Sindicalismo e luta partidária

Parece-me que há no surto grevista recente uma boa dose de oportunismo, irreflexão e motivação partidária, mas isso é opinião subjetiva sem factos que o comprovem. O que surpreende é a quantidade de pessoas de boa fé que apoiam todas as greves, sejam quais forem as reivindicações, a capacidade de serem satisfeitas, as desigualdades sociais que agravam e o risco de falência de empresas incapazes de corresponder às exigências.

Também na função pública, onde o Governo usa uma geometria variável na resposta às diversas greves, com as mesmas pessoas sempre ao lado dos trabalhadores, indiferentes ao agravamento das injustiças sociais e da disparidade salarial, sem a mínima reflexão sobre a capacidade orçamental, parece que a demagogia revolucionária é uma constante de quem teme ser acoimado de direita ou de inimigo dos trabalhadores, ainda que sejam dos que exigiram ganhar mais do que o presidente da AR e PM os autores da greve.

Nada tenho contra os que consideram o PS um partido de direita, embora não seja essa a minha visão, mas não compreendo como pode simultaneamente considerar-se de direita cerca de 80% dos portugueses, a avaliar pelos partidos que os representam, e querer que os pontos de vista de 20% façam vencimento.

Onde se encontraria a legitimidade democrática para um governo que apenas 20 ou 25% dos portugueses sufragam?

Não penso que as maiorias tenham sempre razão, mas é perigoso defender que cabe às minorias o direito de governarem sem negociações e cedências que lhes assegurem a base maioritária que as legitime.

Os partidos políticos são o que são, diferentes do que cada um gostaria que fossem, e é no confronto dialético entre as propostas e a prática de cada um deles que os eleitores definem o voto.

Não me preocupa estar em minoria, mas afligem-me as utopias que entregam o governo aos partidos de direita e a luta fratricida da esquerda, natural em período eleitoral, e que só não entrou em desagregação porque a direita se antecipou.

Nas próximas eleições, a dimensão prevista da derrota da direita não deve encantar os democratas, pode ser o prenúncio de uma próxima vitória da extrema-direita, o que não é inédito na Europa, nos tempos que correm.

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