Carta a um ingénuo do Chega – Ingénuo da Silva
Carta a um ingénuo do Chega – Ingénuo da Silva
Caro
Ingénuo,
Vejo que
andas apoquentado com as notícias nacionais e do mundo, que vês desabar a
sólida formação conservadora e a fé inquebrantável na Senhora de Fátima, logo
tu, com estudos, que te encostaste à direita sem perceber que o mundo não é a
preto e branco.
Ó Ingénuo,
Cavaco não é um intelectual nem Passos Coelho estadista. E Ventura não é o
salvador que imaginaste, o enviado da Providência que julgavas, é apenas um
salazarista que leu os desejos de quem preferia a ditadura, sem a ter
conhecido. Talvez por isso!
Andas tão
descoroçoado a ver fugir do Chega os eleitos das autarquias e a abandonarem o
4.º Pastorinho! Eles não abandonam o Chega, só procuram emprego. Se o
conseguem, ficam; se não conseguem, partem. E ficas enxofrado quando te dizem
que o partido vai passar a chamar-se Parte! Uns partem, outros chegam, não
precisam de coluna vertebral.
Andavas
tão feliz com a eleição do Trump, tão orgulhoso do convite ao Pastorinho, para
a posse, embora tivesse ficado ao relento, tão vaidoso por integrar o bando do Orbán
e Meloni, tão empolgado a veres o André a apoiar o líder do mundo livre, a
invadir o País do Aiatola que Alá já esperava, e que Netanyahu e Trump enviaram
mais cedo, que não viste que aquele biltre era o Papa dos xiitas, Líder
Supremo, para os amigos! O Trump despreza o direito internacional como os
Aiatolas os direitos individuais.
Claro que
o velho não era recomendável, mas ainda pensas que Netanyahu e Trump são melhores?!
São iguais ao teu Pastorinho, repetem umas cantilenas e obrigam os crentes a
urinar para o lado contrário a Meca. A fé entontece aqueles brutos!
Agora
andas satisfeito porque o Moedas, afinal, é dos teus. Sempre defendeu a aliança
do PSD com o teu partido, mas não te regozijes com as suas decisões porque,
substituir por amigos dirigentes nomeados por concurso, é uma vergonha. E dá
maus resultados!
Rita Rato não
podia ser diretora do Museu do Aljube porque Moedas quer esconder que houve
presídios e ditadura. E discorda dos objetivos do Museu! Não podendo nomear o
marido da Rita Matias, para premiar a procriação, porque seria escândalo nomear
um guarda-costas, serve-lhe qualquer Mafalda Livermore que explore os
imigrantes que o Chega quer repatriar. Moedas inquieta-se com os danos à sua reputação
e teme que o chamem verme, mas odeia, sobretudo, os objetivos do museu.
Vou
continuar a lembrar-te as pessoas que te envergonham pela ortografia e
boçalidade, e que amas por ódio aos imigrantes, nostalgia do “nosso ultramar
infelizmente perdido”, ressentimento, frustração e aquele horror à
homossexualidade que te torna suspeito.
Na próxima
carta talvez te fale da miséria e dos escândalos ocultados no salazarismo. Lembrar-te-ei
as prisões sem culpa formada, as torturas, mortes e perseguições. A ordem e a
segurança eram o medo que os bufos inspiravam, a censura, a fome, o poder
discricionário e um ror de tropelias de que só as ditaduras são capazes!
Aceita as minhas saudações republicanas, laicas e democráticas. E não te amofines.

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