Ronaldo e o Ensaio sobre a Cegueira
Ronaldo e o Ensaio sobre a Cegueira
Releiam o magnífico romance de Saramago. Está lá tudo, a
fragilidade do ser humano perante o imprevisto e o medo de ficarmos cegos.
Estamos todos cegos e não surge a mulher do médico para nos
guiar no desnorte, onde não vemos o que ocorre à nossa volta. Não vemos a
vitória de Bolsonaro no Brasil, uma vitória mais de Trump, sem necessidade de
sequestrar e raptar Lula, depois de submeter a Gronelândia enquanto espera juntar
Espanha a Portugal, após as próximas eleições, na submissão absoluta aos EUA.
Estamos cegos e não sabemos. Não vemos os tambores da guerra
que rufam na Europa para sair do beco, com a economia de rastos e os estreitos
de Suez e Bab el-Mandeb a infernizar o nosso presente, a comprometer o futuro e
a derrubar as democracias.
Estamos cegos e surdos, indiferentes à morte de ucranianos,
russos, palestinos, israelitas ou iranianos, e não ouvimos os gritos de mães
com filhos mortos nos braços, de famílias que gritam sob escombros de prédios
destruídos e mutilados que gemem nos hospitais.
Estamos cegos porque a epidemia é o amor-próprio ferido, o
herói da Pátria em silêncio, algures na Arábia Saudita, a exigir a cabeça de
Jesus, e ainda não lhe a levaram. Apenas dispõe do avião, do aeroporto, do
museu e da estátua, falta-lhe a cabeça de Jesus quando podia pedir a de Montenegro,
e a Pátria agradecia.
Suspeito que a mulher do médico deixou de fingir que é cega,
emigrou e nos abandonou à cegueira que persiste porque nos recusamos a abrir os
olhos. Não é epidemia é a ptose palpebral coletiva que nos atingiu porque
recusamos acionar os músculos para abrir os olhos.
«Se este homem insubstituível franze o sobrolho
Dois reinos periclitam
Se este homem insubstituível morre
O mundo inteiro se aflige como a mãe sem leite para o
filho
Se este homem insubstituível ressuscitasse ao oitavo dia
Não acharia em todo o império uma vaga de porteiro».
(Bertolt Brecht)
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