O Estado, a miséria e a insensibilidade

Quando se lê que 52 mil idosos perderam o complemento solidário há um nó que aperta a garganta, uma descarga de adrenalina que atrai palpitações e um desconforto que gera a revolta. Apetece dar um murro na mesa, à falta de quem preferíamos achar os dentes.

O Estado, generoso para os amigos, é indiferente a quem perde as forças, a voz e a vida. Está confiscado por sôfregos que devoram o que mingua à sobrevivência das crianças e velhos.

Pertenço aos últimos, não me queixo, com mais do que preciso, apenas sentindo dores de quem esconde a necessidade, os dramas que se adivinham nas ruas, onde pululam pedintes, e nos autocarros onde, sem pudor, se fala de dramas familiares.

E não são apenas os biltres que assaltaram o pote os  responsáveis da tragédia silenciosa que nos atinge. É a Europa que, perdido o fôlego e o sentido de partilha, se fecha sobre si própria, num lento e inexorável declínio, sem ideias, projetos ou, sequer, princípios. O bastião das liberdades e da justiça social trocou a solidariedade pelos nacionalismos, a entreajuda pela usura e a paz pelo risco.

Na Europa do pós-guerra surgiu um alfobre de ideias e de generosidade. Voltam agora as condições e fantasias que precederam as duas últimas guerras. A memória dos povos é curta e outros protagonistas se preparam para novo festim de sangue e lágrimas.

Em 2014, em Portugal, 52 mil idosos perderam o complemento solidário.

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