O patriotismo mora ao lado




Não param as malfeitorias que atingiram em cheio funcionários públicos, reformados e, sobretudo, os desempregados, alargadas em 2013 a empregados das empresas privadas, enquanto grandes fortunas ficam incólumes e vencimentos obscenos e sinecuras pagam favores dos que ajudaram a dupla Coelho/ Portas a chegar ao Governo.

O OE 2013, divulgado em fatias, agravará as desigualdades, caras aos ultraliberais que veem em Milton Friedman o mago das finanças e têm pelas pessoas  o mesmo desprezo implacável, com o pretexto da salvação da pátria. Que raio de patriotismo o deles cujo modelo apenas foi tragicamente testado no Chile com as mortes que se conhecem.

O patriotismo de que me orgulho é a paz e a liberdade que se respira em democracia e o progresso que se almeja na solidariedade entre portugueses.

A Pátria que amo é o território que temos e as pessoas que são, muitas dispersas pelos quatro cantos do mundo. Não é a nostalgia de um passado de vergonha com Américo Tomás sob os holofotes no Dia da Raça, o colonialismo e o massacre de Wiriamu.

Portugal é a pátria resgatada do opróbrio pelo 25 de Abril, não é o império evocado por nostálgicos junto ao Mosteiro dos Jerónimos, no dia 10 de Junho, onde discursam os que calam ou não sentiram as feridas da ditadura.

A Pátria é o idioma e a identidade que liga Gil Vicente e Saramago, que se revê em António Vieira e Fernando Pessoa e se orgulha de Machado Santos, na Rotunda e de Salgueiro Maia, no Largo do Carmo.

Não é, nem pode ser, o espaço que ligou Peniche ao Tarrafal, o Aljube ao Campo de S. Nicolau e a Rua António Maria Cardoso a Caxias.

Somos um povo solidário que nos orgulhamos dos que chegaram à Índia e ao Brasil, mas execramos os que fizeram a matança dos judeus, em Lisboa, há quinhentos anos, os que exterminaram os índios e os que colaboraram com a Inquisição ou com a PIDE.

A minha Pátria vive no coração dos que amam Portugal e não dos que choram a pátria que era doutros. Vive nos dez cantos d’Os Lusíadas e não em quem exuma a memória de Camões para justificar 13 anos de guerra colonial.

Ao discurso desastrado do PM ou às explicações arrastadas do ministro das Finanças, prefiro a poesia de Ary dos Santos ou um só verso de Alexandre O'Neill.

Comentários

Kurcudilo disse…
Poucas palavras aqui te deixo. Mas são sentidas.
Lindo o que escreveste e como te descreveste.
Lindo o retrato de Portuguesismo verdadeiro sem bacoquices e pimbalhices em ocasiões cíclicas para tuga ver e ouvir.
Portugal não se afundará enquanto houver poetas e "escribas" do teu quilate.
Pela minha parte agradeço-te estas linhas.
Estou contigo!
JotaB disse…
Adorei "passar" por aqui hoje.


Veio-me à memória este lindo poema de
Vinicius de Moraes
"Pátria Minha"

http://www.youtube.com/watch?v=wAu1Z8t0kfg&feature=related

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