Missas tecnológicas (3)
(Por Onofre Varela)
Aquela crente com cujo discurso terminei o artigo anterior, não é jovem nem “acordou” para a fé num piscar de olhos, de um dia para o outro. Ela é freira, tem 56 anos, chama-se Xiskya Valladares, vive em Palma de Maiorca e é conhecida como “a monja do Twitter”.
Não é uma monja qualquer. Ela é filóloga, doutora em comunicação e monja digital religiosa da Congregação Pureza de Maria.
Quando penso na pureza do discurso aos peixes, dado por Santo António (de Lisboa, para nós, Portugueses; de Pádua, para os Italianos) e recordado pelo padre António Vieira, que o usou no dia 13 de Junho de 1654, no Brasil, como alegoria para criticar a exploração dos indígenas pelos colonos… quando penso nisto, dizia eu, encontro-me num mundo onde o rosto do outro é o espelho em que me revejo, e a vida do outro tem uma linha inquebrável que a liga à minha própria vida.
Não sendo católico, não é raro assistir a celebrações litúrgicas com todos os meus sentidos alerta, absorvendo tudo quanto ali se passa, cônscio de que, naquela celebração, recuei no tempo. Mas entendo o que estou a ver, e não raras vezes tomo nota de alguma passagem da homilia para consultar livros a propósito, informando-me do que, na missa, não me pareceu bem esclarecido.
Para que tudo isto tenha nexo para mim, tenho que viver no mundo real, feito de homens e mulheres reais, gente igual a mim, gente que sofre, que chora, se alegra e ri, como eu sofro e choro, me alegro e rio… e não dentro de um filme de ficção, entre robots de forma humana para enganar os incautos.
A monja Xiskya tem 782.000 seguidores no TikTok e faz parte da organização do jubileu para criadores de conteúdos católicos, no qual “haverá um encontro com o Papa, formação com profissionais da comunicação, oficinas, um concerto, uma missa e uma gincana”.
O Secretariado Nacional de Comunicação de uma coisa designada Associação de Propagandistas Católicos, diz que os “missionários digitais são um lugar de conhecimento da realidade da Igreja, de experiências de fé e de questionamento existencial”.
Uma outra jovem é de opinião de que “a Igreja valoriza cada vez mais a maneira de comunicar a palavra de Deus de uma forma mais próxima, não tão teológica como estamos acostumados”.
“A Internet tem um grande potencial evangelizador”, dizem os fieis digitais… mas também tem um grande poder manipulador com a divulgação de fake-news… digo eu.
A monja Xiskya diz que “as igrejas estão vazias ou com velhos”… o que me remete para o pensamento desta religiosa no sentido de os velhos não terem valor… são tão valiosos quanto uma igreja vazia!… Mas também diz que se “dirige de igual modo a crentes e ateus porque o valor das pessoas não é medido pela fé”, e que “os homossexuais podem ser catequistas”!…
Vá lá… do mal o menos!… Se as tecnologias digitais abrem a mente aos religiosos tornando-os mais humanos, mais solidários… então viva a técnica e queimem-se os catecismos e outros manuais religiosos de cunho islâmico, caquéticos e desumanos.
Mas aqui tenho de voltar ao meu pensamento sobre as religiões: sendo elas, por si só e enquanto crença, uma forma poderosa de dominar o pensamento, podemos imaginar a maldade que pode ser acrescentada aos recados religiosos programados por IA, cujo resultado prático pode transformar qualquer crente numa extensão da ferramenta como à semelhança de uma faca de dois gumes (com ela se parte o pão, mas também se degola o próximo), levando-o a praticar acções que, pela sua fé natural, dotada de consciência fraterna, sem intervenção manipuladora, nunca praticaria… se bem virmos, essa “intenção manipuladora” já existe sem IA… assim acontece com muitos jovens conquistados pelo Islão, cujo resultado tem sido trágico: manipulados por agentes religiosos e desumanos, degolam excelentes cidadãos.
(Continua)
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