Mensagem de Ano Novo: uma profissão de fé ou um acto vergonhoso ?

Ontem, na sua mensagem aos portugueses, Cavaco Silva decidiu dar o pontapé de saída à campanha eleitoral da actual maioria em relação às Legislativas deste ano.

Numa comunicação pobre, repetitiva e, portanto, pouco inovadora (é espantoso como qualquer político refere-se à importância da inovação quando nada disso transparece nas comunicações que fazem) o Presidente da República colou-se literalmente às linhas programáticas que têm funcionado com o eixo político (e eleitoral) da actual coligação governamental.
Se não vejamos o que disse: “Atualmente, é consensual que só através de uma estratégia orientada para a competitividade das exportações, para a atração de investimento e para a criação de emprego será possível vencermos os desafios do futuro. Uma estratégia acompanhada do controlo das contas públicas e do endividamento externo…link.

Ao ouvir estas palavras qualquer português fica com dúvidas sobre duas coisas:

Primeiro, ninguém consegue divisar onde o presidente ‘encontrou’ a referida consensuladidade, que cataloga como sendo estratégica, se as questões relativas ao desenvolvimento económico (e não só ao crescimento e desemprego) não foram sequer objecto de discussão pública no amplo espectro partidário representado na AR. Trata-se provavelmente de uma ‘consensualidade adquirida’ pela Presidência da República  subsidiária dos 3 anos de diktat e de intervenção externa;
Em segundo lugar, quando se focaliza nas exportações, no investimento, no emprego, etc. e do modo como o faz, tão superficial, venal e ardiloso, mais parecia Passos Coelho a dirigir-se a um forum da JSD ou qualquer outra eminência parda a ‘leccionar’ num cálido dia de Verão em Castelo de Vide.

Na verdade, sendo esses objectivos desígnios necessários para o País ‘sair da crise’ é penoso entender que o Presidente da República não queira reconhecer que existem vários caminhos para os atingir. Trata-se de um problema de metodologia e de ‘instrumentos de acção’, com amplas variantes políticas e ideológicas, que o enfeudamento partidário não lhe permite explicitar. A dificuldade em aceitar de que o tempo das ‘não-alternativas’  terminou mostra como é artificial a propagada concepção  do ‘fim da intervenção externa’. O não reconhecimento de alternativas infesta toda a comunicação de Ano Novo, onde abordou antecipadamente o ano eleitoral que aí vem, retirando-lhe credibilidade sendo revelador de um medíocre senso democrático.
Os paternais conselhos que resolveu dirigir aos partidos (fundamentalmente à Oposição) perdem, pela brutal desvalorização dos actos eleitorais, toda e qualquer oportunidade.  

Na parte final da comunicação o Presidente da República resolveu mergulhar no concerto propagandístico da actual maioria governamental:
Portugal concluiu e execução do programa de ajustamento em 2011 com as instituições internacionais sem necessidade de solicitar assistência financeira adicional.
A economia está a crescer, a competitividade melhorou, o investimento iniciou uma trajectória de recuperação e o desemprego diminuiu…”  link.

Nesta tirada tentou o pleno em favor da coligação. O primeiro parágrafo encaixa-se no tradicional discurso de Paulo Portas em ambientes de exaltação nacionalista e circuitos ‘extra-feiras’ e a segunda parte desta tirada reproduz textualmente as lengalengas que Passos Coelho elegeu para guião nas próximas legislativas e são repetidamente ‘marteladas’ por Marco António Costa em todas as aparições públicas, como porta-voz do PSD.

A finalizar lá voltou a alinhar-se com Paulo Portas e introduziu a figura do Bom Ano […“A todos os Portugueses, e às suas famílias, renovo os votos de um Bom Ano de 2015, feito de paz e esperançalink].
Um remate muito em linha com a ‘mensagem de Ano Bom’ de Portas aos militantes do CDS link.
O trocadilho ‘Bom Ano’ e ‘Ano Bom’ é bem exemplificativo da convergência de mensagens e de interesses políticos.

E assim desbaratou Cavaco Silva a possibilidade de poder ser um árbitro da conturbada e crispada situação política que vivemos em Portugal e, deste modo, garantir o regular funcionamento do regime democrático tendo, decididamente, alinhado pelo papel de jogador. Como se diz na gíria futebolista: ‘vestiu a camisola’.

Nunca um Presidente da República – no regime saído do 25 de Abril - lesou com tanto despudor, inépcia e de modo tão grosseiro a imparcialidade obrigatória que lhe é inerente ao exercício do cargo.
Vergonhoso!

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