Trump é o Pistoleiro da minha crónica que, anos depois, chegaria a PR dos EUA
Trump é o Pistoleiro da minha crónica que, anos depois, chegaria a PR dos EUA
Bandeira
& Pistoleiro (Crónica) – 4100 caracteres.
Em
fevereiro de 1970, recém-chegado da guerra colonial, conheci o Sr. Bandeira,
por intermédio de amigos oriundos do distrito da Guarda, no Café Nova York,
onde nos reuníamos ao fim da tarde e após o jantar, enquanto ele corrigia a
oscilação das mesas e procurava estudar, desígnio que a instabilidade emocional
lhe impedia.
O
Bandeira, eterno aluno da faculdade de Direito, entrava no Café com um Código
debaixo do braço e abanava as mesas disponíveis para verificar se buliam.
Percorria o Café e, desalentado, voltava sempre à primeira mesa para meter
cunhas de papel até lhe conferir a firmeza possível. Não se dava por
satisfeito, mas resignava-se. O estudo é que não rendia, com aquela
apoquentação de a mesa poder baloiçar. Há anos que mantinha o ritual e o
inofensivo desequilíbrio mental na procura solitária da sua mesa.
Aos
conhecidos dava por conselho que andassem prevenidos com uma pequena esfera
para o caso de terem de alugar um quarto ou apartamento, aconselhando-os a
fugir de zonas em que o soalho fosse oblíquo, como a esfera comprovaria,
rolando.
Um dia, o
Tó Zé Almeida, de pernas cruzadas, balanceava um pé enquanto o Bandeira se
debruçava sobre um livro na mesa próxima. Num determinado momento levantou-se,
irado, e gritou: - Não se pode estudar aqui!
- É comigo! – balbuciou desconfiado o Tó Zé, e o Bandeira disse: - Pois
é, não está quieto com o pé! E o Tó Zé assentou os dois pés no chão, para não
perturbar o estudo ao frágil aluno de Direito que caminhava para os cinquenta
anos.
A conversa
foi prosseguindo entre o grupo habitual e mais de uma hora depois o Bandeira
repete o desabafo anterior, não se pode estudar aqui, e o Tó Zé a verificar o
sítio dos pés e a dizer-lhe, mas eu tenho os pés quietos, e o Bandeira a
replicar, mas eu estou sempre à espera de que volte a cruzar as pernas e a
abanar o pé.
O Bandeira
tinha um amigo de idade próxima, colega de Medicina, curso que acabaria com
garbo e estágio, mas cuja inscrição na Ordem foi logo suspensa pelo claro
perigo que representava para a saúde pública, o que constituiu uma decisão
inédita. Era o Pistoleiro, assim designado por ter ameaçado um professor com a
pistola, objeto que lhe seria confiscado antes do exame e devolvido a seguir,
para comemorar com tiros de alarme a façanha da aprovação. Era um frequentador
assíduo da cantina da Cidade Universitária onde a diferença de idades não o poupava
ao gozo de colegas, com menos três décadas de existência.
Uma vez o
Bandeira foi a casa do Pistoleiro buscar um livro e, apercebendo-se da sua
ausência, pediu à senhoria que o levasse ao quarto, tendo obtido uma recusa por
não estar autorizada a fazê-lo, segundo alegou.
O
Bandeira, apesar da habilidade e da aversão às mesas oscilantes, aos soalhos
oblíquos e aos pés que abanavam, não era habitualmente implicativo nem
mal-educado, mas descontrolou-se e, antes de se retirar, insultou-a com o vasto
reportório de impropérios que lhe ocorreram, enquanto a pobre mulher se
desfazia em lágrimas.
Quando o
Pistoleiro chegou, ainda chorosa, queixou-se-lhe dos insultos, repetindo um a
um todos os palavrões que a amachucaram. Ouvida em silêncio, com toda a
atenção, com a estima e consideração que a senhoria lhe merecia, o Pistoleiro
disse: vou já tratar disso. Saiu logo e foi a casa do Bandeira, onde o
encontrou, e pediu para chamar à sua presença a senhoria dele. Quando esta
chegou, o Pistoleiro, sem tir-te nem guar-te, começou a insultá-la com os
mesmos impropérios, quiçá pela mesma ordem, irado, só se apaziguando quando
despejou o saco de injúrias que trazia.
Depois,
considerando ter feito justiça, aplicada a pena de Talião, com a senhora
estupefacta, despediu-se cordialmente do Bandeira e regressou a casa.
Jornal do
Fundão em 6.06.2007 – In Ponte Europa
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