TRUMP: The ‘first year’ e outros ‘First’s’…


Os slogans são - em larga medida - postulados (não axiomas) debitados pelos políticos desprovidos da arquitectura de pensamento aristotélica, dos fundamentos socrático-platónicos e da sistematização matemática euclidiana.

Os slogans - na propaganda política - misturam tudo: a racionalidade, o desejo, a ilusão, o imaginário, o método, os meios, os fins, etc. 

São construídos – por agências de marketing e spin doctors - à volta de irracionalidades sonantes e de contradições gritantes para ‘levar a água ao moinho’, vender uma falácia, mistificar desejos ou impingir um qualquer (e diletante) títere e putativo candidato a uma imprevisível e errática liderança (como se verificou há 1 ano com Donald Trump).

Um dos mais terríveis slogans – porque perigoso em termos de entendimento e execução - é o ‘America, First !’ que conseguiu mobilizar muitos americanos para uma ‘nova cruzada’ e levou ao poder um vendedor de imóveis e de ilusões cavalgando as inseguranças, os medos, os preconceitos e as crenças que ‘afligem’ o Mundo.

Donald Trump é um fruto visível das contradições inerentes a uma globalização desenfreada e desregulada que ‘desorientou’ (e esvaziou) as (ditas) classes médias no ‘período pós-industrial’  onde foram colocadas em sérias dificuldades e sem perspectivas de futuro.

A descabelada retórica de Trump (e do seu volátil staff) assenta arraiais num ‘melting pot’ de infantilidades, insultos, xenofobia, racismo e sexismo, absolutamente intoleráveis no estadio actual do nosso desenvolvimento global mas em choque frontal com a evolução cultural (civilizacional)  da Humanidade. 

O ‘America First!’ pretende, acima de tudo, servir o prolongar do estertor do imperialismo americano e evitar o incontornável ‘shutdown’ de uma hegemonia que vigorou desde o anúncio da chamada ‘Doutrina Monroe’  que enterrou o ‘colonialismo europeu’ (i. e., o 'imperialismo europeu') no Mundo, dentro de um 'rodízio de emergências imperiais' (que a História nos revela).
 
Hoje, a ‘essência imperial’, isto é, a ‘transferência internacional de valor’ , a ‘predação sistémica das matérias primas’, a ‘acumulação de capitais’  e a 'manutenção dos níveis de lucros, juros e rendas' está ameaçada por novas situações, ditas ‘emergentes’, que decorem – direta ou indiretamente - da ‘queda do muro de Berlim’ e estão a perturbar os equilíbrios mundiais, i. e., ‘globais’, estabelecidos com o fim a II Guerra Mundial.
Os últimos tempos revelam uma saga imperial agonizante, que estando a perder tereno no campo económico e financeiro, está tentada em iniciar uma 'deriva militarista' (de sobrevivência)  com consequências imprevisíveis.

O primeiro ano da Administração Trump sujeito, neste momento, a um provisório balanço, revela-nos dois sentimentos que se interpenetram:
Primeiro, o incómodo de ver a boçalidade, o xico-espertismo, o novo-riquismo e a ausência de ética transportados para o centro da política.
Depois, o receio que a busca pela manutenção de uma hegemonia já perdida, quer no campo financeiro e económico, quer no terreno social e cultural, empurre a potência imperial para confrontos bélicos de uma dimensão destrutiva inimaginável.

A situação é tão crítica que começa a fazer sentido um novo slogan: ‘The World, First !’.

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