O presente que nos ameaça e o futuro que nos espera


Enquanto a Grécia se transforma no mausoléu da cultura que pôs a Europa na vanguarda da civilização e a Espanha se desagrega com esperada violência, Portugal dissolve-se na espiral recessiva que alimenta o medo e a depressão coletiva.

A prosperidade, o bem-estar, a solidariedade e a paz que a Europa construiu, depois da guerra de 1939/45, parece estar à beira do abismo e à espera do último empurrão que os agiotas aguardam.

Eram outros os fundadores da União Europeia, outros os sentimentos que os animaram, diferentes os objetivos que prosseguiram no auspicioso caminho percorrido. Hoje, é um corpo sem cabeça a agonizar antes da autópsia do cadáver.

Quem desconhece a História da Europa não imagina do que são capazes os povos que a formam. Quando a herança do Iluminismo já parece ofuscada pelas trevas medievais e os valores da Revolução Francesa pelo espírito das Cruzadas, a fraternidade dá lugar ao egoísmo, a igualdade à luta de classes e a liberdade é ameaçada por novas ditaduras.

A consciência cívica que desperta nas ruas, de forma inorgânica, parece outra primavera árabe que, depois de sacrificar os filhos diletos e generosos, se transforma em cemitério das liberdades. A estridente revolta libertadora pode acabar no silêncio sepulcral de velhas ditaduras.

Quando falta o essencial à sobrevivência das pessoas, quando a fome e o medo tolhem os desvalidos, os mansos transformam-se em feras e os espoliados em ressentidos. Este caldo de cultura, que alguns sonham, é quase sempre o húmus onde germinam as tiranias e fenecem as liberdades.

A Europa apresenta estranhas semelhanças com o início da década da trinta do século que foi. Os despeitados de hoje moram em latitudes diferentes, mas a inquietação, o medo e a revolta apresentam os condimentos que levaram povos atrás de demagogos esquizofrénicos no espaço europeu, primeiro, e depois globalizado.

Há 75 anos, no início do mês que ora decorre, começou a hecatombe que desencadeou o Holocausto, mobilizou 100 milhões de soldados e fez mais de 70 milhões de mortos.

Ainda há pouco pareciam adormecidos os demónios. Ninguém pode garantir que um novo despertar não aconteça. A Europa nunca conhecera, seguidos, 75 anos de paz. Mas malditos sejamos nós se não formos capazes de vencer o egoísmo e o espírito totalitário quando, pela primeira vez, há armas para destruir várias vezes o único Planeta que nos está reservado.

A crise das democracias representativas é uma desgraça e o seu desgaste pelos ataques persistentes e impiedosos podem transformá-la na tragédia que nos cabe evitar.

Ponte Europa / Sorumbático


Comentários

P.A. Lerma disse…
mausoléu camarada?

A Esperança dourada não há-de ser nossa outra vez?

Num mausoléu não há porrada a rodos, tivéssemos nós arremessadores de garrafas e petardos daqueles e já tinhamos tomado o poder.

Quais gregos, aquilo são beirões e algarvios dos bons, as matas até ardem melhor do que as nossas e o resto também, a polícia fascista é que arde mal.

O futuro não nos espera, já fugiu para Paris, Texas.
C. E.

Os perigos para que alerta são infelizmente reais. As troikas, as políticas de austeridade e os agiotas que estão por trás delas estão a criar situações explosivas nos países que delas são vítimas. A revolta dos povos é inevitável.

Longe de mim ser xenófobo, mas a indiscutível verdade é que a arrogância teutónica, baseada na mera superioridade financeira, sobre os países latinos, só ajuda a deitar achas para a fogueira. É absolutamente intolerável o desprezo e - no menos mau dos casos - o paternalismo, com que Frau Merkel e os seus acólitos, empoleirados na sua riqueza, se dirigem a esses países que deviam respeitar. Chega a parecer que a Alemanha pretende, através da opressão económica, desforrar-se das derrotas que sofreu nas duas guerras mundiais que provocou no século XX e conseguir pelo dinheiro aquilo que Hitler não conseguiu pelas armas: a submissão da Europa à hegemonia germânica.

A revolta é pois plenamente justificada, mas, infelizmente, se se sabe como começa não se sabe como acaba. Historicamente, como muito bem diz no post, muitas revoltas justificadas acabam em tenebrosas ditaduras.

Participei convictamente na manifestação do dia 15, e apelei,e continuo a apelar, para que os cidadãos embuídos de verdadeiro espírito cívico participem nesse tipo de manifestações.

Mas não me agrada nada ver, tanto na Grécia e na Espanha como em Portugal, pequenas ou grandes multidões de duvidosa inspiração, manifestamente infiltradas por pescadores de águas turvas que nestas alturas sempre aparecem, atacar os edifícios das parlamentos nacionais, sedes da verdadeira democracia - aquela que, como dizia Churchill, é o pior dos sistemas políticos, excetuados todos os outros.
E só criminosos de delito comum podem, num país democrático, ver na polícia o inimigo a abater. A menos que se trate daquela espécie de idiotas que, quando se lhes aponta a Lua, em vez de olharem para esta olham para o dedo que a aponta.

E é com apreensão - embora sem surpresa - que ouço gritos de ódio contra todos os políticos, sejam eles de direita, do centro ou da esquerda. Digo sem surpresa porque já não é novo esse discurso, inquestionavelmente fascista.

Nestas circunstâncias, impendem sobre as organizações democráticas - partidos, associações, sindicatos, etc.,- enormes responsabilidades. Cabe-lhes dar sentido à revolta popular e impedir que esta degenere em insurreição das plebes urbanas. Cabe-lhes a missão da pedagogia cívica. Cabe-lhes sobretudo propor soluções credíveis para os problemas.

Esperemos que essas organizações, a começar pelos partidos democráticos, saibam estar à altura das circunstâncias. Seria dramático que não estivessem.
Caro A.H.P.

Subscrevo a 100% o seu comentário e partilho de todas as suas preocupações e reflexões.
Manuel Galvão disse…
A.H.Pinto,
"Cabe-lhes dar sentido à revolta popular e impedir que esta degenere em insurreição das plebes urbanas". Isto nunca vai acontecer enquanto o recrutamento de pessoas para exercerem atividade política se fizer nas máquinas partidárias e enquanto o financiamento dos partidos transparente.
Vai acontecer aos partidos das democracias ocidentais o que aconteceu aos clubes de futebol; transformarem-se em empresas SA que podem ser compradas e vendidas entre milionários que desenjem tirar um qualquer partido deles. Agora já quase é assim...
Manuel Galvão

Concordo consigo no que toca à fraca qualidade dos atuais dirigentes políticos, que em grande parte se deve a essa espécie de aviários que são as chamadas "jotas".
Infelizmente, o mal não é só português. Longe vão os tempos dos Willy Brandt, Miterrand, Olof Palme e outros!

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