sexta-feira, setembro 30, 2016

Notas Soltas – setembro/2016

Notas soltas – setembro/2016

Espanha – Rajoy ficou a saber que 40% dos deputados não são a maioria, e a Espanha, alheia à onda de corrupção que atingiu proporções inimagináveis, é incapaz de mudar o sentido de voto para permitir uma alternativa democrática ou a simples alternância.

Brasil – A cumplicidade judicial e parlamentar, no golpe de Estado que destituiu Dilma, arruinou a reputação do País e das instituições democráticas, mostrando que as votações de governos progressistas deixam de ser respeitadas na América latina.

Aquecimento global – A ratificação do acordo alcançado em Paris, em dezembro, pelos dois maiores poluidores mundiais, EUA e China, foi um dia histórico para uma tentativa séria de prolongar a vida na Terra e salvá-la do fim prematuro.

Alemanha – Há, na ascensão da extrema-direita nas eleições regionais, à custa da CDU, motivo de extrema preocupação. A derrota de Merkel não foi por boas razões, deveu-se à sua estatura política, coragem democrática e humanismo, em relação aos refugiados.

Deutsche Bank – Com um buraco financeiro avaliado em 20 vezes o valor da economia alemã e quase 4 vezes o PIB da Zona Euro, Portugal, Espanha e Grécia não são o perigo para a economia europeia, é da Alemanha que vem o Apocalipse.

Durão Barroso – Questionado pela Provedora de Justiça Europeia sobre a sua ida para o Goldman Sachs, Juncker respondeu que Durão não voltará a ser recebido em Bruxelas como ex-presidente da CE. Quem não quer ser lóbi mau, não lhe veste a pele.

Hillary Clinton – A derrota desta candidata não é apenas uma preocupação americana, é mundial. Se acontecer, tudo o que ‘podia correr mal, correu efetivamente mal e da pior maneira’ [lei de Murphy], e Trump pode tornar-se o próximo presidente dos EUA.

Assunção Cristas – Pensou que o CDS crescera, mas só inchou, graças à habilidade de Paulo Portas a subtrair a Passos Coelho o 4.º grupo parlamentar da AR. Julgava fazer o PSD refém da sua candidatura a Lisboa e ficou refém de si própria, à espera do desastre.

Praça Alta – Não devia julgar o que aqui escrevem outros, mas ignorar o artigo de Luís Queirós, de setembro, “Contributos para um debate sobre o Interior”, é recusar avaliar o diagnóstico mais rigoroso e a mais séria reflexão lida ou ouvida na comunicação social.

Filipinas – O atual presidente, que apela à população para matar drogados e traficantes, dirigia pessoalmente os esquadrões da morte na sua cidade e, num dos casos, terá sido o próprio Duterte a executar um funcionário do Ministério da Justiça. País ensandecido.

Carlos Alexandre – O juiz que granjeara prestígio com o silêncio, destruiu a reputação numa entrevista televisiva. Com a insinuação de que é escutado e ameaças veladas, pelo muito que diz saber, perdeu consideração e comprometeu a isenção a que é obrigado.

Eutanásia – A discussão já chegou a Portugal e não é com silêncio que se trata o tema, que interessa a todos e é dilacerante. É um direito individual, mas seria lamentável que não merecesse uma séria reflexão a nível nacional.

Dívida pública – Há muito que se sabe que as dívidas de Portugal, tal como as de Itália, Grécia, Espanha ou França são impagáveis, sem reestruturação e perdão parcial, mas os credores fingem que esperam ser ressarcidos e os devedores fingem que irão pagar.

União Europeia – A incapacidade para aprofundar a sua integração económica, social e política conduzirá à desintegração, um desastre que terá consequências dramáticas para a democracia, o bem-estar e a geografia política de várias das suas nações.

Terrorismo – A Europa não pode permanecer refém do medo, sem impor respeito pelo seu ‘ethos’ cívico e democrático aos imigrantes, trocando a liberdade pela segurança e a cidadania pelo multiculturalismo. Se abdica da laicidade compromete a democracia.

Venezuela – Pior do que o fracasso da governação, a que não foram alheios a baixa do preço do petróleo e os interesses do poder económico, é a teimosia de conservar o poder a qualquer preço, contra a vontade popular. O presidente Maduro perdeu a legitimidade.

Reino Unido – A reeleição do líder trabalhista, Jeremy Corbyn, com 61,8% dos votos, dos militantes, depois de acusado de esquerdista pela maioria dos seus deputados, revela que os sociais-democratas recusam ser satélites do liberalismo do Partido Conservador. 

Coleção Miró – O conjunto de 85 obras do pintor catalão, reunidas pelo desvario de um banqueiro desonesto, Oliveira e Costa, fica em Portugal. A dívida resultante das fraudes dele e de outros ex-governantes, no grupo SLN/BPN, fica para todos os portugueses.

António Guterres – Venceu também a quinta votação do Conselho de Segurança para secretário-geral da ONU. As cinco vitórias destacadas, em votações secretas, não lhe garantem o cargo, mas emergiu como a personalidade melhor preparada para o ocupar.

ONU – O aparecimento de uma candidatura não escrutinada [hoje, dia 28] é o resultado de interesses protegidos por negociações ocultas. A sua eventual vitória é a humilhação do cargo. Guterres tem a coragem e isenção de Dag Hammarskjöld. Foi uma Kristalina golpada.

Espanha 1– A impossibilidade de a esquerda se unir, vítima das contradições internas e do ego dos seus dirigentes, obriga os eleitores a esquecer o espírito predador do PP, que a série de escândalos financeiros comprova, e a dar-lhe nova possibilidade de governar.


Israel – Com a morte de Shimon Peres, ex-presidente e Nobel da Paz, perdeu um dos mais ilustres fundadores e um raro modelo de moderação da região, onde o sionismo é um elemento acrescido de destabilização. Shimon Peres pregou a paz no deserto.

quinta-feira, setembro 29, 2016

Turbulencia no PSOE e a crise 'mayor'..


A situação político-eleitoral espanhola conheceu ontem um novo sobressalto. A demissão em bloco de um significativo número de elementos da Comissão Executiva do PSOE visa provocar, no imediato, alterações na liderança partidária e consequentemente mudar o posicionamento institucional deste partido face ao impasse político que Espanha vive link.
 
Figuras históricas preponderantes no PSOE, como é o caso de Felipe Gonzalez  link, há muito que defendem para o partido um posicionamento de ‘oposição-árbitro’, permitindo pela abstenção a posse de um governo minoritário do PP, presidido por Mariano Rajoy, com ou sem apoio explícito, do Ciudadanos.
Seria um governo fraco, dependente de negociações caso a caso com toda a Oposição (e não só com o PSOE), permanentemente no fio da navalha que, teoricamente estaria condicionado refrear a prossecução de políticas de austeridade.
 
Esta será a visão simplicista e muito idílica da situação já que pressupõe um facto que carece de demonstração, isto é, a existência e persistência de uma unidade nas forças políticas da Oposição.
Na realidade, essa condição é ilusória porque se, de facto, existisse no terreno o PSOE, Podemos, Ciudadanos e outros partidos com menor expressão eleitoral (mas todos à Esquerda do PP) teriam conseguido congregar o apoio parlamentar suficiente para formar um outro Governo, alternativo ao do PP.
A situação é, contudo, muito confusa no interior do PSOE e com reflexos muito intensos na política nacional.
 
