A invasão do Irão

A invasão do Irão

Portugal pode prestar um bom serviço aos EUA sem humilhação nem vassalagem. Basta enviar ao Pentágono a carta de Afonso de Albuquerque a El-rei D. Manuel, onde refere o Estreito de Ormuz.

Melhor, só internando Trump e vestir-lhe uma camisa de força.

Comentários

Carlos Antunes disse…
Como alguém disse, a “História é fundamental para compreender o presente através do estudo do passado”.
Ultimamente, parece recorrente a corelação histórica entre a visão de Afonso de Albuquerque, governador da Índia Portuguesa e o grande estratega da expansão portuguesa no Oceano Índico, da construção da Fortaleza de Ormuz e do controlo do Estreito para dominar o comércio de especiarias, com o actual conflito no Médio Oriente e da estratégia do Irão sobre o Estreito de Ormuz, agora sobre o controlo dos recursos energéticos (petróleo e gás).
Na realidade, Ormuz é um ponto estratégico no Golfo Pérsico, e a construção da Fortaleza de Ormuz, em 1515, com o objectivo crucial de garantir o controlo das rotas comerciais que transportavam especiarias e outros bens preciosos da Ásia para a Europa e a protecção contra concorrentes, como os otomanos e os persas, marca a sagacidade estratégica de Afonso de Albuquerque na história de poder e comércio no Médio Oriente. O domínio de Ormuz permitiu a Portugal estabelecer, então, uma rede de comércio que expandiu o seu Império, reflectindo a importância estratégica do controlo marítimo do Estreito de Ormuz no Médio Oriente.
No contexto do actual conflito no Médio Oriente, a estratégia do Irão sobre o Estreito de Ormuz – uma rota vital, por onde passam aproximadamente 20% a 30% do petróleo e cerca de 20% a 25% do gás natural liquefeito mundiais – é igualmente o do controlo do Estreito em que procura não apenas proteger os seus próprios interesses, mas também desafiar a influência dos EUA e dos aliados na região (Estados árabes do Golfo).
O que se constata é que, cinco séculos passados, a estratégia do Irão ao afirmar o controlo sobre o Estreito, se assemelha de algum modo à de Afonso Albuquerque, não já sobre as especiarias, mas no contexto dos recursos energéticos. Ou seja, tanto a construção da fortaleza por Albuquerque, como a actual tensão no Estreito de Ormuz reflectem a procura pelo controlo estratégico sobre rotas comerciais e recursos valiosos.
O uso do Estreito de Ormuz como instrumento estratégico-militar é uma constante histórica, e assim como os portugueses no século XVI o utilizaram no enfrentamento contra outras potências, o Irão o usa hodiernamente como defesa da sua soberania contra intervenções externas.
Carlos Antunes disse…
Fortalezas portuguesas na época dos Descobrimentos
Ainda a propósito da Fortaleza de Ormuz, e da construção das fortalezas portuguesas na época dos Descobrimentos, um general brasileiro dirigindo-se ao então Embaixador de Portugal no Brasil Francisco Ribeiro Telles (2012-2016) lhe revelava: “Embaixador, nós temos agora um estudo muito sofisticado sobre a segurança e as vulnerabilidades do Brasil em relação à ameaça externa e você sabe que os pontos mais sensíveis, mais vulneráveis que encontramos, foram exactamente os mesmos onde os portugueses há quatro séculos construíram os fortes”.
Não sou historiador, nunca tive a pretensão de o ser, mas a reforma concedeu-me um bem do qual nem toda a gente usufrui e que tento aproveitar ao máximo: “tempo para pensar pela minha própria mente” e de, por isso, emitir a minha opinião fora do contexto do que aquilo que perpassa nos “media”.
Assim, quanto mais leio sobre os Descobrimentos e a expansão portuguesa dos sécs. XV e XVI – e nos tempos em que falar dos Descobertas ou da colonização portuguesa é razão suficiente para ser considerado como um “esclavagista-colonialista” – mais me convenço que foi o único período da nossa História em que os políticos portugueses tiveram a ousadia e a grandeza de definir e levar a cabo uma estratégia de desenvolvimento para Portugal, associando políticas, conhecimento (Escola de Sagres), e estratégia político-militar, com o objectivo de ultrapassar a pequena dimensão do Portugal de então.
É confrangedor constatar a incapacidade das elites políticas, militares e civis que nos governam desde então, do final da Monarquia (com o ouro do Brasil …), à 1.ª República e ao Estado Novo (com a exploração das colónias …) e o pós 25 de Abril democrático (com os fundos europeus …), de definir, produto da sua mesquinhez política, uma estratégia de desenvolvimento para o País.
E não me venham com os argumentos da dimensão populacional e territorial do nosso Portugal: à época do início da epopeia dos Descobrimentos, o território era exactamente o mesmo de hoje (ainda sem a Madeira e os Açores), a população não chegava aos 3 milhões de habitantes, e o Reino, após as políticas prosseguidas nos últimos anos da 1.ª Dinastia, estava completamente exaurido e falido.
Termino, a este propósito, com uma citação de Jared Diamond, historiador e escritor norte-americano: “Se Lisboa só pudesse ter um único museu, esse museu deveria ser o das Descobertas”.

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