No meu país do medo…

Quando o medo nos domina, porque é incerto o futuro e imprevisíveis os desígnios dos patrões, porque à nossa volta a insegurança nos contagia, a primeira vítima é o carácter. Perdemos o amor-próprio e descremos do futuro, arruinamos a confiança e duvidamos da sobrevivência, deixamo-nos envolver pelo temor e acabamos em pânico.

Vão maus os tempos, parece que a vocação suicida vai tomando conta de nós. Os novos anseiam por um lugar e os velhos temem que os abandonem. A cultura é um luxo que a vida atual dispensa, a leitura um capricho que alguns teimosos ainda ousam e a arte uma atividade supérflua à espera de outros dias.

O eclipse do Sol que outrora pressagiava desgraças de um Deus vingativo, sinal do Céu de que bruxas, judeus ou hereges tinham ofendido o deus de Abraão, é agora a raridade que serve de pretexto para óculos bizarros e romarias de curiosos.

Não é na astronomia que os eclipses despertam mais interesse ou qualquer resquício de superstição, é na política. Nesta, assistimos a eclipses totais da ética, à interposição dos interesses pessoais com os coletivos, ao desaparecimento das estrelas sob uma chuva de meteoritos que atulham o firmamento político. O fulgor das estrelas é substituído pela cauda reluzente de cometas efémeros, de trajetória incerta, ou pela sombra dos satélites que entram na atmosfera partidária e queimam o aparelho de Estado.

Trágica é a substituição progressiva dos astros de primeira grandeza por poeiras siderais que nos intoxicam os pulmões, nos poluem o ar e privatizam a água, no cumprimento de uma agenda que nos exclui, numa deriva que intimida, numa obsessão que nos paralisa.

O medo é a arma contra a dignidade. E o medo, um medo que não é irracional, tolhe-nos primeiro a coragem, corrompe-nos depois a dignidade e, finalmente, mata-nos. Com os sucessivos eclipses da ética, da honra e do patriotismo de quem nos governa tornamo-nos vegetais com falta de luz para a fotossíntese e acabamos mortos. De medo e de vergonha.

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