De concreto, o que aparece como óbvio e inevitável é o fim abrupto da liderança de Pedro Sánchez. Mas essa ‘morte anunciada’ não significa uma mudança automática do posicionamento do PSOE.
 
A situação começou a precipitar-se desde o último domingo com as eleições na Galiza e no País Basco, com os resultados eleitorais obtidos pelo PSOE, sendo a demissão de 17 membros do Executivo partidário uma mera e expectável consequência.
Mas uma coisa é a estratégia partidária outra será a resolução dos problemas que afectam a política nacional no que diz respeito ao fim de um longo interregno governativo.
 
A saída que o PSOE procura encontrar para a crise política espanhola não deve defraudar a vontade expressa pelos maioria dos eleitores (não propriamente os ‘seus eleitores’), nem parecer um simples artifício de sobrevivência.
Se o PSOE ‘deixar passar’ um Governo minoritário, dirigido pelo PP, vai assumir responsabilidades indirectas na governação e não existem indícios, nem esperanças fundadas, de que a Direita espanhola esteja disposta a mudar de políticas e de métodos.
 
Qualquer complacência do PSOE em relação à Direita tem diversas leituras e todas perniciosas. Uma oposição abstencionista é sempre uma atitude débil, é o procrastinar dos problemas, mesmo na modalidade lusa de ‘abstenção violenta’, versão que os espanhóis não devem conhecer ou sequer reconhecer.
 
A 'leitura da Esquerda' é que a maioria dos espanhóis retirou a confiança nas urnas para a Direita continuar a governar. Todavia, a incapacidade da Esquerda em construir uma solução governativa, vai permitir – tudo indica – que a Direita continue a governar.
Esta contradição é altamente desencorajante para o vasto e heterogéneo eleitorado à esquerda do PP de Rajoy.
 
Em alternativa, resta ao PSOE, conjuntamente com as forças de Oposição, promover (a curto/médio prazo?) o derrube, no Parlamento, do Governo empossado em circunstâncias atípicas e arcar com a responsabilidade de detonar mais uma crise.
 
A evolução dos acontecimentos na última semana coloca o PSOE, e de certo modo toda a Esquerda, entre a espada e a parede.
Pouco mais lhe restará do que contemporizar com um alívio dos níveis críticos a atingir as raias do insuportável e aproveitar o tempo para uma reorganização interna.
Todavia, o PSOE não está imune à crise generalizada dos partidos social-democratas, debate-se com as persistentes e cíclicas questões doutrinárias bem como as inevitáveis consequências programáticas. Entalado entre uma deriva liberal de Direita ‘moderada’ (Ciudadanos) e o populismo esquerdista (Podemos), pouco espaço lhe resta.
 
O painel de futuros dirigentes do PSOE está longe de estar clarificado ou decidido.
Não há vultos emergentes com características consensuais e nacionais (difíceis num Estado de múltiplos povos) que se mostrem capazes de reabilitar a 'casa socialista', com evidente ameaça de ruína.
 
Na verdade, a saída da crise está difícil, ou será mesmo impossível, porque o problema não é fundamentalmente partidário. Trata-se de uma crise de regime e começa a ser notório que o reino está moribundo e o actual esquema constitucional, que funcionou no pós-franquismo imediato, esgotou-se.
A solução que poderá estar na incubadora terá um denominador federalista. O Estado Unitário, sob a batuta dos Bourbons, não tem tradução política satisfatória, as autonomias baquearam e estão a conduzir a 'independentismos à solta', com é o exemplo da Catalunha, a que se seguirão outras regiões autónomas. 
Todavia, para encontrar soluções Federais, ou até Confederadas, cada vez mais óbvias, implica a abertura de um novo processo constituinte que, no presente, é um tabu partidário, longe de qualquer tipo de consenso nacional. Alguém terá de dar o primeiro passo.

Vitórias e derrotas

Não há vitórias eternas, nem derrotas definitivas. O processo de acumulação do capital levou à concentração da riqueza em cada vez menor número de pessoas. Há de atingir um ponto de fratura.´

Os tempos que correm, no dealbar da quarta revolução industrial, em que pela primeira vez os postos de trabalho destruídos são em maior número do que os criados, com robôs capazes de substituírem as pessoas, não tem uma resposta política para os desequilíbrios criados, e acentuados pela incontrolável explosão demográfica mundial.

Pelo contrário, com a multidão crescente de desocupados, exige-se a quem tem emprego que aumente a frequência, duração e intensidade do trabalho, fruto da ganância de quem acumula capital e do desespero do número crescente de marginalizados.

Não é apenas a riqueza que urge distribuir, é o próprio trabalho e a sua retribuição, pois acabará por ser insustentável que não se dividam ambos, para maior equilíbrio social.

Só existe uma situação em que os ricos arriscam tanto quanto os pobres, perdendo o que têm, seja pouco, muito ou nada, e a própria vida. É numa situação de guerra. E este é o cenário previsível na espiral que juntará os conflitos regionais num único e catastrófico.

Falhadas, ao longo da História, as posições conservadoras, parece um contrassenso que a deriva reacionária, xenófoba e nacionalista conquiste tão vastas camadas da população mundial.

As sementes lançadas por Bernie Sander nos EUA, durante a campanha presidencial, e a recente vitória da reeleição do líder trabalhista, Jeremy Corbyn, com 61,8% dos votos dos militantes, abrem uma oportunidade para o combate ideológico contra o imparável êxito com que o ultraliberalismo ameaça a Humanidade. A próxima batalha é favorável ao último, mas não há vitórias eternas, e só se dececionam os cobardes que desistem de lutar.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, setembro 28, 2016

ONU

O aparecimento de uma candidatura não escrutinada [hoje, dia 28] é o resultado de interesses protegidos por negociações ocultas. A sua eventual vitória será a subalternização do cargo de secretário-geral.

Nem a nova candidata nem quem a patrocina se prestigiam. Apenas conseguem que a ONU se torne uma mera correia de transmissão de certos interesses geoestratégicos. Pode ser uma boa candidata para a Alemanha e para os EUA, mas não o é para o mundo.

A alegada transparência que as cinco votações secretas pretendiam demonstrar fica manchada pela não aceitação do candidato mais consensual e considerado o melhor preparado.

Guterres tem o perfil ideal para secretário-geral da ONU, mas nunca seria um vassalo de quem quer que fosse. O nome defendido por Durão Barroso, essa referência ética da UE, na última conferência de Bilderberg, acabou por avançar, em desespero de causa, com a bênção do Partido Popular Europeu.

Temeram em Guterres a coragem e independência de um Dag Hammarskjöld. Não é a ONU que se desprestigia, é o mundo que fica mais vulnerável aos interesses que patrocinam a nova candidatura.

O IMI e os locais de culto

O ataque à isenção de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis), em relação às sedes dos partidos políticos, quase sempre carregado de demagogia e mal disfarçado populismo, é um assunto que entrou na discussão pública, graças ao tempo de antena que é concedido a quem se acomoda mal ao pluralismo partidário, ou seja, à democracia.

