BRASIL: Bolsonaro e o temeroso dia da posse…


Hoje é um dia triste para todos aqueles que (algum dia) depositaram esperanças na lusofonia como um denominador comum dos países de língua portuguesa capazes de construírem uma comunidade livre, democrática e pluricontinental.

A posse de Jair Bolsonaro como presidente da maior nação lusófona representa um rude golpe na justa ambição de coesão e de perfil identitário - com todas as cautelas que este conceito deve englobar - deste 'espaço comum da lusofonia'.
 
Olhando para o Brasil, os portugueses não podem deixar de recordar o remoto, mas indubitavelmente eclético, percursor dessa ancestral caminhada de lusofonia – o padre António Vieira.
Independentemente das suas enciclopédicas qualidades pessoais (religioso, filósofo, escritor, orador, político, diplomata, etc.) o missionário jesuíta que se bateu, no Brasil de então, pela abolição da escravatura índia – mas não da de 'origem africana' - que era o fulcro do processo da expansão económica colonial, no século XVII e seguintes, deve estrebuchar de indignação no seu túmulo.

Este ‘mestre da língua portuguesa’ foi um dos cimentos históricos da ideia de lusofonia construída na rejeição de iniquidades, quer da colonização, quer da religião, quer de ocultas e hegemónicas ambições.
As primeiras palavras do célebre ‘Sermão da Primeira Dominga da Quaresma’, proferido por António Vieira, em São Luís do Maranhão, são muito apropriadas ao atual momento brasileiro: “Oh que temeroso dia!…” link
 
Não será necessário recorrer à rebuscada ‘retórica barroca’ de António Vieira, nem à mística e bíblica essência do ‘Quinto Império’, que Fernando Pessoa celebrou in Mensagem, nem sequer ao messianismo profético de Bandarra, para compreender o que hoje se passou em Brasília.
 
A cerimónia de posse de Jair Bolsonaro espelha, no Mundo atual, a representação pública de uma celebração que prefigura um inqualificável retrocesso civilizacional. De facto, o Brasil comemora, a 1 de Janeiro de 2019, com novas roupagens, um inusitado regresso a 31 de Março de 1964. 
 
O ‘inimigo’ de então – o comunismo – foi substituído por um outro mais transversal e mais ‘fluido’: o combate à corrupção endémica e, concomitantemente, a segurança 'musculada', isto é, a ferro e fogo. Os métodos, todavia, não devem mudar na sua essência daqueles utilizados há  54 anos.
O obscuro ex-capitão não prima pela criatividade, nem pela inovação. E o autoritarismo da bota cardada continua a ocupar o lugar central da ‘nova política’, velha nos princípios e nos métodos.
 
Brasília engalanada com mísseis, tanques, arame farpado e sob severas medidas de segurança assemelha-se a um filme de terror. Desconhece-se até que ponto a Federação Brasileira, no presente, poderá (terá capacidade para) resistir a novos ‘Atos Institucionais’, de tão triste memória dos brasileiros.
 
A miragem das perseguições políticas, bem como o risco de espezinhamento de direitos constitucionais sobem hoje a rampa do palácio do Planalto, acomodadas na bagageira do Rolls-Royce presidencial (foto).
 
Esta a imagem residual de um cerimonial pungente e perturbador. O 'Mundo lusíada' desfaz-se com estes gestos, na senda destes acontecimentos e na esteira de emergentes populismos.
 
Parafraseando Mia Couto – um dos contemporâneos prosadores da lusofonia - apetece sublinhar:
 “O bom do caminho é haver volta. Para ida sem vinda basta o tempo”.
 
E, finalmente, regressando novamente a António Vieira, resta-nos repetir: “Oh que temeroso dia!…”

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