A crise política grega e o requiem pela Europa…

A eventual saída da Grécia da Zona Euro, imposta pela Alemanha, com o intuito de reforçar a qualquer preço o caminho das políticas de austeridade e com o objectivo de adquirir equilíbrios orçamentais, assentes num brutal empobrecimento dos países mais debéis e periféricos, parece ser a resposta encontrada por Berlim à crise política grega link.

Trata-se de uma solução política muito ‘germânica’. Pouco imginativa, demasiado pragmática e extremamente agressiva. Numa palavra: impregnada de uma inflexibilidade teutónica.
 
No passado (desde 2010), a saída do Grécia da Zona Euro foi evitada com receio dos ‘efeitos sistémicos’ e agitando a bandeira de uma suposta ‘unidade europeia’ que geraria ‘mecanismos de solidariedade’.
Durante o período de resgate da Grécia (mais de 4 anos) decorreu tempo suficiente para pôr a salvo a exposição financeira alemã à pesada divida pública grega. Ficou, deste modo, aberto o caminho para deixar o povo grego entregue a sua sorte, lançando-o, desprotegido, na sanguinária arena dos ‘mercados’.

A posição defendida pela chanceler Merkel e o seu ministro das Finanças será o mais recente, perfido e maior ataque ao ‘conceito de uma Europa unida e dos povos’. Pretende-se salvar uma ‘Europa das Finanças’ com a prévia e cega ostracização dos chamados devedores.

É a transcrição mecânica para a política do dualismo ‘cozinhado’ para o sector bancário (banco bom versus banco mau). A Grécia seria, nesta abordagem maniqueísta, relegada para um novo grupo: o dos ‘países maus’. Todavia, não existem povos párias, malditos ou desprezíveis - fora de um conceito xenófobo. A confusão entre as entidades populares e os transitórios e efémeros governos (estes podem efectivamente ser maus, demagógicos e irresponsáveis) passa por um profundo desprezo da essência das soluções democráticas – o voto popular e universal (situação que a Grécia enfrenta neste momento).

Um recente artigo de Paul Krugman no El País link mostra o que se está a passar, no Mundo (e não só na Europa) com os mecanismos de redistribuição da riqueza. A previsão de que poderão acontecer ‘coisas muito más’ se não fizermos algo é extremamente realista e oportuna. Nasce daí o conceito de ‘vale do desespero’. Até aqui tem sido para o povo grego um ‘vale de lágrimas’.
Irrealista será pensar que estas políticas só se aplicam aos gregos, injustamente anatemizados como perdulários, despesistas e refratários quanto às obrigações fiscais.

Na verdade, todos os resgates (explícitos ou implícitos) a que temos assistido assentam em problemas da dívida pública, em desequilíbrios orçamentais e num circuito vicioso de austeridade que se alimenta do empobrecimento sob a espumosa névoa de ‘novos amanhãs’ desenvolvimentistas assentes numa ilusória ‘sustentabilidade’ conseguida a qualquer preço e ignorando (espezinhando)qualquer contexto político e social. 
De facto, o que se tornou insustentável e inconcebível será acenar com o espectro do austero empobrecimento como se isso fosse uma solução redentora e que os 4 anos de penosos sacrifícios e desumanas privações (vividos pela Grécia) demonstraram não funcionar. Portanto, estamos todos (os países europeus economicamente mais débeis e não só a Grécia) na mira de decisões rígidas, de índole monetarista e aplicáveis através de sistemas 'neo-bismarckianos'.

Existe, todavia, uma outra certeza e/ou uma outra inevitabilidade. De expurgo em expurgo o que restar de pouco servirá para todos, mesmo para os actuais emanadores de diktats. Tentar resolver os novos e emergentes problemas [que a ‘novidade’ do escrutínio democrático pelo povo grego parece estar a introduzir] com velhas soluções - as ‘ameaças’ do senhor Schäuble são antigas e recorrentes - nunca poderá ser entendido como uma resposta adequada ou sequer legítima.
Quando se ouvem as subreptícias ‘ameaças’ de Merkel e de Schäuble elas, na verdade, soam como um inusitado (e antecipado) ‘Requiem’. Estamos todos a ser convocados para isso.

Comentários

Gostava de ter sido eu a escrever este texto.

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