Nunca esquecer! (Texto atualizado) – 3226 caracteres
Há 65 anos, lá em Angola, no dia de hoje, 4 de fevereiro de1961
Na parte
mais ocidental da Europa havia um país vergado pela ditadura, onde a censura, a
repressão e o medo lançavam o desespero no povo subjugado por um déspota,
apoiado pela Igreja católica, defendido pela polícia, onde as Forças Armadas se
portavam como guarda pretoriana do fascismo serôdio. A miséria, o analfabetismo
e a fé prolongaram a tirania e permitiram o colonialismo de um país tão
atrasado que, até na descolonização, foi o último.
O ditador
fora de Coimbra para Lisboa, levando do CADC a peçonha e do fascismo a ilusão.
Nascera numa aldeia próxima de Santa Comba Dão, mas a aldeia do Vimieiro e o
seminário foram com ele. Julgou-se dono do império que conhecia do Mapa das
Colónias e não compreendeu os sinais da História nos outros países
colonizadores.
A História
é feita de paradoxos. No dia 4 de fevereiro de 1961 teve lugar em Angola a
primeira rebelião contra o colonialismo, data que hoje o MPLA considera como o
início da luta armada. Na origem esteve um missionário secular da diocese de
Luanda, cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves (1896-1966), mestiço, que não
pertencia ao MPLA, o movimento mais consequente na luta pela libertação.
Nesse dia,
vários grupos de guerrilheiros armados de catanas, num total de cerca de 200, sem
consciência do facto, deram início à longa e dolorosa guerra que fez ruir a
ditadura portuguesa e o império colonial.
Um dos
grupos fez uma emboscada a uma patrulha da Polícia Militar, neutralizando os
quatro soldados, e tomando-lhes as armas e munições. O objetivo de libertar os
presos políticos falhou no assalto à Casa da Reclusão Militar onde morreram 40
guerrilheiros, 6 agentes da polícia e 1 cabo do Exército Português. Falharam
igualmente outros alvos: a cadeia da PIDE, a cadeia da 7ª Esquadra da PSP,
outro cárcere de presos políticos e a tentativa de ocupar e calar a Emissora
Oficial de Angola, mas a semente da libertação foi lançada e, desde aí, em cada
dia ficava mais isolada a ditadura salazarista.
A vindicta
foi de uma crueldade inaudita. O assassínio indiscriminado de negros atingiu
limites inimagináveis, a que se seguiu uma orgia de horror sobre os brancos,
sem poupar mulheres e crianças. O racismo teve aí uma das mais hediondas e
dementes assinaturas.
A guerra
injusta e perversa prosseguiu. Em 13 anos foram mobilizados mais de 800 mil
jovens portugueses para Angola, Guiné e Moçambique. Morreram mais de 9 mil,
foram evacuados 30 mil feridos e ficaram mutilados física e psiquicamente mais
de 100 mil.
Dos
combatentes pela emancipação não há certezas, mas foi pesada a contabilidade e
cruel o sofrimento de um lado e do outro.
O 4 de
fevereiro de 1961 foi um movimento de origem partidária difusa e de contornos
políticos claros. Foi o início do parto doloroso que se arrastaria por mais 13
longos anos na dolorosa epopeia para os guerrilheiros que lutaram pela
independência, e numa inútil e inglória teimosia do fascismo português que
sacrificou uma geração.
Do
sofrimento infligido mútua e reciprocamente nasceram paradoxalmente os laços
que hoje aproximam os países lusófonos e que, não digerida ainda a tragédia dos
retornados, hão de irmanar-nos no futuro.
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