Aceito a isenção de todos os locais de culto, desde sedes de partidos políticos e templos de qualquer religião a sedes de sindicatos e de associações patronais, desde que afetos à função. Mas aceito a abolição, de forma definitiva e universal, se a decisão for tomada pela AR, o órgão que legitimamente representa todos os portugueses.

Já não aceito a isenção de impostos ou benefícios fiscais, IMI, IRC ou outros, para bens móveis ou imóveis e atividades comerciais de partidos políticos, religiões, sindicatos ou associações patronais. Os donos de imóveis alugados ou afetos a atividades comerciais no ramo da restauração, ensino, saúde ou de qualquer outro, devem pagar impostos.

O Estado não deve isentar Fundações, IPSSs e quaisquer outras sociedades cujos lucros e atividades não fiscalize, quer sejam laicas ou religiosas, e de cuja utilidade não tenha feito um severo escrutínio.

Finalmente, graças ao CDS e à sua piedosa líder, o tema deixou de ser tabu e foi trazido à discussão dos portugueses.

É altura de rever as isenções e os benefícios fiscais. Todos. E de todos.

terça-feira, setembro 27, 2016

Os últimos fuzilamentos do franquismo – 27-09-1975


Há 41 anos, o frio e pio genocida, Francisco Franco, escreveu a última página de horror, perpetrou o derradeiro crime, e derramou o último sangue com que manchou o cadáver adiado de último ditador europeu.

Mais do que as palavras, vale a imagem que os democratas espanhóis publicaram há 1 ano, sobre a última orgia de sangue de que se alimentou o facínora.

Ocultar o passado é evitar a vacina contra a reincidência

Quando reaparecem os tiques salazaristas e se faz já a defesa despudorada do fascismo, às escâncaras, urge revelar o que foi em Portugal o período da ditadura, abençoada pela Igreja católica, e que a Pide, a censura, o medo e a ignorância protegeram.

A apreensão de livros, as prisões sem culpa formada, os tribunais Plenários, a tortura, o exílio, a fome, o analfabetismo, enfim, tudo o que era mau e anacrónico, prolongou-se num país tão atrasado que até na descolonização foi o último, quando a tragédia era já inevitável e a guerra injusta e criminosa tinha custado milhares de mortos e estropiados em ambos os lados das frentes da guerra colonial.

Não faltam historiadores que documentem e interpretem esse período sombrio de meio século, mas faltam leitores interessados para os conhecerem e divulgarem. E sobram os que pretendem reescrever a história e criar eufemismos para absolverem a ditadura.

O salazarismo não foi apenas perverso e castrador, formatou gerações em princípios que a propaganda difundia. A perversidade de Hitler, Franco e Mussolini existia em Salazar, apenas a quantidade dos crimes foi menor. O que diferenciou a ditadura portuguesa das congéneres não foi a substância, foi uma mera questão de escala.

É assustador pensar que a minha geração foi incapaz de transmitir o ambiente asfixiante, o horror à instrução, o medo do progresso, a opressão da mulher, a maldade, o ridículo.

A proibição do divórcio para casamentos religiosos, na prática obrigatórios, a gestão de bens do casal, exclusivamente pelo marido (incluindo os da mulher, no casamento com comunhão de bens, que era o habitual), a necessidade de autorização do marido para que a mulher pudesse deslocar-se ao estrangeiro, a impunidade para a violência doméstica e numerosas outras malfeitorias marcaram o ADN de um povo submisso e medroso.

Hoje, deixo aqui a minuta do pedido de autorização de casamento para professoras, que só seria deferido se o nubente provasse que auferia rendimentos iguais ou superiores.

segunda-feira, setembro 26, 2016

A 2ª. vida de Jemery Corbyn


A (re)eleição de Jeremy Corbyn para a liderança do Labour, ocorrida há poucos dias, mostra como os políticos profissionais e carreiristas podem estar (e ficar) isolados das suas bases link.
 
O grupo parlamentar trabalhista decidiu, após o Brexit, retirar o apoio político ao seu líder. Teria sido um golpe ‘ao estilo brasileiro’ se não fosse a política britânica ter uma raiz democrática muito profunda e consolidada.
Era suposto que os deputados representassem as suas bases partidárias e eleitorais. A auscultação directa dos militantes do partido revelou um total desfasamento entre os deputados e a maioria do partido. Tão-somente isso, o que já não é pouco.
 
A ‘3ª. via’, pretensamente uma versão moderna e revista da social-democracia, concebida por Tony Blair, não trouxe nada de bom para a Esquerda, não ‘vingou’ na Europa, mas continua a estrebuchar, no covil originário.
A acomodação às exigências do conservadorismo neoliberal é um dos caminhos para o suicídio da Esquerda, seja ela britânica ou, de contornos, europeus.
 
A recente interligação entre a reeleição de Corbyn e a candidatura americana de Donald Trump, feita por alguns órgãos de comunicação social link, é um monumento ao desprezo pelo discernimento político dos cidadãos.
 
Há que tirar ilações destas turbulências no interior do Labour. E existem muitas que se podem equacionar.
Desde logo, a derrota de uma 3ª. via que não convence, nem funcionou em lado nenhum e 'esvaziou' a social-democracia.
Pelo meio, a possibilidade de os aparelhos partidários perverterem as opiniões maioritárias em benefício de concepções trabalhadas de um 'grupo'.
Finalmente, resta o risco que está subjacente de uma eminente fractura partidária (que poderá estar em curso). Esta última seria a maior prenda dos despeitados blairistas à Srª. May.
 
Até aqui Corbyn tem clarificado onde - e em que assuntos da actualidade - está contra as políticas conservadoras. Já se manifestou em relação à política externa (Médio Oriente), em relação à política europeia, em relação a políticas internas como a emigração, o ensino, o serviço nacional de saúde, etc.
 
A mais recente clarificação, ocorrida no interior do Labour, permitir-lhe-á, de futuro, expor o que realmente um partido trabalhista tem para propor aos cidadãos britânicos.
 
Um primeiro passo para limpar e desanuviar o ambiente político – já bastante carregado com as peripécias do Brexit - seria a comunicação social deixar cair chavões pouco claros e, pior, imprecisos, como é o repetido apodo de ‘Corbyn, o esquerdista’. Esta designação só seria tolerável se a mesma comunicação social tivesse denominado Tony Blair como o ‘Blair, o direitista’.
 
O regresso do Labour, pela mão de Corbyn, às matrizes identitárias socialistas é a questão que os cidadãos britânicos têm pela frente e o resultado visível da clarificação ocorrida.
O importante, nesta viragem, é a rejeição pela maioria dos militantes e simpatizantes das teorias ‘social-liberais’ oriundas de uma vergonhosa capitulação da social-democracia perante a vaga liberal.
Mas, acima de tudo, evidencia a consolidação da ligação do Labour Party ao mundo do trabalho, através das históricas ‘Trade Unions’.
 
Na terra de William Shakespeare sabe-se que ‘não se suja a fonte onde se aplacou a sede’. Será esta a lição que Jeremy Corbyn pode tirar da sua (re)eleição e o fundamento natural do apelo que fez - depois de (re)eleito - à unidade dos trabalhistas britâncos.
 

