A greve dos camionistas, o Governo e a democracia

Gastamos mais tempo a combater adversários do que a defender correligionários, numa espiral de ataques em que debilitamos as instituições e corroemos o poder dos políticos sem o qual a anarquia se instala e o jogo democrático é pervertido.

Os constrangimentos sociais e a cobardia individual promovem o medo de defender os políticos, como se estes fossem mais corruptos do que os outros cidadãos, mais venais, impreparados ou oportunistas.

A política, a religião e o futebol são em Portugal os temas que mais excitam a crispação. Qualquer dos temas fomenta quezílias e inimizades. No futebol, a ignorância evita-me o mais escaldante. Quanto às religiões, considerando-as criações humanas, sem razão para as prezar, desgosto equitativamente todos os crentes.

É, pois, na política que suscito mais estima, raiva, simpatia ou repúdio, com expressões tão pitorescas como mandarem-me para a União Soviética, Cuba e Coreia do Norte ou tratarem-me por comissário político do PS, BE ou PCP, inútil, imbecil, dependente do partido, avençado, parasita, sujeito que nunca fez nada na vida e outros criativos mimos. Creio que ainda não me chamaram besta, delicada designação de um deputado do PSD, Duarte Marques, para António Costa, que comparou a Trump e Bolsonaro.

Irritei alguns com a posição que assumi na greve aventureira e leviana dos motoristas de matérias perigosas. Com o tempo, as críticas que fiz revelaram-se cada vez mais justas e certeiras, seguro de que nem todas as greves são legítimas ou toleráveis e de que a razão se pode perder na forma como se conduzem.

A greve que em abril teve a compreensão e apoio de numerosos portugueses degenerou, na sua reincidência, em terrorismo de um aventureiro sem escrúpulos que fez pior à luta dos trabalhadores do que a direita mais empedernida seria capaz.

Esta greve é caso de estudo de uma luta que começou justa e acabou por provocar danos próprios e perniciosos efeitos colaterais no sindicalismo, para lá do golpe de Estado que eventualmente estava previsto com a instrumentalização dos trabalhadores.

Quem esteve por detrás desta greve, ansiosa por reduzir um direito, foi a extrema-direita inorgânica, a lembrar o Chile, com um provocador alugado para a luta dos camionistas e a lutar por si próprio, num deslumbramento mediático infantil, a anunciar os convites de vários sindicatos para fazer a mesma figura. De urso. Perigoso e arrogante.

Governo, Antram e Fectrans foram responsáveis, e fizeram o que deviam. O sindicalista por equiparação ignorou que, em Portugal, não é ainda ele o pintor de tabuletas capaz de arrastar multidões, apesar da sua perversidade e ambição. Foi inútil o apoio da comissão distrital de Setúbal, do CDS, do fascista André Ventura e de radicais pequeno-burgueses, de belo efeito decorativo, à greve do SNMMP.

Apostila – 1- Felicito António Costa pela forma como defendeu a democracia, aliando a determinação e firmeza à moderação que se lhe exigia num conflito laboral, no setor privado, que pretendeu fazer reféns os portugueses. § 2 - À semelhança de Rui Rio, suspendi as férias para publicar este texto e fazer prova de vida. § 3 – O facto de eu ter ido a banhos, neste período, tal como Rui Rio e Assunção Cristas, foi pura coincidência.

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