Trump, Inglaterra, Europa e as insuportáveis interferências…


Trump/Inglaterra/Europa - exatamente por esta ordem - e subitamente colocaram-se no centro da agenda política deste mês de Junho.

Na verdade, o reino de Sua Majestade estendeu o tapete vermelho ao boçal Donald Trump e abriu um vasto conjunto de hostilidades contra a Europa.

As declarações do presidente norte-americano que precederam esta visita de Estado deste a Londres vieram esclarecer os cépticos e consubstanciam o maior ataque externo à União Europeia.
Desde a indicação do futuro líder do Partido Conservador à indigitação do negociador do Brexit para acabar no incitamento a um ‘hard no-deal’ acrescido da fuga às responsabilidades financeiras houve de tudo um pouco para não dizer que existiram nuances para todos os gostos link.

A indicação feita por Trump de Boris Johnson para líder dos Conservadores e putativo primeiro-ministro britânico link e a sugestão de Nigel Farage para negociador da saída do Reino Unido da UE são grosseiras intromissões na política interna britânica e, mais, dois exemplos do delírio paranóico populista que, à revelia do direito internacional, rege o pensamento do presidente norte-americano. Trata os complexos problemas políticos e diplomáticos do dito Ocidente com um espírito - e uma ética - declaradamente de ‘pato bravo’.
 
Boris Johnson o favorito de Trump para governar a Grã-Bretanha apercebeu-se que a predilecção do presidente norte-americano poderia ser um presente envenenado. A inconcebível indigitação por um estrangeiro choca frontalmente com o tradicional e exacerbado ‘soberanismo britânico’ (um snob resquício vitoriano que ainda serviu de muleta ao Brexit) e para sacudir esse opróbrio da sua canga (que já está manchada com muitos outros) Johnson mais tarde viria a recusar um encontro presencial com o presidente link.
 
Mas a insolência não fica por aqui. Antes de aterrar em Londres não perdeu a oportunidade de insultar o mayor da cidade que formalmente o acolhe. Sadiq Khan foi classificado como um ‘falhado’ pela simples razão de não apreciar as ‘qualidades’ de Trump. A postura de Trump faz lembrar a de um convidado que ao chegar ao destino a primeira coisa que faz antes de pôr os pés no hall e cuspir pra o chão é dar um arraial de porrada ao mordomo por que acha que a vénia foi tímida. 
 
Mais, arrastando-se penosamente pelos antros reais e aristocráticas dependências o presidente norte-americano culmina a sua entediante brejeirice ao deixar-se adormecer durante o banquete de gala quando a anfitriã (a rainha) proferia um discurso de boas vindas link. O cerimonial do palácio de Buckingham faz reviver citação bíblica: “não dar aos cães as coisas santas e não lanceis aos porcos as vossas pérolas …”.
 
Resumindo, a visita oficial de Trump a Londres foi um insuportável libelo contra a União Europeia, contra a sua coesão, contra a sua existência. Foi uma ‘cruzada anti-europeia’ reveladora das profundas fissuras que estão a estilhaçar o dito ‘Ocidente’, agravada pelo facto de ser protagonizada com uma insuperável boçalidade, imenso mau-gosto e inusitada truculência.
 
Perante a catadupa de indícios vindos da actual Administração norte-americana resta inquirir:
- aonde se acoitam os políticos europeus e muitos deles fervorosos defensores de uma 'política atlantista' que começa pela NATO e acaba com os joelhos em terra?

Comentários

E-Pá:

Obrigado. Fiquei dispensado de chicotear o solípede. Fizeste-o tu. E bem.

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