Manuel Buíça - mártir da liberdade

Para memória futura deixo aqui arquivado o acesso a um relevante documento histórico.

domingo, setembro 25, 2016

Imposto sobre o património imobiliário: deambulações reflectivas e alguns incómodos…

Os impostos têm sempre uma marca – e uma carga - ideológica. Quando os despimos dessas características tornam-se medidas meramente contabilísticas onde – para usar a linguagem arcaica – impera o deve e o haver. Hoje, chama-se a isto, quando tem a ver com as contas públicas, ‘equilíbrio orçamental’ e todo e qualquer desvio pode ter uma conotação terrível – défice.
 
Os impostos - a política fiscal - são, por outro lado, um tema difícil para um leigo. Mas, concomitantemente, são a inevitabilidade que nos cerca, aflige e interroga.
 
Não vamos recuar à origem dos impostos mas recorrer a um notável cientista do século XX que, falando sobre o velho ‘imposto profissional’, disse: “A coisa mais difícil de compreender no mundo é o imposto profissional”. – Albert Einstein.
 
É sintomático que um homem que foi capaz de elaborar e dar ao Mundo a Teoria da Relatividade tenha este grau de incompreensão sobre uma taxação que vigorou em muitos países europeus durante grande parte do século XX.
Na verdade, para o cidadão que dedica (vende) o seu tempo e saber profissional (a sua 'força de trabalho') a uma actividade laboral produtiva não é compreensível que sofra, sobre essa nobre opção, uma medida coerciva e punitiva (em termos fiscais). Pagar para trabalhar não parece conforme com os cânones de justiça social. Todavia, hoje o IRS (sucessor revisto e alargado do velho imposto profissional) é uma tributação aceite por todos os que trabalham e recebem remuneração por essa actividade.
 
Mas, o problema não é (só) esse. Todos julgamos que a estruturação social do presente necessita de suporte financeiro (a ‘sustentabilidade’ dos economistas) para consolidar-se ter continuidade e segurança. E que esta função não pode ser substituída por medidas filantrópicas (Fundações, ONG) assistencialistas (IPSS) ou meros actos misericordiosos (Santas Casas).
No entanto, os impostos, em muitos países, não tem uma límpida função de redistribuição da riqueza porque só uma pequena fatia está destinada a retornos através de prestações sociais. Isto é, a parte que está afecta ao suporte do Estado Social. A manutenção do aparelho de Estado, funções de soberania (Tribunais, Forças Armadas, Polícias, etc.), Poder Local, e por aí adiante, todos têm lugar marcado à mesa do Orçamento de Estado. Se acrescermos a estes itens os faraónicos custos do serviço da dívida, do resgate de bancos privados e refinanciamento do banco público, etc., percebemos como uma parte muito reduzida dos impostos serve para um retorno e manutenção da coesão social.
 
Percebe-se o incómodo desta situação para um Governo sustentado por toda a Esquerda parlamentar.
Durante o período de intervenção externa o IRS foi o cavalo de batalha da Troika para conseguir equilíbrios financeiros e procurar cumprir metas orçamentais.
Uma das maiores mentiras foi a de que o ‘ajustamento’ se faria à custa da despesa (2/3 !) e não aumentando a receita (impostos).
 
A ideia de sobrecarga fiscal consolidou-se, assentou arraiais e é notória para toda a sociedade. E os que estão isentos de impostos não entram neste campeonato porque a sua luta, infinitamente maior e mais dolorosa, é basicamente contra a pobreza.
 
Mais uma vez o problema deve ser remetido ao terreno ideológico e será, grotescamente, sintetizável em 2 grandes campos:
 
- A ‘onda liberal’ (com todas as suas cambiantes) que pretende baixar os impostos sobre as empresas, os lucros e a ‘riqueza’, taxando impiedosamente os rendimentos do trabalho, com o pretexto de estimular o investimento e empreendedorismo privado e o crescimento económico, criando uma elite empresarial motora do desenvolvimento;
 
- E, em visível confronto (doutrinário), as ‘posições de esquerda’ (conjugadas ou não) em que uma justa e progressiva tributação sobre as mais-valias do capital e da acumulação (não investida) de riqueza, aliviando os sucessivos assaltos aos rendimentos do trabalho, será a base do sucesso das respostas governativas já que abre caminho para uma maior capacidade de intervenção política (e na regulação económica) capaz de gerar uma ampla coesão social que conduza ao fim (ou atenuação) das gritantes desigualdades que condicionam, atrofiam ou impedem o desenvolvimento.
 
O novo imposto sobre o património imobiliário (o de dimensão vultuosa, entenda-se) é, quando analisamos o contexto nacional, o sucedâneo de um outro (imposto) que está inscrito no programa de governo e que incidiria sobre as heranças que, entretanto, parece ter caído. Não constitui uma novidade - nem uma surpresa - mas confina a transferência entre uma taxação patrimonial imobiliária e uma outra de aquisição sucessória. Um dos problemas dito ‘de comunicação’ é o Governo não ter explicado esta mudança de agulhas que parece recair sobre mecanismos de identificação de titulares e de eficácia fiscal.
 
A taxação sobre o património imobiliário tem, contudo, no campo político, uma enorme conotação negativa: é mais um imposto.
Mas na balburdia dos números, a sua permanente manipulação e a orientação da política para um novel grupo de cidadãos que constituem a nova aristocracia do liberalismo e disfrutariam de privilégios especiais – os investidores – tem amplamente perturbado a discussão.
Creio que os portugueses gostariam de saber, por exemplo, quanto do investimento estrangeiro (de chineses, franceses, brasileiros, etc) realizado em ‘vistos gold’ (próximo do 1.000 milhões de euros em 2014) foi reinvestido na economia nacional ou – o que será mais complexo – os montantes que, paulatinamente, terão transitado para  ‘paraísos fiscais’.
 
A maior boutade que foi audível no meio desta questão refere-se a que um imposto sobre património ‘ataca’ a classe média link . Como se a ‘classe média’ fosse, na actual estruturação nacional, detentora de património imobiliário com valores contabilizáveis entre 1 milhão ou 500.000 euros.
 
Um outro problema e que tem sido ladeado na discussão prévia deste novo imposto é a ausência de um ‘efeito ricochete’. Na verdade, uma ‘boa política fiscal’ seria mais eficaz, facilmente inteligível e imediatamente adoptável se a uma taxação do património imobiliário, prevista para arrecadar entre 100 e 200 milhões de euros, fosse contrabalançada com uma redução, de igual valor, nos escalões mais baixos de IRS.
 
Ensurdecedor tem sido o coro de lamentações no que diz respeito à ‘estabilidade fiscal’. Sendo a estabilidade fiscal uma arma instrumental, já que está sujeita à eficácia das cobranças, à evolução económica e às indecifráveis 'conjunturas financeiras' (dos 'mercados'), não se compreende a defesa intransigente de um imobilismo neste campo, quando sobre as perspectivas de desenvolvimento futuro reinam as maiores incertezas.
Estamos longe de adquirir uma justiça fiscal, que mereça o consenso nacional, pelo que o normal é a política tributária estar em permanente adaptação (às circunstancias objectivas das políticas orçamentais e em consonância com o crescimento económico). O problema não reside na ‘instabilidade’ mas na ‘justiça’ e nos necessários equilíbrios que a realidade determina. E, mais concretamente, quem tem meios para pagar a factura.
 
