A União Europeia (UE), a Ucrânia e a Conferência de Segurança de Munique
A União Europeia (UE), a Ucrânia e a Conferência de Segurança de Munique
Quem
defende a UE não põe em causa a legitimidade dos seus órgãos e dos respetivos
titulares, mesmo que erradas as políticas que, num determinado momento,
prossiga.
Os
governos que a integram são dos mais democráticos do Planeta, apesar do populismo
que varre a Europa e dos perigos do regresso ao ambiente que precedeu o advento
do nazi/fascismo, há um século. Os riscos não serão menores se a UE soçobrar.
Ursula von
der Layen, a principal responsável pela política da UE, a quem nunca faltou a
solidariedade, ou mesmo a cumplicidade, de António Costa, parece ter regressado
ao multilateralismo, que nunca devia ter interrompido, atenuando a dependência
dos EUA.
Saúdem-se
os acordos UE/Mercosul e UE/ Índia. Com ou sem Trump, com Democratas ou Republicanos
os EUA continuarão adversários da UE, por verem na sua dimensão económica,
populacional e financeira um concorrente indesejável.
A ordem
internacional baseada em regras está em franco retrocesso, quiçá, em rutura e a
UE não tem de partilhar os mesmos valores dos EUA. Não pode abdicar da
liberdade, da democracia, do Estado de direito e da solidariedade com as
instituições que os defendem, nem trocar a defesa da paz pelo belicismo. O que
não pode é deixar de fazer trocas comerciais com a Índia, em retrocesso
democrático, a China, a maior e mais repressiva ditadura laica, agora com purgas
militares em curso, ou com os BRICS+, incluindo a demoníaca e demonizada Rússia
e trocar o gás russo pelo de xisto.
Elogie-se
a UE pela defesa das fronteiras da Ucrânia, mas tem de se perguntar o que a
levou a entrar na guerra entre a Nato e a Rússia ao lado dos EUA e, depois do
abandono dos EUA, a pagar a sua perpetuação entre a Ucrânia e a Rússia, sem
procurar a paz.
Os EUA não
abdicarão da Nato. Detêm os comandos operacionais na Europa através de forças
no R.U., Alemanha e Turquia. Só a Alemanha é da UE. É também por isso que a UE
não disporá de Forças Armadas próprias, tendo cada país, dentro ou fora da UE, de
definir o seu rearmamento. E já se notam divergências entre a França e a Alemanha.
Mark Rubio,
na Conferência de Munique, reincidiu no plano geoestratégico dos EUA de hegemonia
global, sem descartar a anexação da Gronelândia, e exigiu à Europa regimes
idênticos ao dos EUA, soberanista, sem imigração e sem os valores europeus. Foi
mais urbano do que G. D. Vence, na Conferência anterior, mas igual nos
propósitos políticos.
Quanto à
guerra na Ucrânia, nem sequer permite a presença da UE nas negociações de paz.
Não sei o que aplaudiram os europeus nem a que propósito Kaja Kallas elogiou o
facto de os países da UE estarem ao seu lado em todas as guerras.
Assim, não
se percebe a obstinação da UE na continuação da guerra na Ucrânia, guerra que,
sem negociações, só pode terminar com a capitulação de uma das partes ou com a
paz imposta pelos EUA, com profundo desprezo pela UE, que sairá humilhada.
É por isso
que a política externa da UE não pode reduzir-se à demonização de Putin e ao
ódio à Rússia, usando diferentes lentes para a Rússia e para Israel, para a Ucrânia
e para Gaza, para Putin e para Netanyahu, ou menosprezar as divergências
militares internas.
A UE tem de ser dirigida de Bruxelas, não de Londres, Berlim ou Washington, e muito menos de Kiev de onde, desde há quatro anos, parece ser dirigida. E exige-se coerência.

Comentários