A geringonça* e esta direita

Não sou dos otimistas que pensam que os governos de Durão Barroso, Santana Lopes e Passos Coelho imunizaram o país contra a direita, que não deixa de se radicalizar, ainda que a manutenção do último na liderança da oposição seja um seguro para o governo de António Costa.

Depois da patética conduta do anterior PR, que tudo fez para intimidar o país e obstar à posse do novo Governo, e mais faria se a inteligência e a Constituição lho permitissem, urge referir que, mesmo na gestão capitalista do Estado, onde as opções nacionais são estreitas, fez bem melhor o atual Executivo, sem descurar as preocupações sociais.

Seria ofensivo comparar a competência ou experiência política de António Costa com a de Passos Coelho, a base de apoio deste governo com a do anterior ou a preparação de Mário Centeno com a de Maria Luís, a opção desesperada depois do clamoroso falhanço de um reputado académico.

É, no entanto, na valorização da democracia que o atual governo é um caso de estudo e uma referência mundial. Pela primeira vez, em Portugal, foi exequível respeitar o voto dos portugueses, sem anátemas a qualquer partido ou chantagem de uma direita que nos últimos 80 anos só episodicamente foi democrática.

Coube-me viver esta experiência e defendê-la e, seja qual for a sua duração, a pedagogia democrática que encerra será sempre uma lição para a direita radical recordar com raiva e para a esquerda ponderar com pragmatismo na pluralidade das suas referências.

*Geringonça - Epíteto desrespeitoso e antidemocrático transformado em designação carinhosa do atual governo, resultante da inédita negociação democrática na AR.

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