No 56.º aniversário do enterro – Salazar e o ensino
No 56.º aniversário do enterro – Salazar e o ensino
Perante a falsificação da História, metodicamente feita por
velhos e novos salazaristas, urge redobrar a paciência e com o método do velho
professor do ensino primário que fui, não me cansarei de repetir, repetir e
repetir, até cansar os panegiristas do ditador.
Leitores que surgem na minha página do Facebook, em comissão
de serviço do Chega, afirmam que nuca se construíram tantas escolas como no
tempo do tirano.
Vou referir de memória o que acontecia nesses tempos de
obscurantismo, sem aludir aos outros crimes da ditadura.
As escolas primárias funcionavam com o mínimo de 35 alunos e
eram extintas se fosse transferido ou morresse 1 só aluno e ficassem reduzidas
a 34. Passavam imediatamente a “posto escolar”, tendo o/a professor/a de sair
(sem vencimento, se fosse agregada), e de concorrer a nova vaga. Os alunos
ficavam sem aulas até que o Posto Escolar fosse a concurso e uma ‘regente
escolar’* concorresse.
Quando fui aluno do ensino primário eram obrigatórios os 4
anos de escolaridade para rapazes e 3 para meninas, passando a 4, para ambos os
sexos, no final da década de 50. Não havia cantinas e a fome, no pós-guerra,
fustigava as crianças.
Ensino público, além do primário, só havia nas sedes de
distrito, Liceus Nacionais. Nos concelhos mais ricos havia colégios
particulares, pagos por quem podia, geralmente da diocese ou de sócios locais.
Salazar deixou o país com o analfabetismo a rondar os 40%.
Referir os preâmbulos dos decretos do tempo do ministro
Carneiro Pacheco é o maior libelo acusatório a quem quis o povo inculto, para ter
mão de obra barata. A filosofia da ditadura era ensinar a ler, escrever e
contar, sendo o posto escolar a escola pequenina onde outra de maiores
dimensões era atentatória da humildade da população.
As únicas Universidades eram as da 1.ª República, Lisboa e
Porto, além da de Coimbra.
Uma professora podia tornar-se efetiva sem concurso se
oferecesse o edifício ao Estado, o que aconteceu com gente abastada para ter a
filha na localidade onde havia alunos e não havia escola. Os professores tinham
sempre vaga porque eram poucos e tinham preferência nas escolas masculinas,
quase metade, pois a coeducação era combatida e só havia escolas mistas, onde
os homens não podiam lecionar, em pequenas aldeias.
Podia referir também o pedido de autorização das professoras
para casarem, com quem tivesse rendimentos superiores aos seus e exibisse um
atestado de bom comportamento moral e cívico passado pelo padre da paróquia de
nascimento.
Sinto vergonha de recordar esses tempos e a mesquinhez da
ditadura que embruteceu o povo e o obrigou à “apagada e vil tristeza” que já
Camões referia.
* Docente com 4 anos de escolaridade mínima e aprovação em exame para Regente Escolar. Um professor agregado ganhava 1600$00 por mês, sem ganhar nas férias, e as regentes agregadas (quase todas) 600$00 durante os meses de trabalho. A assistência médica não existia para nenhum funcionário público.

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