Religião e política e a política da religião


As manifestações contra o Governo brasileiro têm causas legítimas e objetivos obscuros que exigem uma cuidadosa atenção.

Deixemos de parte a corrupção, apesar da importância basilar, que cresce com o rápido desenvolvimento económico e cuja perceção pública aumenta em regimes democráticos, para analisar outras vertentes, igualmente relevantes.

O Brasil tem hoje uma riqueza, jamais conseguida no passado, e um desenvolvimento que o tornou uma potência económica mundial. A fome, a pobreza e o analfabetismo foram fortemente combatidos e com assinalável êxito.

O que leva, então, às gigantescas manifestações de protesto? Por um lado, a estagnação económica que a descida dos preços do petróleo tornou inevitável, por outro o domínio dos órgãos de comunicação social ao serviço de interesses que, no passado, sustentaram ditaduras e se alimentaram delas.

As religiões deviam evitar comprometer-se politicamente sob pena de verem um dia o seu clero a ser reprimido em nome da democracia e da laicidade que este regime exige.

No Brasil, salvo raras exceções, e estas também politicamente expostas, várias correntes cristãs têm assaltado o aparelho de Estado através de partidos políticos e do domínio de órgãos de comunicação que convocam e apoiam, em direto, as manifestações. A Rede Globo é uma central de intoxicação ao serviço de interesses financeiros e dominada por cliques religiosas. Terá poder para derrubar um governo democraticamente eleito mas as consequências poderão ser fatais para o seu futuro.

Quando uma manifestação organizada, não são bandos caóticos, deixa que os cartazes a anunciem como “Marcha dos Cristãos” e tenha como lema o combate ao comunismo e o apelo à ‘intervenção militar’, sem que a hierarquia religiosa denuncie o carácter golpista e o condene, é legítimo ver no combate à religião a defesa da democracia.
Será dramático para os crentes, mas, entre a democracia e a religião, os cidadãos têm de fazer a sua opção. No Brasil, tal como no passado, a religião apoia de novo um regime totalitário de natureza militar, arriscando a credibilidade e a sua própria liberdade.

Quem não defende a liberdade dos adversários não é digno da sua.

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