Toca o telefone a toda a hora….

O telefone – um invento com quase século e meio – passou a ser um meio de comunicação fundamental para estabelecer, desenvolver e consolidar relações sociais, afetivas, pessoais e empresariais.
Uma das inovações do telefone foi acrescentar uma inebriante facilidade e rapidez ao sistema comunicativo nas relações humanas (em todos os campos).

Existem vários exemplos destas situações sendo um dos mais expressivos o sucedido em plena ‘guerra fria’ quando a distensão político-militar passou, também, pelo ‘telefone vermelho’ que ligava Washington a Moscovo e que ficou conhecida como a ‘hotline’.

As comunicações telefónicas tiveram outros diversificados usos, desde o mais inocentes aos mais sofisticados. Nos anos 60 e 70 em conformidade com as púdicas e severas restrições sociais impregnadas de moralismos hipócritas era comum o ‘namoro telefónico’ e este meio serviu amplamente ‘causas afetivas’ indo dos idílicos amores aos mais frustrantes desamores.

O advento dos telemóveis (celulares) na década de 70 conduziu à vulgarização deste meio de comunicação e tornou as consultas e as conversações telefónicas corriqueiras e banais.
Uma das utilizações mais comuns foi a facilitação dos contactos políticos (entre cidadãos e políticos e destes com os seus pares) facilitando a comunicação e  evitando equívocos e desentendimentos.
Por outro lado, cedo esta facilitação derivou para um instrumento de ‘propaganda’ nomeadamente através das mensagens (SMS). Simultaneamente, transformou o telefone num veículo de pressão, de lobbing, de orientação e de sondagem o que levou a que a política se tornasse uma navegação à vista assente em volúveis prospeções de opinião.

Na verdade, os contactos telefónicos trouxeram benefícios no campo do alerta, informação e do aconselhamento dos cidadãos como seja o conhecido 112 e um conjunto de outras linhas de apoio oficiais ou oficiosas (de Organizações Não Governamentais). Paralelamente surgiram um conjunto de linhas de chamadas com valor acrescentado que priorizando o marketing e o negócio em relação à informação que parecem divulgar são um infortúnio e muitas vezes o leito de múltiplos ‘contos do vigário'.

Na atualidade, o telefone é um importante veículo (instrumental) para desenvolver e formatar as relações humanas e ganha, cada vez mais, um contexto social e cultural. Não possuir um contacto telefónico é uma situação que pode revelar-se altamente incapacitante para ter uma vida de relação equilibrada e saudável, isto é, ‘normal’.

Nos últimos tempos vamos sendo confrontados com alguns sobressaltos e o desenvolvimento de uma amplitude comunicativa e funcional dos modernos aparelhos tem proporcionado muitas e diversas situações, algumas com dificuldade a fugir do caricato. Exemplo disso é o badalado telefonema de Marcelo à Cristina Ferreira, transmitido em direto num programa de TV e a partir deste ‘incidente’ somos levados a interrogar-nos sobre a amplitude e a banalidade da utilização dos meios de (tele)comunicação na política.
Para não falar de uma outra disponibilidade que muito embora seja fotográfica – as selfies – tem servido um estafado e repetitivo propósito propagandístico à volta da exploração dos afetos.

Todavia, para além destas banalidades - umas inocentes, outras abusivas - existem outras situações que configuram um quadro mais sério. Será o exemplo destes últimos dias que trouxeram á liça um conjunto de considerações dispersas e informais sobre as comunicações telefónicas. O relatado telefonema de Marcelo Rebelo de Sousa à Procuradora-Geral da República no exato momento em que no Parlamento se discutia o estatuto dos Magistrados do Ministério Público sendo mais uma manifestação do frenético labor do Presidente da República - que diariamente aparece a comentar os ‘factos políticos’ - transcende amplamente este quadro.

Na realidade, o telefonema de Marcelo a Lucília Gago é uma atitude normal no âmbito das relações institucionais do Estado, mas a revelação do seu conteúdo é uma nítida extrapolação para a praça pública de uma esperada reserva e confidencialidade que habitualmente caracteriza as comunicações e as relações institucionais entre titulares de cargos públicos. É o habitual ‘gatekeeper’ (guardião do portão) que leva os políticos, à saída das audiências no Palácio de Belém, dizerem: ‘não vou revelar o teor da conversa havida’.

Mas, para além disso, as circunstâncias e o momento em que o citado contacto ocorreu e o ‘assunto tratado’ constitui uma intolerável intromissão (presidencial) no funcionamento da Assembleia da República link que, como todos sabemos, na altura, discutia (como lhe compete) o estatuto dos Magistrados do Ministério Público (independentemente do mérito ou demérito da proposta estatutária em discussão na sede própria).
 
O regular funcionamento das instituições – que cabe ao PR assegurar – não pode estar sujeito a um conturbado ‘quadro telecomunicativo’ em muitos aspectos sobreponível à velha canção cantada por Maria José Valério: ‘toca o telefone a toda a hora’.

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