Jeroen Di[j]sse…

As declarações do inefável ministro das Finanças holandês e ainda presidente do Eurogrupo, o Sr. Jeroen Dijsselbloem, geraram múltiplas reações de repúdio.
Todavia, elas ultrapassam o ‘incómodo imediato’ e vão pôr à prova a solidariedade europeia, num momento em que a crise internacional tem amplos reflexos internos (na UE).
 
Na verdade, as descabeladas declarações de Dijsselbloem são uma edição tardia, requentada, deslocada e anedótica da ‘narrativa oficial’ de alguns centros de decisão europeus sobre uma eventual vivência de alguns países ‘acima das suas possibilidades’, teoria elaborada pelos laboratórios ideológicos neoliberais, para justificar ‘experimentalismos’ e impiedosos ‘ajustamentos’ que se abateram sobre milhões de cidadãos europeus.
Julgávamos que essa ‘narrativa’ tinha sido definitivamente enterrada pelos factos e pelas evidências que foram surgindo ao longo da crise. Atribuir as causas da crise aos povos e/ou a circunstâncias de governação nacionais é ‘tomar a árvore pela floresta’ ou, se quisermos ser mais clássicos, a ‘nuvem por Juno’.
Na realidade, a crise começa nos mercados financeiros e desenvolve-se no sector financeiro à sombra de desenfreadas especulações e de um vasto conjunto de impunidades, imparidades e inconformidades (ditados pela ausência de regulação).
A tirada ‘xenófoba e sexista’ do ministro holandês é muito do estilo da boçalidade portuguesa para caracterizar individualmente vidas (nunca grupos ou países) mais boémias, devassas e libertinas oralmente traduzidas pelo popular e boçal jargão: “putas & vinho verde”. Bem sei que não foi exatamente isto que disse mas andou lá perto (salvo a devida distância que vai entre mulheres e a prostituição).
 
As declarações do Dijsselbloem ao jornal alemão Frankfurter Allgemein Zeitung são politicamente um haraquíri.
Não há outra leitura, excepto, para o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schauble link.
 
A sua inevitável demissão levanta uma outra questão (prévia): como foi possível uma mente mesquinha, intelectualmente tão débil e politicamente desastrada manter-se tanto tempo na presidência do Eurogrupo.
O que há de errado nas instituições europeias que permitem alarvidades desta natureza?
 
Quando a poeira assentar, isto é, quando o Eurogrupo voltar a reunir, os europeus – todos e não somente os dos países do Sul – tirarão naturalmente as suas conclusões. Se Dijsselbloem permanecer no cargo, à custa do suporte de Berlim, espero que os neoliberais radicais não venham com a velha história dos preconceitos anti-germânicos. Mas, uma coisa é certa, a sua 'não-demissão' empestará, irremediavelmente, o ambiente europeu.
 
Para já parece necessária e imperiosa uma tomada de posição de força. Os países do Sul, vilipendiados pelo assumido capataz de Schauble, deveriam condicionar a sua presença na Reunião de Roma, que decorrerá no próximo dia 25 para a comemoração dos 60 anos dos Tratados Europeus, à prévia demissão de Dijsselbloem das funções que exerce nas Instituições europeias.
O ‘espírito de Roma’ assim o impõe.

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