Finalmente, uma intrincada questão que perdura e mantem-se envolta por uma densa neblina. Em que medida o património imobiliário e os obscuros negócios envolventes (vistos gold, crédito hipotecário, etc.) estimulam o investimento e a economia nacional ou, bem pelo contrário, foram a causa próxima da criação de uma ‘bolha’ especulativa, cujos efeitos devastadores impendem (ainda) sobre a generalidade dos portugueses?
 
Até aqui a discussão parece centrada nos erros formais de um precipitado anúncio. Falta vir à tona a discussão ideológica. A verdadeira causa das coisas.
 

Bom domingo

Este blogue não é apenas um espaço de intervenção cívica, cabendo nele o excessivamente sério e o moderadamente frívolo.

Aqui ficam, para a boa disposição dominical, algumas respostas sobre o vinho, aquele líquido que o biltre de Santa Comba dizia dar de comer a 1 milhão de portugueses.

Para quem ainda tinha dúvidas sobre a ingestão do VINHO, aqui ficam as respostas que um velho amigo me enviou:

01. O VINHO PODE MATAR?
Pode. Há uns anos, um rapaz foi atingido por um barril de vinho que caiu de um camião levando-o a morte instantânea.

02. O USO CONTINUADO DO ÁLCOOL PODE LEVAR AO USO DE DROGAS MAIS PESADAS?
Não. O álcool é a mais pesada das drogas: uma garrafa de vinho pesa cerca de 900 gramas .

03. O VINHO CAUSA DEPENDÊNCIA PSICOLÓGICA?
Não. Cerca de 89,7% dos psiquiatras, psicólogos e psicanalista entrevistados preferem cerveja.

04. MULHERES GRÁVIDAS PODEM BEBER SEM RISCO?
Sim. Está provado que nas operações STOP a polícia nunca faz o teste do balão às grávidas.

05. O VINHO PODE DIMINUIR OS REFLEXOS DOS MOTORISTAS?
Não. Experiência com mais de 500 condutores: foi dada uma grade com garrafas de vinho para cada um abrir e beber. As últimas foram abertas e bebidas no mesmo tempo gasto com as primeiras. Em nenhuma das garrafas os reflexos foram alterados.

06. O VINHO É MAIOR CAUSA DE ACIDENTES RODOVIÁRIOS?
Não. Segundo as últimas estimativas, em 2010, 13.8 % dos acidentes rodoviários foram provocados por condutores com níveis de taxa alcoolémia superior a 0.5º. Em todos os outros acidentes (86,2%) os condutores envolvidos haviam ingerido apenas águas e sumos. Estatisticamente é muito mais perigoso conduzir sem beber.

07. A BEBIDA ENVELHECE?
Sim. A bebida envelhece muito depressa. Se deixar uma garrafa de vinho aberta de um dia para o outro, altera o paladar e o aroma e chega mesmo a avinagrar passadas algumas semanas.

08. O VINHO CONDICIONA NEGATIVAMENTE O RENDIMENTO ESCOLAR?
Não, pelo contrário. Algumas universidades estão a aumentar os lucros com a venda de vinho a copo nas cantinas e bares.

09. O QUE FAZ COM QUE A BEBIDA CHEGUE AOS ADOLESCENTES?
O estudo confirma que, em primeiríssimo lugar, o empregado de mesa.

10. O VINHO ENGORDA?
Não. Tu é que engordas.

Memória antiga para memória futura e eterna


sábado, setembro 24, 2016

Durão Barroso (DB) apanhado com a mão no Gold[man Sachs]


O cúmplice da invasão do Iraque afirmou que está a ser prejudicado pelo facto de ser português (só faltou dizer que é por ser de direita) e que o atual presidente da Comissão Europeia (CE) também já trabalhou no nebuloso e pouco respeitável banco.

Só não explicou se o facto de ser português o prejudicou no percurso ínvio que o levou à presidência da CE e não sabe distinguir entre a saída e a entrada, entre o passado e o futuro, entre trazer uma experiência e levar uma agenda de contactos.

O atual presidente da CE é também um homem de mão do PPE, pouco recomendável, mas teve de dar um sinal de que o PPE não pode caucionar todas as levezas éticas dos mais destacados dos seus paquetes.

O que está em causa é, de facto, a promiscuidade entre o grande capital e os centros de decisão política, a porta giratória entre a política e os negócios, mas é preciso salvar as aparências para que tudo fique na mesma.

DB diz que não se juntou a nenhum cartel da droga. É verdade. Preferiu não correr riscos.

O que o tramou não foi a falta de ética, foi o exagero.

Escolas públicas - laicidade é isto


sexta-feira, setembro 23, 2016

Pobres & Ricos: Olof Palm, Otelo e derivas actuais …


Uma troca de ideias informal atribuída, nos tempos do PREC, a um encontro entre o capitão de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho, e uma das referências da social-democracia nórdica, Olof Palme, sobre estratégia económica e social, aparentemente, revela uma profunda discordância. O militar português teria afirmado ao seu interlocutor estar empenhado em ‘acabar com os ricos’ ao que o político sueco retorquiu que, no seu País, queriam acabar com os pobres.

A Direita tem aproveitado ad nauseam este hipotético trocadilho para a atirar-se às cegas sobre a pretensão do Governo de - no próximo OE - poder vir a tributar o património imobiliário.

Em primeiro lugar, convém ter presente que a tributação do património (trata-se do ‘volumoso’) é uma velha e permanente reivindicação da Esquerda, de todo o seu espectro (da social-democracia mais moderada ao comunismo mais ortodoxo).

E essa circunstância que deveria estar presente quando abusivamente se pretende fazer comparações entre o presente nacional com os países nórdicos e a sua social-democracia dos anos 70 e 80 (na actualidade já atenuada ou até revertida com novas convicções liberalizantes). Se assim não fizermos toda a análise comparativa será um embuste.

Na verdade, na Suécia, o dinheiro que Olof Palme conseguiu (então!) reunir para fazer o seu (da social-democracia) combate à pobreza – e já agora reforçar a coesão social - veio de algum lado. Precisamente de uma taxação tributária rigorosa, progressiva e justa, mas elevada para suportar os retornos sociais, atingindo os rendimentos do trabalho mas também os lucros empresariais, e durante muito tempo bens imobiliários (impostos sobre heranças foram interrompidos em 2004) e às fortunas pessoais (suspensos em 2007), etc. . Um pormenor, a suspensão dos impostos sobre fortunas e as privatizações são coincidentes com a chegada do Centro-Direita ao poder.

Por outro lado, esse combate passou (já não passa!) pelo desenvolvimento de um Welfare State (Estado Social) o que, para a Direita (que também se instalou no poder em diversos países escandinavos), é um tremendo e insustentável ‘desperdício’, estando empenhada na sua paulatina eliminação, facto que pretende disfarçar com miríficas redistribuições no futuro (quando todos estivermos mortos!).

