D. Marcelo foi ontem ao Vaticano

D. Marcelo, presidente vitalício da Fundação Casa de Bragança, com mandato suspenso por mais 35 dias, com o país de rastos e milhares de portugueses sem telhado, água ou luz, foi a Roma ajoelhar-se e implorar bênçãos ao Papa Leão XIV.

O regente do extinto Reino de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc. foi, pela sexta vez, ao beija-mão do Pontífice.

«Sou católico, afirmo-me católico, fui aos atos de culto, tomei as posições próprias de um católico (…), disse o peregrino, exultante com «a bênção especial para todos os que sofrem» que disse trazer, e convidou-o para visitar Portugal «em 2027, nos 110 anos das Aparições de Fátima». As visões dos famélicos Pastorinhos passaram a «aparições» sem promulgação nem publicação no Diário da República.

Não sei, nem me interessa, a quem entregou as bênçãos, o recipiente em que as trouxe e o estado de conservação em que chegaram, mas é fácil intuir que a qualidade de paquete de Sua Santidade não se coaduna com as funções de PR de um país laico.

O respeito pelos católicos, impedir-me-ia de censurar o crente se não tivesse ido, na qualidade de PR, em visita ao Chefe de Estado do Vaticano, à custa do erário.

O católico Marcelo pode oscular o anel do Pescador, afagar-lhe a férula, ajeitar-lhe a batina branca, polir-lhe o báculo e ajoelhar-se-lhe aos pés. O devoto, para salvar a alma, pode dobrar a espinha, salivar de volúpia aos pés de um ícone do seu deus, empanturrar-se em hóstias e demorar-se a rezar o terço no túmulo do saudoso Papa Francisco.

O que o PR não pode fazer é lamber a mão do Papa, inclinar-se subserviente, deixar-se fotografar num ato humilhante para a República laica, que representa, e portar-se como se a CRP, que jurou, permitisse o aviltamento do seu guardião.

Portugal não é protetorado do Vaticano e o PR sacristão. Ao bajular o Papa não cumpriu uma visita de Estado, levou a cabo uma promessa pia e denegriu a imagem do País.

Compreendo o peso que levava, com as tropelias do seu mandato, o remorso do mal que fez, dos pecados que o apoquentam e dos que não tem consciência, desde a maldade da sua misoginia, que o levou a lutar até ao fim contra a despenalização do aborto, até à luta contra a entrada em vigor da lei da eutanásia.

O respeito que devia merecer como PR esbanjou-o em vergonhosas exibições pias, no seu incoercível proselitismo, na incapacidade de distinguir as funções de Estado das suas convicções religiosas.

Ao mal que fez ao País, à perversidade que a sua inteligência, cultura e criatividade permitiram elevar aos píncaros, juntou a degradação ética da função que desonrou.

Faltam 34 dias.  


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