José Saramago – 28.º aniversário do Nobel da Literatura
José Saramago – 28.º aniversário do Nobel da Literatura
Há 28 anos, José Saramago, o maior ficcionista português do
século XX, foi laureado com o prémio Nobel da Literatura e tornou-se o Nobel do
nosso contentamento.
A Igreja rangeu os dentes. O Papa que se indignou, João
Paulo II, já é santo. O censor Sousa Lara voltou à Universidade, de onde
convidaria Passos Coelho para catedrático. O PM de turno, Cavaco Silva,
aguardou vários anos uma reunião na vivenda de Ricardo Salgado para Marcelo,
Durão Barroso e ele próprio prepararem a sua caminhada para o Palácio de Belém.
Hoje, Saramago não precisa de panegiristas, aguarda apenas
ser lido com a sedução que inspira, o prazer que transmite em cada página e a
descoberta da riqueza da língua que o notável criador lavrou.
Ao indizível prazer da leitura do gigante literário em que Saramago
se tornou, junta-se o deleite pelo azedume que o seu êxito provocou e a
animosidade de que ainda é alvo.
L'Osservatore Romano, diário do Vaticano, escreveu, quando Bento
XVI era o líder da Igreja: “Saramago é, ideologicamente, um comunista
inveterado” e, alguns dias após a sua morte, distinguiu-o com os epítetos
“populista extremista” e “ideólogo antirreligioso”.
Sousa Lara, pai do exorcista homónimo, subajudante de
ministro de Cavaco, censurou “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e opôs-se a que
fosse incluído no concurso a um prémio literário europeu. Era a rosto do
cavaquismo, intolerante, vesgo e analfabeto.
O então eurodeputado do PSD, Mário David, nascido em Angola,
e a viver há décadas fora de Portugal, declarou ter vergonha de ser compatriota
do escritor e que este devia renunciar à nacionalidade portuguesa.
O Dr. Manuel Clemente, então bispo do Porto, depois
patriarca de Lisboa, afirmou que José Saramago “revela uma ingenuidade
confrangedora quando faz incursões bíblicas” e, como “exigência intelectual,
deveria informar-se antes de escrever”, com o se alguém o obrigasse a ele,
bispo, a pensar antes de falar.
O sr. Duarte Pio, pai de uma noiva ungida no Convento de
Mafra que Saramago imortalizou, apelidou-o de «senil» e definiu a obra como
«uma ganda [sic] merda», confessando, na sua real e vaidosa boçalidade, nunca
ter lido qualquer livro seu.
Saramago, como o próprio admitiu, teve a sorte de viver numa
época em que não havia fogueiras da Inquisição, e Portugal a de gerar um
escritor cujas posições políticas são irrelevantes para a talentosa
criatividade do Nobel do nosso contentamento.

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