Greves e direitos sindicais

Os leitores habituais sabem que sou social-democrata, nunca afirmei ou me considerei socialista, sentindo-me à esquerda da generalidade dos que se reclamam de tais epítetos.
O facto de nunca ter pertencido a qualquer partido, atitude que não tenho por meritória, permite-me conviver bem com quaisquer cidadãos, seja qual for o seu partido, sem que a atitude inversa se verifique. Admiro e respeito os que se empenham partidariamente.

Terminei em 25 de abril de 1975 a militância no MDP/CDE, por desnecessária, depois de 14 anos de luta contra o fascismo, e de ter colaborado com todos os movimentos que se opunham à ditadura, sem que alguém me perguntasse a ideologia que professava.

Ao declinar a militância partidária, não deixei a luta política e, sobretudo, a participação cívica, a que me sinto obrigado por razões de cidadania, nem a atenção aos movimentos sociais e às posições dos partidos, nem a obrigação de votar.

Não há democracia sem direito à greve e não pode ser limitada, salvo aos membros de órgãos de soberania e militares e, com restrições, a magistrados do MP e polícias.

Não há direitos ilimitados, vitalícios ou irrevogáveis, nem o mais sagrado de todos, o direito à vida, em tantas latitudes instável e precário. Entendo que há greves injustas, aventureiras e oportunistas e que o poder de reivindicação não pode ser proporcional à perigosidade ao alcance dos profissionais.

Servem os parágrafos precedentes para integrar a condenação inexorável desta segunda greve dos camionistas, independentemente das razões que pudessem ter. É inadmissível que reivindiquem agora condições salariais para 2021 e 2022, como podiam reivindicar até ao fim da próxima década, e que recorram a um advogado de passado suspeito, ao volante de um Maserati preto, sem carta de pesados, para ideólogo e vice-presidente da direção sindical.

Não deixo de me lembrar dos sindicatos fascistas e do terrorismo sindical, instrumentos da ascensão da extrema-direita ao poder, no século passado. Lamento o oportunismo de silêncios partidários e, sobretudo, a satisfação que pressinto em quem gostaria de retirar da CRP o direito à greve.

Na última greve, o apoio explícito de Paulo Mota Pinto em artigo de opinião num jornal diário pôs-me de sobreaviso. Sei que para a esquerda, 48 anos de ditadura causam, ainda hoje, inibições na condenação de uma greve, atitude que uma vez mais Rui Rio teve a coragem de condenar em vez de aproveitar.

O silêncio perante reivindicações injustas ou irrealistas é um estímulo ao aventureirismo de que a extrema-direita está ansiosa por tirar partido. Os militantes de esquerda devem interrogar-se.

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