A guerra das burkas

A guerra das burkas

Defendo a proibição do uso da burka na via pública e lamento que se deixe à direita e à extrema-direita, se ainda se distinguem, a exploração do tema e, antes de dizer as razões, permitam que me alongue em considerações prévias.

Abomino a hipocrisia e dissimulação dos partidos de esquerda, os de direita não sentem o mesmo pudor e podem, por isso, usar quaisquer argumentos.

A proibição pelo Chega, PSD, IL e defunto CDS, todos a reboque do primeiro, deve-se a razões eleitorais. Não colhem os motivos invocados, segurança e ordem pública, garantia da identificação visual e a defesa da dignidade e igualdade de género.

1 – Não há, no uso da burka, qualquer evidência de risco para a segurança e ordem pública; 2 – a garantia da identificação pessoal é assegurada, em caso de necessidade, bem rara, pela condução a uma esquadra policial; 3 – a dignidade e igualdade de género não se defendem através do vestuário.

A direita civilizada e a esquerda defendem o direito ao uso na esfera pública por razões erradas: 1 – a proibição da cara tapada constitui dupla opressão porque os maridos não as deixam sair à rua, pelo que deve ser permitida, um argumento para o trabalho infantil, porque ficariam sem trabalho crianças oprimidas pelos pais que as obrigam, duplamente oprimidas porque o Estado as proibia de trabalhar; ou a violação não ser crime-público por sujeitar a vítima à dupla humilhação, violação e julgamento.

Às vezes, parece que são a favor porque a extrema-direita é contra, argumento frágil.

A defesa da tradição e de hábitos culturais diferentes é inaceitável, porque abre caminho a todas as aberrações desde a pedofilia (casamento com crianças) à violência doméstica e à poligamia, por exemplo. É ocioso invocar a violência, de que as mulheres são vítimas, ou o constrangimento que todas sofrem ainda que algumas decidam, de motu próprio, ver o mundo através de um exíguo retângulo.

Há um pressuposto indeclinável, o respeito pelo ethos civilizacional da nossa cultura e pelas leis que nos regem. A alegada vontade de Deus não pode opor-se à legalidade. Se alguém entende que não deve andar sem um facalhão à cintura ou sem pistola, porque Deus exige, tanto pior para Deus. Continua proibido se a lei dos homens o determinar.

O espaço público deve ser regulado de forma a maximizar de forma igual a partilha do espaço público, espaço que as religiões têm tendência a colonizar. A liberdade de todos exige a cada um o cumprimento dos seus deveres públicos.

Perante um crime, cada um de nós tem obrigação de o denunciar o que seria impossível de fazer se todos os sinais de identificação fossem ocultados.    

Na defesa da laicidade, defendo a proibição do uso da burka, da ostentação de símbolos religiosos no espaço público, do hábito das carmelitas ou vestes talares dos párocos fora de cerimónias religiosas, como procissões e outras manifestações pias autorizadas.

Chamem-me o que quiserem. Voltarei a este assunto.


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