MANIFESTO “NOVO RUMO” (II) – decifrando paradigmas…

Um manifesto político é um texto publicitado que denuncia, com um cariz persuasivo, uma ou várias situações (problemas), convocando os cidadãos para acções de resgate (um termo na berlinda) da sociedade. É, fundamentalmente, firmes declarações de intenções escritas numa linguagem assertiva e imperativa.

O manifesto “Novo Rumo” – encabeçado por Mário Soares - link não foge, nas linhas gerais, a este desenho embora não o preencha na totalidade. Isto é, não aparece com uma estratégia suficiente clara e transparente em relação a medidas programáticas preconizadas para combater a selvática e infindável austeridade e os efeitos perniciosos que lhe estão acoplados. Denuncia como inevitável o fracasso das políticas austeritárias levadas às últimas consequências e refugia-se na necessidade de construção de novos paradigmas, sem os explicitar. Aparece na linha de outro manifesto que saíu no mesmo dia (23.11.2011), o dos “128 cientistas sociais” link ou entronca-se num anterior o manifesto de “15 de Outubro” (da “geração à rasca”) link.
Esta profusão de manifestos não é inocente nem ocasional. Trata-se de uma nova fase política que ultrapassou no plano da luta política democrática a era das petições, oriunda dos diferentes quadrantes políticos da Esquerda. link; link; link; link.

Os novos paradigmas que o manifesto de Mário Soares levanta (sem explicitar) originaram diversas tomadas de posição link; link; link, etc. e foram motivo de ampla especulação cujo epicentro gravita à volta da liderança de António José Seguro. Aliás, só hoje, o Secretário Geral do PS, fora do País (Bruxelas) link teve um a primeira reacção ao manifesto, vaga e distante, pretendendo atenuar o impacto deste documento.

Na verdade, o manifesto coloca em causa todos os últimos passos da liderança socialista. Desde à abstenção perante o OE 2012 linkao posicionamento hesitante sobre a greve geral . link
O manifesto de Soares é, na sua essência, um desafio à actual direcção do PS. E significa que perante a actual situação política, o fundador - guiado pelo seu instinto político - preconiza a saída do PS para a rua e um profundo envolvimento na contenda social emergente que, no entender dos signatários do manifesto, deverá ocupar a centralidade da luta política e partidária nos próximos tempos. Este o paradigma “oculto” do manifesto aparentemente vazio de programa. Isto é, a “flexibilização”das amarras que ligam o PS ao Memorando de Entendimento com condição sine qua non para conseguir “fazer oposição” em pleno.

Não se prevêem eleições a curto prazo facto que poderia inibir uma atitude deste teor por receio de afastar o PS da rotineira alternância democrática pelo que a cautelosa senda abstencionista corre o risco de entrar no domínio da ineficácia, quando não numa nefasta ideia de colaboracionismo (que já obrigou a desmentidos). link .

O manifesto parte do princípio que a evolução da situação política nacional não vai – nos próximos tempos - depender de rotinas…

António José Seguro está confrontado entre a herança partidária e o porvir nacional. Mário Soares sem negar a herança quer colocar o acento tónico da acção política do PS no futuro. Soares sabe que quando a crise política se avoluma e agudiza a rua (que é explicitamente e enviesadamente citada no manifesto) poderá ser um campo de batalha fundamental. Foi assim na Fonte Luminosa. link
Esta a mensagem que António José Seguro ouviu, percebeu, mas não está em condições de comentar publicamente.

Todavia, o tempo urge.

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