O renascimento da fé e da demência

O renascimento da fé e da demência

Nasci num País de heróis, santos e mártires, orgulhosos de dilatar a Fé e o Império, com a cruz numa das mãos e na outra a espada, e pensava que a literacia e a democracia nos tinham curado, a nós e ao mundo, dessa demência mística, da obsessão de implorar ao Divino a morte e o sofrimento dos infiéis, ou seja, dos fiéis do deus da concorrência.

Quando a fé embrutece e as orações se intensificam não há abrigos que nos defendam da sanha dos que trocam a vida e a decência pela salvação da alma. Não é um problema do passado, é uma patologia do presente.

Não são apenas os chalados dos Aiatolas que anseiam pelo Armagedão, que ensinam as crianças a odiar infiéis e prometem virgens e rios de mel a troco do martírio. Desejam-no igualmente aqueles brutos de quipá, no cocuruto da cabeça, às marradas no Muro das Lamentações, a reivindicar terrenos porque lhes foram legados por Abraão depois de um negócio imobiliário com o deus que inventaram.

Os portugueses, depois de Abril, antes do aparecimento de uns marginais que suspiram pelo regresso de Salazar, deixaram de ver os padres a benzer material de guerra e a rezar pelo extermínio dos terroristas, sabendo-se que terroristas são os soldados do outro lado.

Mas eis que, do outro lado do Atlântico, o País que importou o deus romano e extinguiu as fogueiras místicas a pedir chuva, pelo extermínio de tão exóticos crentes, começou de novo a rezar para matar melhor e mais depressa.

Quando um doido perigoso foi reeleito para liderar o País e deixado à solta, começaram as cerimónias litúrgicas, com a imposição das mãos na Sala Oval, a transmitir impulsos divinos que só os crentes, os imbecis e os hipócritas sentem. E, no Pentágono, o ministro da Guerra lidera as orações para que “cada disparo encontre o alvo”, as balas não se podem desperdiçar e os inimigos estão a mais.

Preciso de um búnquer à prova da água benta e de rezas. Ninguém está seguro!

Apostila – Hoje, paradoxalmente, a única voz sensata veio do CEO de uma Igreja, Leão XIV: “(…) este é o nosso Deus: Jesus, Rei da paz. Um Deus que rejeita a guerra; que ninguém pode usar para justificar a guerra; que não escuta, mas rejeita a oração de quem faz a guerra, dizendo: ‘podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue”.

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