O problema é outro, substancialmente diferente, devendo ser colocado na redistribuição da riqueza e, cumulativamente, nos retornos sociais que as contribuições singulares, colectivas e patrimoniais impostas podem e devem gerar. Mas sobre redistribuição da riqueza a Direita não está interessada em falar. Ou quando acede, ou a crispação social obriga a abordar o assunto, adia sempre a questão, para as calendas gregas, colocando – sempre - na frente a necessidade de não ‘assustar’ os investidores, proteger (fiscalmente) a ‘iniciativa privada’ e de ‘competir’ com economias baseadas em modelos laborais esclavagistas.

Neste momento, para a Direita, o que é prioritário é a acumulação primitiva de capital e, depois, logo se verá o que sucede. Quer, dos cidadãos, um ‘cheque em branco’.

Para os neoliberais, e num sempre postergado anúncio de ‘paraísos futuros’, poderemos – ou não - falar sobre redistribuição da riqueza se, entretanto, o dinheiro não for desviado para as diatribes do sistema financeiro, colocado em offshores ou à margem de uma taxação equitativa.
As mais-valias têm um destino prévio traçado e devem ser – no seu grosso caudal - alocadas aos ‘mercados’ onde pontificam e beneficiam os ‘investidores’ (ter presentes casos do Luxemburgo e da Irlanda) que pretendem influenciar - fora de qualquer escrutínio - todas as decisões políticas e económicas.
Isto é, uma total (global) ‘financeirização’ do sistema, com absoluto detrimento e perversão do modelo democrático.

A ‘martelada’ ideia de que para distribuir riqueza será preciso antecipadamente produzir não passa de uma ‘verdade de Monsieur La Palisse’. O problema é esta produção (a par de conceitos como competitividade, empreendedorismo, etc.) dever ser traduzida pelo natural e colectivo desejo de obter um (‘sustentado’) desenvolvimento económico, mas nunca é acompanhada por claros e justos mecanismos de redistribuição para essa riqueza que, sendo gerada por um esforço colectivo das forças de trabalho, sistematicamente prejudica ou exclui sempre os mesmos (os trabalhadores).

A sustentabilidade deste modelo de desenvolvimento é outro assunto obscuro e indefinido mas globalmente indissociável de um conjunto de directos ou sofisticados mecanismos de exploração.
Quando se vai buscar a um homem como Olof Palme um exemplo seria bom – e honesto – analisar a globalidade do que foi o seu comportamento político e a seu compromisso social e não ficar pela rama à volta de uma episódica asserção mediática que nem sabemos, de fonte segura, se efectivamente teve lugar ou em que circunstância concreta (contexto) teria sido proferida.

Não significa isto que se deva adoptar uma atitude passiva e acrítica em relação à taxação do património, seja ele qual for. A eficácia e equidade de medidas fiscais desta natureza, não poderão ser obtidas facilmente, nem com ligeireza.

Hoje, a propriedade imobiliária não é tão explícita e ‘registável’ (ver isenções fiscais das sociedades de mediação imobiliária), podendo estarmos a caminhar num sentido de uma dissimulada ‘desmaterialização’ e camuflagem do património por complexas situações hipotecárias (onde a titularidade patrimonial poderá ser difícil de apurar) e, ainda, por ‘empresas anónimas’, ou de ‘responsabilidade limitada’, do tipo SA, ‘sociedades’ SGPS, etc. Além disso, não é pacífica - como se verifica com o IMI - a atribuição de valores nominais ao património. A experiência de um outro País nórdico - a Dinamarca - poderá ser um bom 'caso estudo'.

Mas se, de facto, existirem dificuldades orçamentais ou escassez de liquidez para investimentos públicos, há uma coisa em que a maioria dos portugueses estarão certamente de acordo: - Essa possível fonte de contribuição não deverá provir de mais ou novos impostos sobre as forças de trabalho, de reduções salariais, de cortes de pensões, reformas e prestações sociais.
 
Esta é a verdadeira mensagem que nos deixou Olof Palmee e que a Direita quer ladear (perverter) com superficialidades. 
O estrebuchar da Direita e a cobertura dada pela comunicação social sobre este assunto não ultrapassa a vergonhosa tarefa de iludir o povo.
 

O Goldman Sachs e os colaboradores recrutados em Portugal

O banco que, entre suspeitas e factos provados, não teve escrúpulos com os lucros dos piores escândalos, desde a maré negra do México, à falência do Lehman Brothers e da manipulação das contas gregas, à crise do euro, é escrupuloso na escolha dos seus quadros.

O poderoso banco não enjeita quem possa levar-lhe competências e, sobretudo, agendas recheadas de bons contactos, logo que tenham passado no crivo de ex-membros da CIA, que elaboram dossiês sobre os futuros ‘trabalhadores’.
Por estranho que pareça, só António Esteves não teve militância conhecida no PSD.

- António Esteves, foi do Santander Negócios em Portugal até 1998, ano em que teve o convite da Merrill Lynch mesmo antes da entrada em vigor do Euro. Em 2007, quando surge a crise, a Merrill Lynch foi das primeiras afetadas e, em 2008, era convidado pelo Goldman Sachs. O convite, irrecusável, foi para responsável de todas as operações do nebuloso banco em Portugal, Itália, Espanha e Grécia.

- José Luís Arnaut, advogado, foi ministro adjunto de Durão Barroso, primeiro-ministro entre 2002 e 2004, e alto dirigente do PSD;

- António Borges (falecido) foi vice-presidente do PSD e incumbido por Passos Coelho de liderar a equipa que acompanhou, junto da Troika, os processos de privatizações, as renegociações das parcerias público-privadas, a reestruturação do sector empresarial do Estado e a situação da banca. De 1-2-2012 a 1-2-2013, António Borges recebeu 300.000 euros, fora o montante das despesas efetuadas nesse ano de contrato que foi, entretanto, renovado por mais um ano.

- Carlos Moedas, PSD, secretário de Estado adjunto de Passos Coelho e responsável pelas relações com a troika, agora em comissão de serviço como comissário da CE;

- Vítor Gaspar, PSD, ministro das Finanças de Passos Coelho e precetor de Maria Luís Albuquerque, como amigo do sr. Schäuble, conseguiu que o FMI se antecipasse;

- Durão Barroso, CEO em Londres, dispensa apresentações e maior infâmia.

O Goldman Sachs, só recrutou políticos da confiança de Durão Barroso e de Passos Coelho, isto é, do PSD, dos piores do PSD. Mistério!? Coincidências!?

Nem Luís Amado, tão do PSD, que foi MNE num governo PS!

quinta-feira, setembro 22, 2016

Associação Ateísta Portuguesa (AAP)

Para gab.ministro da Educação

Cc. Grupos Parlamentares da AR

Tiago Brandão Rodrigues
Ministro da Educação

Excelência,

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) ficou perplexa ao ler na Gazeta de Paços de Ferreira, de 18 de agosto, que, após proposta conjunta do presidente da Câmara de Paços Ferreira, Humberto Brito, e da diretora do Agrupamento de Escolas de Freamunde, foi dado o nome de um bispo auxiliar do Porto, D. António Taipa [sic], à referida escola.

