medo de Passos Coelho, o mais desbragado governante no acinte ao 25 de
Abril, lhe quebre os últimos pruridos no desmantelamento dos poderes que
garantiam a democracia. Basta ver o retrocesso que induzem as leis aprovadas
com o Chega.
Da lei da
nacionalidade às leis laborais, da lei de identidade de género à ofensiva
contra o TC, o PSD e o Chega atacam as conquistas democráticas e descaracterizam
o regime saído do 25 de Abril. Até o controlo político da informação da Lusa já
está consagrado nos estatutos que o governo escreveu.
Talvez não
fosse acaso a insólita vinda da reforma do ex-diretor do DCIAP, quando da
prisão do ex-PM, José Sócrates, para PGR, e a coincidência de o juiz de
instrução que o prendeu, para líder da Comissão de Combate à Fraude no SNS, ambos,
respetivamente, Amadeu Guerra e Carlos Alexandre, da estrita confiança de Montenegro
e nomeados por ele para os atuais cargos. Falta-lhe agora nomear o diretor da
PJ para se proteger.
Começou o
confronto com o PR, o desafio ao seu desejo de cumpri
mento da legislatura. Montenegro
quer escapar ao escrutínio da Spinumviva pela Justiça, ao do governo pelo PS e
ao controlo das leis pelo TC, e joga, na afronta ao PS, no confronto com o PR e
na escolha de juízes opositores à CRP, o apoio do Chega e a sua permanência no
Governo.
Montenegro
não quer deixar à extrema-direita a execução do seu programa, propõe-se ser ele
próprio a fazê-lo, e não se importa de desafiar o PR, no que contará com André
Ventura que vê aí a desforra contra quem o humilhou nas eleições presidenciais.
É difícil
pensar que Seguro capitule perante Montenegro, mas o confronto vem aí. Sou o
primeiro a dizê-lo. Com mágoa! E é incerto o vencedor, certa é a derrota da
democracia.

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