CORNUCÓPIA: A morte anunciada…


O Grupo de Teatro ‘A Cornucópia’ nasceu na agonia do fascismo (1973) lado a lado e incorporando um conjunto de grupos de intervenção cultural e artística que foi apelidado de Teatro Independente. O recente anúncio do encerramento do grupo link deve originar uma breve reflexão e no mínimo questionar o rumo das políticas culturais do presente.
 
No final dos anos 60 e início dos 70 o teatro português foi dominado pelas comédias de Vasco Morgado, por algumas companhias de teatro de revista, por um vasto teatro amador (recreativo e de coletividades) mas de âmbito e qualidade incipiente e pelo Teatro Universitário cheio de entusiasmo e valores mas muito condicionado na capacidade de intervenção (com um público muito reduzido).
 
O teatro independente é, acima de tudo, um conceito cultural novo e de rutura. Uma vivência concreta sem espartilhos estéticos. Em choque com dogmas passadistas. Comprometido com as pessoas que no dia-a-dia (presente) se cruzam carregadas de problemas, medos, interrogações mas também de vontades, ambições e esperanças. É uma produção dramática e artística assente e gravitando à volta de contrastes (algumas vezes cruentos), representando jogos (muitos imprevisíveis) onde não cabem os classicismos (tragédias, comédias, etc.).
 
A Comuna e Cornucópia anteriores ao 25 de Abril bem como outros que nascem decorrentes da viragem política ocorrida desde então – Bando, Casa da Comédia, Barraca, Teatro da Graça, Seiva Trupe, Teatro de Campolide, etc. - foram os artífices da identidade do teatro português moderno. Que abrangem um vasto leque de opções e performances desde as clássicas e tradicionais representações de Rey-Colaço, às maestras e rigorosas encenações de Fernando Gusmão (Grupo 4), aos modelos brechtianos de Mário Barradas (Centro Cultural de Évora) até às radicais e vanguardistas inovações de Victor Garcia no Teatro Universitário (CITAC).
 
Luís Miguel Cintra (fundador da Cornucópia) está no meio deste turbilhão de mudança e afirmação. Teve aí um papel activo, esclarecido, formativo e inovador. O trabalho desenvolvido por L M Cintra foi enorme mas mais do que isso foi uma participação respeitada pelos colegas e pelo público. O seu instrumento funcional é (foi) o Teatro da Cornucópia.
 
O anúncio do fim desta companhia teatral é, com certeza, uma tragédia (não para o Teatro que já viveu e representou muitas) mas para o património cultural nacional.

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