A intempérie que nos bateu à porta
A intempérie que nos bateu à porta
As
trágicas consequências da tempestade Kristin, das chuvas diluvianas que
continuam, com sucessivas depressões, e do esvaziamento das barragens, em
Espanha e Portugal, trouxeram a desolação e o desespero a centenas de milhares
de portugueses, muitos dos quais, ainda atormentados, sem telhados,
eletricidade ou comunicações.
A tragédia
está longe do fim e aumentam as mortes de pessoas arrastadas nas enxurradas ou caídas
dos telhados para onde sobem aflitas a recuperar o teto, enquanto os haveres,
lágrimas e sonhos de tantos portugueses se misturam na enxurrada.
Não foi
apenas a incapacidade do governo que falhou, para reagir adequadamente e com a
brevidade que devia, foi a incúria de décadas e a permissividade com que se
assistiu à ocupação do leito dos rios por edificações que ameaçam prosseguir
nos sítios onde ora mora o medo e o desespero.
É neste
trágico ambiente que assistimos ao melhor e pior do que as pessoas são capazes,
à solidariedade e abnegação inexcedíveis para com as vítimas e ao
aproveitamento da desgraça com assaltos, roubos, fraudes e burlas de todo o
tipo, sem falar no obsceno aproveitamento que um dos candidatos a PR faz da
desgraça generalizada.
É
obrigatório preservar na memória coletiva a lição destes dias de angústia e
desespero para promover a consciencialização dos efeitos trágicos do
aquecimento global que nos trouxe a esta emergência em que o Planeta se
encontra.
O PIB das
nações não cresce até ao Céu e os recursos do Planeta, há muito deficitários,
vão faltar para as gerações mais novas e para as que vierem.
É preciso
uma revolta global contra os empresários da morte, os fautores de guerras e os
que procuram oportunidades lucrativas, quase sempre os mesmos, na
navegabilidade do Ártico e na reconstrução de cidades e países destruídos pelas
guerras e intempéries.
À semelhança dos rios, revoltados porque lhes roubaram o leito, o Planeta, em guerra com os ferimentos quotidianos, reage com violência. Mas raramente aprendemos, tal como a rã mergulhada na panela de água fria, em lento e inexorável aquecimento, até à morte.

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