VALOR CRISTÃO LEMBRADO PELO PAPA
E PELA CARICATURA
Por Onofre Varela
Jesus Cristo (JC), tal como os Evangelhos o retratam, é mais fruto de uma narrativa de fé do que de uma resenha histórica baseada nas experiências de um homem concreto. A sua dimensão terrena é a única que interessa num estudo que se pretenda sério sob o ponto de vista biográfico e histórico. A figura mítica do “Homem-Deus” pertence à fé e não à História.
Porém, na sua dimensão histórica, há uma verdade inquestionável no respeito devido a cada homem pelos outros homens, que JC referia por “igualdade”, incompatibilizando qualquer líder político do nosso tempo com o “espírito cristão”.
Lembrei-me deste tema ao ler a notícia da visita do Papa Leão XIV a Espanha. Numa homilia chamou a atenção para “a escuta, o diálogo e o respeito” (atitudes que hoje se desprezam). Lembrou que os valores cristãos são incompatíveis com algumas posições políticas. “Ninguém pode ajoelhar-se perante o Senhor e ao mesmo tempo desprezar o irmão”.
Discurso que parece nunca ser dito, até, pelos próprios católicos mais seguidores. Os cristãos têm mais inclinação para a leitura dos Evangelhos do que para o Velho Testamento, e encontramos neles a exaltação das boas práticas sociais baseadas na fraternidade.
Não tenho dúvidas de que os ensinamentos atribuídos a JC fazem parte da aspiração da maioria de nós. Nesse sentido obrigo-me a revisitar Lucas (já aqui referido há algum tempo) no Sermão da Montanha (6; 27-39), onde se enaltece todos os modos de bem viver em comunidade. Vejamos o que nos diz ele (que percorre o mesmo caminho já feito por Mateus [5; 1-12]): “A vós que me escutais digo o seguinte: amai os vossos inimigos e fazei bem aos que vos odeiam; a quem te bater numa face oferece-lhe a outra; a quem te roubar a capa dá-lhe também a túnica; dá a todo aquele que te pede, e quando levarem o que é teu, não reclames; tal como queres que as pessoas procedam contigo, procede com elas da mesma maneira”.
Estes ensinamentos não passam de caricaturas pelo exagero neles contido, mas ajuda a memorizar o conceito do amor (do respeito) que se quer apregoar. O exagero é a chave que faz prender a atenção e memorizar o conceito. Com o mesmo espírito caricatural, Lucas sublinha o exagero com estas perguntas para aclarar propósitos: “Se amais aqueles que vos amam, que agradecimentos mereceis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que agradecimento mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores a fim de receberem o equivalente. Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca (…); não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados; dai, e ser-vos-á dado”.
Talvez não me engane se disser que nenhum dos meus leitores conhece algum católico (ou crente de um qualquer outro formato de fé) que proceda assim. Quantos são os que emprestam dinheiro sem cobrar juros? Conheceis um banco, sequer, que tenha uma acção social e fraterna para com os seus clientes?
A História e a Mitologia são duas dimensões que se juntam nas narrativas da vida de JC. Sublinha-se o racional quando se faz a interpretação factual da História, mas ao mesmo tempo enaltece-se o mito tecido com a hipotética proveniência divina de Jesus como operador de milagres.
Se nos ficarmos pela História e a tomarmos como exemplo para nela basearmos as nossas acções, agimos cerebralmente sem necessidade de recorrer à fé religiosa e às fantasias que ela alimenta.
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