O caloteiro. No princípio era o verbo – tempos e modos


Passos Coelho apresentou-se como o futuro indicativo da transparência e tropeçou no gerúndio do verbo delinquir. Delinquindo, tornou-se delinquente no cumprimento das obrigações fiscais que exigiu aos portugueses. Relvas e Marco António guiaram-no na arte de bem fintar o Fisco e a Segurança Social e fizeram do discípulo mestre.

Tendo delinquido, o adjetivo verbal trouxe ao presente o pretérito mais-que-perfeito do delinquente fiscal, delinquiu, e deixou-o sem futuro do indicativo ético.

O imperfeito do conjuntivo podia salvá-lo da infâmia, isto é, se pagasse, quando baniu do seu objetivo ressarcir a Segurança Social, passando a ‘delinquir´ – infinitivo pessoal –, à espera do termo do mandato. A desculpa foi arranjada com a notícia que o obrigou a pagar imediatamente. A dívida [pelos vistos, parcial] foi paga, mas a nódoa avoluma-se e todos acreditam no presente do conjuntivo, isto é, que delinqua de novo.

Foram, aliás, os tempos compostos do verbo que fizeram do deputado em exclusividade de funções uma espécie de tuk -tuk com espaço para vários lugares. Já tinha delinquido com a Tecnoforma e acumulou com a dúvida do condicional: ‘delinquiria’ outra vez, se tivesse oportunidade. Delinquiu na falta de entrega da declaração de IRS quando pediu o subsídio de reintegração de deputado, e delinquiria – pretérito mais-que-perfeito – nas sucessivas retificações do IRS apresentadas às Finanças e só poderá conjugar o futuro imperfeito do indicativo na 1.º pessoa do singular: eu ‘delinquirei’, porque está no seu ADN e só o PR duvida.

O Tribunal Constitucional, que não perde papéis, porque não está sob a alçada de quem delinqui, também não recebeu a declaração de bens a que era obrigado. Só as Finanças* levantam autos aos funcionários que queiram consultar a sua situação fiscal. De quem delinqui em vários tempos e formas verbais, espera-se que o volte a fazer no presente do conjuntivo, que ‘delinqua’ sempre.

* «O Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais terá entregue, em outubro passado, uma lista de contribuintes VIP à direção de segurança informática do Fisco. Paulo Núncio nega, mas a VISÃO soube junto de fontes das Finanças que a decisão terá sido tomada no auge do "caso Tecnoforma", envolvendo Passos Coelho». (In Visão, ontem)

No princípio era o verbo, agora um adjetivo. Substantivado. Caloteiro.

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