Quo vadis, Europa?

 

Zeus raptou a Europa, disfarçado de touro para iludir Hera, sua mulher, e fugir ao seus ciúmes. Cadmo procurou a irmã, mas Zeus, pai dos deuses e dos homens, levou-a para Creta onde lhe deu três filhos. 

A Europa, filha de Agenor, rei da Fenícia, era então, na mitologia grega, uma paixão de Zeus e um ódio de estimação de Hera.

O ódio dos deuses não cansa. Quem sabe se Hera quer ainda vingar-se da Grécia por ter escondido numa ilha do sul do Mar Egeu, a amante de Zeus? Basta de tanto sofrer!

Será que, perdida a beleza e a virtude, a Europa foi abandonada à sua sorte, depois de os deuses terem sido remetidos à mitologia?! Que pecados cometeram a Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda e Chipre para serem ainda perseguidos por Hera ou, em seu nome, por uns deuses a que falta a beleza helénica e o humanismo europeu – os «mercados»? 

Hoje, a Europa está mais dependente da Sr.ª Merkel do que dos deuses do Olimpo ou do ciúme da mulher de Zeus. Eu continuo a achá-la, na sua fragilidade e beleza, nos valores que conserva e nos sonhos que ainda guarda, a eterna inspiração dos meus afetos.

À medida que a vejo debilitar-se sob o peso da globalização, incapaz de corresponder aos sonhos dos 740 milhões de pessoas que a habitam, quero acreditar na convalescença da mãe de todas as liberdades, na saúde do berço da democracia, na força da esperança na justiça social.

Um amante, quando vê a amada em risco de perder-se, não perde a fé na sua amada nem a esperança num futuro comum. Zeus deixou por aí uns filhos que não eram da Europa, uns descendentes que não estão à altura da deusa que habitam e da sua natureza.

Esperemos que Merkel, cuja dimensão da vitória só pode ter sido alcançada com a ajuda de Zeus, não se converta em Hera e persiga a Europa, incapaz de compreender que não haverá Alemanha sem Europa.

Comentários

e-pá! disse…
As últimas informações que apontam no sentido de Merkel, por pouco, não ter atingido a maioria absoluta não são tranquilizantes para a Europa.
A necessidade de fazer 'uma grande coligação' deixam - dada a liderança política, económica e financeira - a velha Europa cada vez mais dependente do governo que irá instalar-se em Berlim.
Governo que ao elaborar o seu programa, segundo tudo indica com o SPD, não terá - ao nível político interno - qualquer oposição (digna desse nome).
E o SPD, cujas atitudes titubeantes sobre a Europa levantam nos cidadãos europeus grandes incertezas, não tem 'força eleitoral', nem líderes, capazes de travar ou amenizar o ímpeto neoliberal da CDU.
As eleições dizem, em primeiro lugar, respeito aos alemães, mas a UE poderá ter sofrido, nas eleições de ontem, um grave revés.
Na verdade, os sucessivos adiamentos das resoluções dos problemas europeus, sob o pretexto da necessidade de aguardar pelas eleições alemães, revelam estarmos perante mais um caso de esperança frustrada.
E a Europa precisa de esperança como de pão para a boca.
Manuel Galvão disse…
A Alemanha é um país ocupado. Dominado pelos grandes bancos norte americanos.

A Alemanha é o cavalo de troia dos norte americanos na Europa Ocidental, está a ser usada para garantir a não interferência do euro na hegemonia do dólar.

Os PIGS não foram estouvados. Foram induzidos a desenvolver os respetivos países em infraestruturas necessárias à instalação das indústrias e serviços globais.

Construíram a crédito, alimentando o cavalo, e agora têm que pagar o preço de continuarem a pertencer ao Clube dos Pilha-Galinhas!
Agostinho disse…
Se não há união na Europa e aqueles que mais necessitam dela, pela sua pequenez, para terem visibilidade, não foram nem são capazes de juntar-se, por razões da sua essência genética; fustigados por invernos de penúria acoitaram-se pelo jogo da sedução a duas belas senhoras (Alemanha e França), sentando-se submissos à mesa dos ricos julgando os seus problemas resolvidos por artes de magia;


Se, porventura, no coração dos alemães mora o sonho da construção da Grande Alemanha no miolo e no leste da Europa, hoje com um guião e roupagens novas, com a bengala da França orgulhosa na suas botas e baionetas, suporte do seu complexo imperial.

E a realidade mostra que os alemães apreciaram o trabalho da sua chanceler, reforçando o peso eleitoral que já detinha.

É bom que Portugal reconheça que o papel que lhe cabe na nova peça é do mendigo à espera da sopa no alpendre que a grande senhora, por caridade, lhe concederá fria a horas tardias. A não ser que se encha de brios e plante as suas próprias batatas e diga não quando tiver que ser.

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