Pedro e Rui: O debate inútil e inconsequente…

O candidato à liderança do PSD, Pedro Santana Lopes (PSL), tem pugnado pela realização televisiva de debates como o seu opositor interno Rui Rio (RR) e, após inúmeras peripécias, realizou-se, no passado dia 4, o primeiro embate  link.
 
Para quem alimentava expectativas quando ao esclarecimento de ‘novas ‘ e ‘melhores’ posições do PSD para com o País, depois de um período oposicionista desastroso em que - pela direção cessante - nenhuma ideia concreta foi expandida, como alternativa à atual situação política, o debate transformou-se num espetáculo verdadeiramente deprimente.
 
Durante uma longa primeira fase do debate (quase uma hora) trocaram-se insinuações e lavou-se abundante roupa suja atreita às tricas partidárias. Ambos os candidatos à liderança têm um longo percurso partidário, nem sempre posicionados nos mesmos redutos, e ambos trouxeram à colação episódios menos edificantes dessa caminhada e teimaram em explicar situações marginais e de certa maneira inexplicáveis, para a maioria dos telespectadores.
 
PSL e RR evidenciaram que estas eleições não passam de um render da guarda. Nem uma palavra de encontro ao ‘ímpeto reformista’ que o PSD tanto invoca para se posicionar na Oposição. Ninguém sabe do que reformas se trata e muito menos não surge uma luminária que seja capaz de expor conteúdos.
 
Santana Lopes repete até à exaustão a sigla PPD que a cola à designação de PSD. Este pode ser o único indício sobre a sua posição político-partidária. Ao enquistar-se na velha designação de ‘Popular Democrático’ poderá, subliminarmente, estar a levantar o véu sobre uma via ‘populista’ que não tem coragem política para abertamente exibir. Todavia, sabemos que Portugal não estará para sempre indemne à esta deriva que fustiga a Direita europeia. Os primeiros indícios vieram ao de cima nas últimas autárquicas e a posição dúbia do PSD quanto ao seu candidato em Loures (André Ventura) deixou antever fragilidades.
 
Rui Rio cavalga uma espécie de onda sebastianista que varre o PSD assente no saudosismo que envolve a mítica figura do seu fundador Sá Carneiro, um misticismo  que se acentuou com a desastrosa prestação política decorrente da deriva neoliberal protagonizada por Passos Coelho que, entre outras coisas, ‘desestruturou’ o partido. O sebastianismo é historicamente uma nebulosa situação (o eterno aguardar pelo dia de neblina) e encobre sempre alguma coisa. Rui Rio - depois de múltiplas solicitações - envolveu-se nesta onda que, aparentemente, ergue-se no timing por si idealizado.
O seu programa – e logo o seu espaço - pouco acrescenta ao ‘neoliberalismo passista’ e dificilmente se distancia do ‘populismo santanista’. É muito pouco para a almejada mudança e reposicionamento ideológico que muitos reclamam e o País aguarda. A aura de competência e rigor que está colada a RR não preenche o vácuo criado pelas derivas que começam há muito tempo (desde Cavaco Silva?), infestam um obtuso e equívoco esqueleto social-democrata e o descaracterizam.
 
Afirmar-se social-democrata para colher benefícios à esquerda poderá ter ‘funcionado’ há 30 ou 40 anos para fugir à chancela redutora de ser um partido de Direita (tout court), mas foi chão que deu uvas já que os neoliberalismos (de vários modelos) destruíram e colonizaram a social-democracia, transformando esse espaço ideológico num terreiro ‘social-liberal’ onde vale e cabe tudo e que passou,  também,  a representar a ‘Direita envergonhada, populista, mistificadora e ultraconservadora’.
O debate da última 4ª. feira revelou também, uma outra nuance: é a possibilidade de um cidadão que poderá ter sido um bom edil mas, em contrapartida, isto é,  em termos de liderança político-partidária, pode não ultrapassar a mediocridade.
 
Estas as razões porque poderemos estar a assistir ao ritual de um banal render da guarda. Acabado o turno passista no meio da maior confusão programática e de um ‘diabólico’ descrédito, surgirá uma nova direção de acordo com a escala de influências internas (partidárias), sem que tenha ocorrido qualquer inflexão doutrinária substancial, sem acertos ou reposicionamentos ideológicos, e resta saber se essa ‘mudança’ ou, melhor, ‘a mudança na continuidade’, convence os militantes e, o que é mais importante para o partido, volta a credibilizar o PSD perante os portugueses.
 
O centro político em Portugal, e de resto no Mundo, é acima de tudo um espaço da geografia política que está desabitado em consequência da onda neoliberal e muito embora seja (re)visitado por muitos, a residência efectiva nesse rincão ideológico é difícil e poderá até ser impossível (nos tempos atuais). Em tempos de crise a radicalização emergente tem estas consequências. Desaparecem as bissectrizes moderadas tanto à Direita como à Esquerda e criam-se 'buracos negros' que sugam tudo e todos os que tentam orbitar à sua volta. Esta uma das razões porque se ouvem repetidamente - quer à Esquerda quer à Direita - 'exorcizações' sobre o dito 'centrão'.
 

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