A cerimónia, que teve a presença do patrono a inaugurar a placa, no dia de 15 de agosto, feriado com que o Estado privilegia o mito católico, de ‘Nossa Senhora da Assunção’, a subida ao Céu, em corpo e alma, contou com a presença de três bispos e com o patrono, nas garridas vestes talares, a descerrar a placa toponímica com o presidente da autarquia, como se lê e vê na notícia e foto da referida Gazeta.

Perante o grave atentado à laicidade do Estado numa escola pública, onde a neutralidade religiosa é uma exigência ética e constitucional, vem a AAP solicitar a V. Ex.ª que se digne esclarecê-la como é possível autorizar, face à letra e espírito da CRP, dar a uma escola pública o nome de um clérigo que, «(…) pelos seus méritos, chegou à ordenação episcopal”, como disse no discurso a diretora da referida escola.

Sem pôr em causa os méritos eclesiásticos do sr. Bispo-auxiliar do Porto, a AAP, apela ainda à sr.ª ministra da Administração Interna, aos grupos parlamentares da AR e à Comissão da Liberdade Religiosa, a quem informa deste grave atropelo à laicidade, que se pronunciem sobre o comportamento do edil e da presidente de um Agrupamento de Escolas que foram cúmplices.

A AAP aguarda que lhe sejam prestados os esclarecimentos pedidos,
Apresentando as melhores saudações republicanas, laicas e democráticas.


a) Direção da AAP

Crimes sem castigo e castigos sem crime

A senhora Merkel soma derrotas, não por boas razões, mas pela má, aquela que deu força aos seus adversários da extrema-direita, que renasce, com a corajosa decisão de acolher refugiados em 2015, perante uma onda de xenofobia que cresce na Europa e no mundo. Há analogias que remetem para as condições que precederam a última Guerra mundial.

Nos EUA, um Trump a ganhar velocidade, não é um mero epifenómeno americano, é a ameaça que paira nas democracias, o ódio anti-partidário e a demagogia. Imparáveis.

A Comissão Europeia, cada vez mais satélite do PPE, não suporta que a mais moderada esquerda possa cumprir promessas eleitorais, com a chantagem permanente e o desvelo dos partidos afiliados.

Em Portugal, não lhe basta a comunicação social, exclusiva de grupos económicos, e o ressentimento da direita que gostaria de ilegalizar o PCP e o BE. Não desiste de os ostracizar e de negar a legitimidade que as urnas lhes conferem, e só vê que “os riscos estão inclinados para a negativa”. Depois do empobrecimento a que o anterior Governo reduziu os portugueses, a CE esforça-se agora por privá-los dos fundos estruturais.

E vai acusando que a recuperação económica é lenta; a reposição de salários ameaça o cumprimento do défice; a dívida pública e o seu financiamento são preocupantes; o aumento do salário mínimo (de valores irrisórios) coloca “pressão” sobre o emprego; e o crédito de risco, a CGD e o Novo Banco (herança do anterior governo) produzem incertezas na banca nacional.

Qualquer leigo sabe que o sistema financeiro português continua exposto “a uma série de desafios e riscos”, e que a incompetência e incúria da Troica e do governo autóctone foram incapazes de reverter a crise financeira mundial de 2008, a maior responsável pela situação explosiva que vive o mundo.

É altura de nos perguntarmos se, enquanto a extrema-direita não volta a tomar conta dos países e prescinde de eleições, só a direita tem legitimidade para governar, ainda que os mais néscios a liderem em vários países.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, setembro 21, 2016

A lei autárquica e os independentes à moda do Porto

O Dr. Rui Moreira, certamente um excelente autarca (digo-o sem ironia), pretende que às listas dos candidatos “independentes” sejam dadas as mesmas condições que às dos partidos políticos. E está em vias de o conseguir.

Aqui está uma ideia capaz de gerar uma quase unanimidade, tal é a desconfiança dos partidos políticos e da luta partidária, como se, sem uns e outra, existisse democracia.

Pessoalmente prefiro remar contra a maré e suspeitar dos partidos que apoiam no plano legislativo uma velha reivindicação de caciques (não digo que seja o caso), ansiosos de fazerem propaganda contra os partidos, de se afirmarem apolíticos, enfim, demagogos e reacionários, inconformados com a democracia representativa.

Quem é independente? Quem teme assumir-se politicamente ou quem se dissimula?

O facto de eu não estar inscrito em qualquer partido não faz de mim independente, nem me confere qualquer alvará de isenção partidária. Abandonei, em 1975, a militância de 14 anos, convencido de que a democracia estava definitivamente conquistada, mas não passei a independente. Nem passarei. Diferentes são os ‘independentes’ sem militância, que aceitam comprometer-se com o partido que mais se aproxima das suas convicções, mas aí sabemos a área em que se situam e podemos punir ou premiar esse partido pelo desempenho do ‘seu’ independente.

Não há independentes, há oportunistas ambiciosos que pretendem servir-se dos partidos sem se comprometerem com eles e, eventualmente, para os denegrirem a todos.

O dr. Rui Moreira teria concorrido como independente se o PSD o tivesse preferido ao dr. Luís Filipe Meneses, ou é a síntese da animosidade aos partidos, do bairrismo e da ambição de Rui Rio que, através dele, derrotou Meneses e Marco António?

Agora, desde a irrelevância autárquica do CDS até aos vereadores do PS/Porto vai ter um conjunto de interesses antagónicos a seu favor, não a favor da democracia.

Quem é Passos Coelho?

O pior não é a incompetência, é o mau carácter.

Não foi ele que teve a ideia de como ajudar a resolver o problema da Grécia?

Aqui está 

terça-feira, setembro 20, 2016

O que a comunicação social não pergunta


No início do seu mandato, o PR mandou passar a pente fino as contas nebulosas do Palácio de Belém.

O relatório, se acaso o há, anda perdido algures entre a TVI e o Expresso, quiçá, misturado com os papéis do Panamá.

segunda-feira, setembro 19, 2016

No rescaldo de Bratislava: uma discreta solicitação, mas urgente…


A cimeira de Bratislava, ou seja o Conselho Europeu reunido a 16.09.2016, organismo com reais capacidades decisórias e o fórum privilegiado das análises estratégicas sobre políticas europeias acaba divulgar que os resultados obtidos foram (mais) um fiasco link . Nem acordo para negociar o Brexit, nem consenso sobre o problema dos refugiados, nem estratégias para incentivar o crescimento. Tudo na água.
Para confirmar tais resultados basta interpretar a atitude do primeiro-ministro, italiano Matteo Renzi, que achou por bem distanciar-se dos termos do comunicado final e fugir da fotografia da 'closing ceremony' link.
 
Com uma crise de crescimento a ganhar terreno e a reversão das taxas de desemprego a marcar passo e em níveis intoleráveis a União Europa não consegue encontrar saídas.
O mais preocupante são os calendários eleitorais nacionais que como tudo indica acabarão por ditar o adiamento de decisões necessárias e urgentes. Uma delas é o problema dos refugiados que não pára de crescer em contraponto com a economia.
A Alemanha grande impulsionadora de medidas para fazer face aos problemas dos refugiados deverá entrar nas encolhas depois dos desastres eleitorais já verificados link.
 
