Momento de poesia

Dissertação sobre a casa do pai…

À memória de meu pai

Era a casa do pai,

desde que ele morreu,

a árvore do quintal

nunca mais foi regada

o cão recusou-se a sair

e apareceu enforcado no varandim,

não sei se por tristeza

ou porque, entretanto, enlouquecera,

o violino ficou como estava

depois da última valsa

uma das cordas continua partida,

os livros, nas estantes de castanho,

parecem ser eternos

a alimentar a voracidade das traças

e eu nunca cheguei a saber

se toda aquela sabedoria encaixotada

a forrar paredes e vãos das escadas

não significava apenas

a volúpia de um ócio ancestral

como se fosse um culto profano,

e, naquele labirinto,

nem sequer a luz do dia

varria as sombras de todos

os passados que por ali viveram

e de que a genealogia falava

só os fantasmas, ainda vivos,

deambulavam aos tropeções

pelo sótão,

nas noites de temporal

ou quando fazia frio,

e era nesses momentos

que eu tinha medo

de ficar só.

Alexandre de Castro

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