O Governo de Montenegro e a Constituição da República (CRP)
O Governo de Montenegro e a Constituição da República (CRP) – Não, é não?
Após o
golpe urdido em Belém com a PGR, Lucília Gago, e as sucessivas dissoluções da AR,
a instabilidade política alterou drasticamente a correlação de forças
partidárias e vulnerabilizou a democracia.
Há muito
que surgiram governantes que não recusariam os cargos em ditadura, mas só
recentemente apareceram os que assumem que a Constituição e a democracia são meros
instrumentos para a conquista do poder.
Não
esqueçamos que 1/3 dos eleitores votaram num admirador de Trump e Orbán e que o
PM Luís Montenegro, no confronto entre um candidato democrata e um extremista
de direita, para a presidência da República, optou por não tomar partido.
Montenegro
foi líder parlamentar de Passos Coelho, hoje a sombra negra que o ameaça, e, no
PSD, grande opositor de Rui Rio, o líder que pretendeu reconduzir o partido à
sua matriz original. O “não é não” das eleições legislativas, foi apenas truque
eleitoral, não uma convicção democrática, como ora se vê.
A alegada recusa
de alianças com o Chega serviu apenas para apear a ala mais social-democrata do
PS e obrigá-lo a votar os Orçamentos do PSD, com o PR que alterou a correlação
de forças na AR e criou o Governo AD a chantagear o partido da oposição.
Enquanto o
PSD condenava o PS por ter aceitado o apoio parlamentar do PCP e BE no primeiro
Governo de António Costa, calou a aliança PSD/Chega nos Açores, quando o PS foi
mais votado e, depois, na Madeira. Chegou assim à conivência com o Chega no
Governo da República, quer nas leis laborais, quer nas ameaças à CRP.
Montenegro está sempre mais próximo do Chega do que da ala do PS mais à
direita, próxima do PSD.
A eleição
do novo PR foi um revés na tentativa de subversão do regime, mas não está
excluído o regresso de Passos Coelho para federar o que restar da direita
democrática com a extrema-direita e proceder ao ajuste de contas com o 25 de
Abril e a democracia.
Montenegro
é um razoável tribuno e um ótimo jogador, mas é um medíocre governante e
execrável cidadão. Ferido na ética e enredado nos negócios, não se importa de
arrastar consigo o PSD, nem de abraçar a extrema-direita para manter o poder.
A cedência
ao Chega, rompendo o compromisso fundador do Tribunal Constitucional, em 1982,
na nomeação de juízes entre PS e PSD, é a nódoa que, independentemente da forma
como terminar, pesará sobre o futuro do seu partido.
Não está
em causa o respeito pelo voto dos eleitores, que legitima os partidos, está em
causa a substituição do juiz indigitado pelo PS por outro indicado pelo partido
que não respeita a Constituição e manifestamente a quer substituir ou subverter.
Montenegro,
que jurou cumprir a CRP, ao dispor-se a trocar o seu cumprimento pelo apoio
político de quem a combate, revela no Estado a mesma displicência ética com que
se comporta nos seus negócios particulares. Será julgado no próximo ato
eleitoral.
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