UE e a justificação do 'menu Juncker'


O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, ao propor no Parlamento Europeu (PE) a abertura de um debate sobre o futuro da UE, transmitiu aos cidadãos europeus que o chamado ‘projecto europeu’ está colocado perante a mais importante encruzilhada desde o Tratado de Roma link.
 
A lista de 5 opções apresentadas não é, nem podia ser, exaustiva. Reflecte de modo indubitável, por um lado, que a Comissão Europeia não conseguiu chegar a um consenso interno e, por outro, que a situação na UE atingiu um momento crítico. Entre o regresso a uma CEE (comunidade económica) à ilusão de federalismo, tendo de permeio uma Europa a várias velocidades, há nuances para todos os gostos.
Todavia, do ‘cardápio’ apresentado há, pelo menos, uma 6ª. opção que foi escamoteada, isto é, o desmembramento persistente e continuado (até à implosão final), que pode camuflar-se por detrás de um espectro alargado de transições, que vão desde o paulatino apodrecimento de factores de coesão como serão políticas sociais (emprego, salários, etc.), ao fracasso das estratégias de desenvolvimento (nacionais, regionais e locais), a penosas fracturas  culturais (para não dizer civilizacionais).
 
A ‘convulsão das soberanias’ que alimentou o Brexit e está a ser chão para uma vaga populista (cada vez mais transeuropeia), passando pela ausência de uma política externa comum, as fragilidade e as dependências das políticas de Defesa e a incapacidade de enfrentar o surto migratório, acabando por desembocar em perigosas ‘harmonizações’ orçamentais e fiscais (Pacto de Estabilidade e Crescimento e a crise das dívidas soberanas) no seio de uma fragilizada União Económica e Monetária, onde a equidade decisória dos países membros da UE é espezinhada em cada Conselho Europeu. O destroçar de partilhas (de poder, de recursos e de decisões) é o mal maior que a Europa enfrenta e que nenhuma ‘listagem’ de hipotéticas ‘saídas’ consegue esconder.
 
Na realidade, existe na retórica dos atuais dirigentes europeus uma lacuna grave. Trata-se de passar ao lado das relações entre os diferentes Estados e a Rússia.
A animosidade contra Putin e a rejeição das políticas em desenvolvimento na Rússia não deve obstaculizar a visão de uma Europa do Atlântico aos Urais (para revisitar a uma ‘visão gaulista’ nascida do pós-guerra) que no presente momento ganha de novo actualidade.
Enquanto esta ‘questão euro-russa’ não for politicamente encarada, discutida e eventualmente ‘resolvida’ a Europa viverá sempre sobressaltada e ameaçada.
A ‘nova Europa’ parece querer regressar aos erros antigos e não terá viabilidade construtiva se for concebida em modelos imperiais do passado onde o Centro, o Sul e o Leste disputaram ingloriamente a conquista de frágeis e efémeras hegemonias. Não há espaço, com a atual correlação de forças mundial para a existência de várias Europas (a Ocidente, ao Centro e a Oriente). De facto, para muitos dos dirigentes europeus custa aceitar que a ‘Europa Imperial’ morreu com a II Guerra Mundial.
 
Embora as primeiras reações da UE ao ‘Brexit’ tenham carreado para a praça pública múltiplas e platónicas declarações de ‘mais Europa’ o Plano Juncker apresentado no PE não consegue disfarçar uma nova crise que vem a caminho e onde as sombras de uma fragmentação (europeia) ocupam um lugar de destaque. O 'status quo' que está subjacente e nas entrelinhas da 'listagem Juncker' significa exatamente isso!
 
A eleição de Donald Trump para presidente dos EUA veio precipitar e agudizar os problemas no seio da UE que se arrastam desde o início da crise financeira (2008). Na realidade, esta mutação da política americana, colocou a Europa à deriva e veio trazer para a agenda política novas questões. Se a UE caminhar para uma penosa e progressiva dissolução (como vem ameaçando) perde definitivamente a voz no concerto internacional onde se vão equacionar e definir novos contextos e estratégias.
 
O problema não é a globalização per si (uma consequência 'mecanicista' da queda do muro de Berlim) mas as insanáveis contradições que o capitalismo (nas suas variantes liberais, ultraconservadoras ou populistas) alimenta.
 
Depois da queda do muro de Berlim nunca existiu vontade (e oportunidade) para discutir o contexto global (logo anunciado) e onde o desmembramento de uma poderosa União de Repúblicas (URSS) teria de ser mais do que meras oportunidades de anexações em catadupa.
Alimentou-se (pre)conceitos e tácticas para potenciais e focais emergências (BRIC’s), ou expansionismos serôdios (UE), ao sabor de novos conteúdos de dominação sinuosos e circunstanciais que, no fundo, gravitam à volta de um Mundo unipolar (EUA), absolutamente fantasioso, mas que se revela capaz de alimentar, por todo o lado, ‘ondas populistas’.
Hoje, os povos, indiscriminadamente, sofrem as consequências dessa terrível falta de visão que, se vai arrastando desde 1991, estando a determinar a maioria dos conflitos do presente e a ensombrar todos os projectos de futuro.
 
É aqui que se amarra a incapacidade das estruturas europeias em, neste crucial momento, definir o futuro e a ‘justificação’ do extenso menu que Jean-Claude Juncker, penosamente, exibiu perante o Parlamento Europeu.
 
Não é possível encontrar uma boa saída para a Europa sem olhar para o Mundo e ter a percepção que a instalação de novos equilíbrios ou o refazer de velhos conceitos hegemónicos (como ‘America First’!) passa, também, pela dramática possibilidade de ‘rebentarem’ novos e arrasadores conflitos bélicos.

Comentários

Manuel Galvão disse…
Gengis Khan, Ivan o Terrível e outros do mesmo calibre, conseguiram unificar povos de culturas heterogéneas. Hitler esteve quase a conseguir...
São objectivos que só se atingem fazendo correr muito sangue...

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