Candidaturas independentes, partidos e democracia

Que os eleitores estejam descontentes com os partidos, compreende-se. Que têm dado motivos de desconfiança, pelo tráfico de influências e proteção aos seus fiéis, não será mera suposição. Que a democracia precisa de permanente escrutínio e de participação ativa, é um truísmo, mas é uma exigência cívica a que quase todos se furtam.

Pensar, todavia, que as candidaturas independentes sejam a solução ou sequer mezinha para corrigir os defeitos partidários, é ingenuidade, hipocrisia ou crença malsã.

O país não consegue fazer a reforma administrativa, com redução drástica de concelhos e freguesias, porque a contabilidade partidária e os empregos dependem largamente do poder local. A separação de Guimarães e Vizela ou de Loures e Odivelas, por exemplo, não passaram de novos troféus para a contabilidade partidária, satisfazendo rivalidades locais. Fátima e Canas de Senhorim só não entraram na atomização autárquica porque o bom senso de Jorge Sampaio contrariou a demagogia de Durão Barroso e as ambições dos caciques autóctones.

O que é uma candidatura independente? A de um desempregado político com relações e influência local, a de um preterido pelo seu partido ou a de um regressado de doze anos de edil, interrompidos durante quatro, por imposição legal?

O independente mais conhecido é o presidente da Câmara do Porto. É independente de que partido? É um monárquico próximo do CDS, que o PSD recusou, e que o PS e o irrelevante CDS não têm coragem de enfrentar. Vai ser eleito com os votos do PS, CDS, PPM, Rui Rio e uma autoconvencida aristocracia local.

Se vivesse no Porto e não houvesse candidaturas à sua esquerda, eu votaria no PSD.

Comentários

e-pá! disse…
CE:

Resolvi revisitar o tema dos 'candidatos independentes' olhando para a cidade onde diariamente faço a vida.
Poderá parecer um post 'azedo' (com azedume) mas, na verdade, os tempos estão difíceis e demasiado amargos para contemporizar no esconder do sol com uma peneira...

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