O Bloco de Esquerda (BE) e a Doutora Mariana Mortágua
O Bloco de Esquerda (BE) e a Doutora Mariana Mortágua
Não é
hábito definir-me pela negativa, referindo-me a um partido político, faço-o
para abordar a vergonhosa perseguição à académica e política Mariana Mortágua.
Não nutro
pelo BE outra simpatia que não seja a defesa da representação parlamentar do partido
que reúne várias sensibilidades marxistas, especialmente o trotsquismo, e de
que me afastam as minhas convicções social-democratas e a defesa da
federalização da UE.
Dito isto,
repugna-me a campanha mediática contra o BE que, paradoxalmente, cresceu nos
média, talvez para tentar esvaziar o PCP. Começou com violento ataque ao
vereador da Câmara de Lisboa, Ricardo Robles, pela valorização especulativa do
seu património imobiliário que as políticas neoliberais dos governos e o
Arrendamento Local (AL), da responsabilidade do município, provocaram, contra
as suas próprias posições políticas.
Depois,
quando o BE teve a derrota eleitoral que lhe reduziu drasticamente a subvenção
do Estado e foi obrigado a despedir pessoas que o apoiavam, entre elas uma
grávida, nova e demolidora campanha surgiu contra o partido. Qualquer
entrevista ou declaração do BE era acompanhada da pergunta, então a grávida,
tal como ao PCP, então a Ucrânia, e as mensagens perdiam-se por entre o ruído
da pergunta e o desprezo pela resposta.
Finalmente,
quando Mariana Mortágua foi coordenadora do BE e deputada única, não lhe
perdoaram a coragem e coerência de viajar na flotilha de apoio a Gaza. Ressurgiu
o ódio, como se fosse crime a indignação com o genocídio dos palestinos, a quem
bastava a desgraça da submissão à sharia sem necessidade de ter Israel
como vizinho e invasor.
O ódio
atingiu a apoteose contra a académica Mariana Mortágua, talvez por amnésia do
brilhantismo da economista na Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES ou, mais
provavelmente, por vingança contra a bem preparada e eficaz parlamentar.
Mariana
Mortágua, licenciada, mestre, pós-graduada em Gestão Fiscal Avançada e
doutorada, ex-docente do ISCAL, professora auxiliar convidada do ISCTE desde
2021, é agora diretora do programa de Doutoramento em Economia. O seu currículo
não permite a campanha para a desqualificar e insinuar um favor político. É curioso
que as personalidades que aceitaram a contratação como Professor Catedrático do
licenciado Passos Coelho, sem currículo docente, contestem as funções da Professora
Doutora Mariana Mortágua.
E o
mais grave não são os ataques à académica Mariana Mortágua, é a investida
contra a liberdade das instituições universitárias, contra académicos que
divirjam da teologia neoliberal, neste caso o ISCTE de Lisboa. É a campanha
contra o pluralismo ideológico.
No caso de
Mariana Mortágua, acresce à misoginia de muitos a mulher que se assume lésbica,
o ódio à esquerda, em geral, à política e ao seu apelido, em particular. Ser
filha de Camilo Mortágua, herdar a coragem e rebeldia do antifascista,
combatente contra a ditadura e revolucionário, é umo pecado que os reacionários
não perdoam.
Surpreende o silêncio das Universidades e a covardia dos democratas perante mais este ataque ao pluralismo democrático sem que a perseguição a Mariana Mortágua mereça a condenação institucional e um clamor generalizado dos meios académicos.

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