Bento XVI, o ateísmo e o nazismo

Fez dois anos que Francisco iniciou o pontificado. Sei que um homem bom não prova a existência de Deus, mas pode melhorar a vida de muita gente, se a tiara cobre a cabeça certa. Aos olhos indiferentes de um ateu, este papa é um bom homem que parece sofrer com as injustiças humanas. Não me inspira devoção mas merece-me respeito.

Tenho pelos Papas, por todos os papas, uma devoção inversa à que a Aura Miguel nutre por qualquer um e João César das Neves por todos menos o atual. Mas uma coisa são estados de alma e outra os factos.

Sou incapaz de desejar a alguém o que a ICAR fez a judeus, bruxas, hereges e a todos os que contrariaram os seus interesses. Não vou remexer nos crimes que desde Paulo de Tarso e Constantino se fizeram em nome de um judeu imolado pela salvação do mundo e nem a si próprio se salvou. É hoje a referência para as multinacionais da fé que vivem da sua alegada divindade como os homeopatas do valor terapêutico das mezinhas.

O que um ateu não pode olvidar é que o ex-inquisidor comparou o ateísmo ao nazismo, esquecendo que a sua Igreja já excomungou o ateísmo, o comunismo, a democracia, a liberdade e o livre-pensamento, o que nunca fez ao nazismo ou ao fascismo. O próprio Estado do Vaticano, a única teocracia europeia, foi obra de Benito Mussolini que, entre outras manifestações pias, impôs o ensino da religião católica nas escolas públicas.

Uma Igreja que apoiou Franco, Pinochet, Mussolini, Salazar, Videla, Somoza e o padre Tiso perde autoridade para condenar assassinos como Estaline, Mao, Pol Pot, Ceauşescu ou Kim Il-sung cuja esquizofrenia sanguinolenta os levou a cometer crimes em nome de uma crença política e não do ateísmo.

Bento XVI foi conivente na ocultação de crimes cometidos pelo clero, manteve o IOR como offshore do Vaticano, protegeu o Opus Dei, Legionários de Cristo, Comunhão e Libertação e a seita fascista de sequazes de monsenhor Lefebvre. Carecia de autoridade para difamar os ateus a quem a liberdade deve mais do que à sua Igreja.

Se não receasse a morte prematura, podia continuar ainda a canonizar admiradores de Franco, colaboradores da CIA e outros defuntos pouco recomendáveis. Podia continuar a exibir relíquias falsificadas e vender os milagres engendrados numa repartição pia, mas não podia insultar os ateus e esperar que estes esquecessem a diatribe.

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