Giordano Bruno – Há 426 anos (17 de fevereiro de 1600) – (texto atualizado)
Giordano Bruno – Há 426 anos (17 de fevereiro de 1600) – (data atualizada)
Enquanto
os padres se afadigam em missas de ação de graças para que Deus impeça os
deputados de matarem velhinhos, celebra-se hoje, em pio silêncio, o 426.º
aniversário da cremação em vida de Giordano Bruno. Ao contrário da eutanásia, a
morte pelo fogo não era pedida por quem a sofria, e era obrigatória para quem a
não pedia.
Era o
tempo do 8.º Clemente do Vaticano, homólogo do antipapa com o mesmo n
úmero e
nome, quando a Santíssima Inquisição, alarmada com a teimosia do herege em
renegar a teoria heliocêntrica, a existência de outros mundos e a dúvida sobre
a natureza divina de Jesus Cristo, decidiu a sua morte na fogueira
purificadora.
Filósofo,
matemático e teólogo, defendeu com exemplar coragem e convicção as ideias que
tornava absurdos os dogmas, néscios os padres e ignorante a sua Igreja. Que
podia esperar um filósofo que considerava infinito e inacabado o Universo cuja
perfeição era a maravilha do Deus dos senhores padres inquisidores?
Era
ousado, Giordano Bruno, um exemplo de amor à ciência e um caso raro de coragem
perante o sadismo da Inquisição. Ao filósofo italiano, escritor e religioso,
excomungado por protestantes e católicos, foi-lhe imposto ouvir de joelhos a
sentença que o condenou à fogueira na presença de uma multidão ululante. Há
algo mais estimulante para a fé do que queimar vivo um livre-pensador? E mais
angustiante para os inquisidores do que o atrevimento do réprobo a afirmar
perante os santos algozes, “Talvez sintam maior temor ao pronunciar esta
sentença do que eu ao ouvi-la”.?
O
cosmólogo considerava o Universo infinito e inacabado, como se Deus tivesse
criado uma porcaria à espera de remendo, e contrariava os mestres escolásticos,
que ensinavam que, se a Terra se movesse, as nuvens ficariam para trás, as
folhas mortas voariam sempre para o mesmo lado e a pedra caída do alto de uma
torre afastar-se-ia sempre da sua base. Haveria maior herege e heresia maior do
que tais afirmações?
O cardeal
Belarmino seguiu o processo onde a heresia e a blasfémia eram tão evidentes que
a queima do herege foi saudada pelas almas dos bem-aventurados para quem a
ignorância e a fé eram condição essencial para a salvação da alma. Acabou
canonizado. Só o sofrimento é purificador.
Hoje, 426
anos após o auto-de-fé, permanece de pé a estátua em sua honra, num desafio ao
Vaticano de onde numerosos papas, com incontida azia, quiseram derrubá-la.
Na praça
onde foi imolado, onde peregrinam devotos da ciência e do livre-pensamento,
ergue-se uma estátua em sua honra, na única praça de Roma sem igreja, onde a
ciência é venerada em pedra e bronze, materiais mais perenes do que a
metafísica.
Ir a Roma
sem procurar a estátua de Giordano Bruno, é como ir a Paris e ignorar a Torre
Eiffel.
In Ancoradouro pág. 321 e 322 (à venda nas livrarias)

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