As habituais performances do Conselho Europeu que tem adiado sucessivamente os problemas para arranjar uma solução in extremis, muitas vezes coxa, desta feita poderão estar largamente comprometidas e a táctica seguida até aqui poderá resultar num desastre europeu em toda a linha.
 
De facto, só para visitar as grandes economias europeias temos, para além das eleições alemãs em incubação, as espanholas estão ainda em curso, as francesas estão à beira das ‘primárias’ e o referendo italiano na forja. É de recear que decisões só para as calendas gregas...
 
Portugal não espera muito destes e dos próximos Conselhos Europeus. Para nós (que tivemos eleições há menos de 1 ano) bastaria que se procedesse a uma análise realista da situação política, económica e financeira e a natural constatação que as políticas de austeridade, impostas, foram um desastre (não só para nós, mas para a Europa na generalidade).
Seria pedir muito?

domingo, setembro 18, 2016

O livro (Eu e os políticos), o autor (JAS) e o apresentador (PPC)

Que…

Que José António Saraiva, arquiteto que enveredou por projetos jornalísticos a soldo da direita, da pior direita, monárquico e amoral, resolva ganhar dinheiro como alcoviteiro, a revelar conversas pessoais e a vender a vida sexual de políticos a quem gosta de espiar pelo buraco da fechadura, apesar de crime, aceita-se pela decadência ética a que chegou.

Que a demência cívica o prive de entender o respeito que os mortos lhe devem merecer, para não lhes expor a sexualidade, verdadeira ou inventada, é próprio da leveza ética do autor do livro e da baixeza moral de quem o lê.

Que, depois de falhar como diretor do luminoso Sol e como jornalista, se transforme em vendedor de sexo saído dos canos de esgoto, em conversas privadas e sem a autorização dos seus interlocutores, escrevendo um livro, não é um problema para a literatura, é um caso de polícia.

Que quem foi primeiro-ministro, graças a indivíduos do estofo moral do autor, se preste a apresentar o livro, não faz um mero pagamento de favores ao cúmplice, faz um ato de proxenetismo a favor de um bordel sem alvará, onde JAS chafurdou.


sábado, setembro 17, 2016

Luís, o Amado (de quem?)…

Luís Amado foi convidado para ‘botar faladura’ nas Jornadas Parlamentares do PSD. E o ex-ministro que, para ‘fogo-de-vista’, continua a ser referido como um influente personagem dos 2 Governos socialistas presididos por José Sócrates mantendo, no presente, uma indefinida aura de socialista, assumiu a condição de pensador e sentiu-se impelido a propor uma solução governativa.
 
Agora, defende, como solução política para a resolução dos problemas do País, uma nova invenção/revelação: o ‘centro radicallink.
 
Este súbito radicalismo de matriz liberal, uma reminiscência do jacobinismo, é uma saída perfeitamente compatível para um político que perdeu referências doutrinárias (se é que alguma vez as teve) e se ‘estampou’ no exercício de actividades bancárias (sobre o que evita falar).
 
O modelo que apresentou como ‘salvador da pátria’ é mais uma blague do nosso círculo político (e partidário).
Na realidade, o que tentou revelar como inovador não é novo e o que seria novo não é inovador, isto é, o ‘radicalismo moderado’, tipicamente personalizado para diferentes situações nacionais e que, historicamente, partindo do demo-liberalismo desembocou no campo social-democrata, que dificilmente é identificável com as soluções deste multifacetado conferencista.
 
Um outro radicalismo – o ‘radical’ (passe a redundância) - aquele que tendo contornos disruptivos e de base qualitativa assentou arraiais na Esquerda tendo sido uma das remotas inspirações do marxismo, teve o percurso histórico que hoje é conhecido, muito longe das preposições, intenções e convicções de Luís Amado.
 
Entre estes dois campos Luís Amado pretende fazer a quadratura do círculo. Quer compatibilizar a pujança de mutações radicais com um terreno minado por diktats conservadores. Isto é, chuva no nabal e sol na eira.
A ‘novidade’ radical é uma mera figura de retórica. Radical será a sua oposição à actual solução governativa que pretende disfarçar com malabarismos semânticos. Juntou a sua voz ao coro dos que diabolizam a Esquerda que, em boa hora, vetou politicamente, congregando-se à volta de ‘posições conjuntas’, a permanência da Direita na construção de soluções de futuro para o País procurando, assim, romper com um infernal ciclo de empobrecimento.
 
Mas regressando ao ambiente onde Luís Amado esteve a representar (a farsa ‘social-democrata, sempre!’) e vestindo a pele de um centrismo militante, que se entranhou nas suas opções - mas nunca assumiu – verificamos é que a partir de um passado não tão brilhante quanto isso, tentou deste modo apresentar soluções para disfarçar um (seu) permanente deslizar (para a Direita). Um verdadeiro equilibrista destas andanças.
 
Entende-se que quando Luís Amado se refugia no 'redil radical' – o ambiente onde proferiu a palestra é de certo modo concordante - para agitar reformas, daquelas ditas estruturais, austeritárias, monetaristas, que mais não pretende do que fazer o restyling, ou dar mais enfase a um tenebroso passado recente, i. e., às políticas de ‘resgate’ impostas à volta de interesses reais de outros Países (às  vezes denominados de 'parceiros' ou 'mercados'), nunca cabalmente desmontados.
Uma expressão do tipo de radicalismo deste conferencista está patente no apoio que deu à entrada da Guiné Equatorial na CPLP que considerou uma abertura e um avanço institucional link. Está, estaria, tudo dito, se não fossem os interesses financeiros ocultos (à volta de enviesados ‘investimentos’) de um Banco, onde foi, da reorganização até a falência, presidente do CA.
 
A ‘onda reformista’ é hoje uma constante da dinâmica política transversal a todos os quadrantes políticos e que foi, no presente, intensamente colonizada pela Direita. Mas, como nos ensina a História, não existem reformas assépticas, incolores ou inodoras e muito menos as que pretendem ser estruturantes porque promovem 'cortes cegos'. Cegos para a 'população' mas bem orientados e bem definidos para os 'estrategas' (políticos, económicos e financeiros).
 
Na realidade, reformas concebidas para gerir o modelo capitalista vigente adocicando a sua selvajaria só são radicais de nome.
E, como sabemos, o centro político não passa de um lugar de transição, uma terra de ninguém - às vezes mal frequentada - onde cabem todas as afirmações, convicções e preposições e o seu contrário.
 
Todos sabemos, ab initio, qual o caminho que foi escolhido e que irá ser trilhado pelos que cavalgam soluções reformistas (radicais ou não) mas que afagam o status quo vigente.
As reformas pressupõem transformações políticas, económicas e sociais das sociedades, um operativo mutatis mutandi, mas não encerram si mesmas rotas e objectivos, são meramente instrumentais. O que interessa saber é o sentido dessas reformas e o contexto político-ideológico. Assim, quando Luís Amado defende vagamente um ‘centro radical’ poderia ficar-se pelo ‘centro’. Ou defender abertamente qualquer coisa de que já ouvimos falar, por exemplo, do ‘Portugal para a Frente’.
 
Por ora, este Luís ‘prefere amar do que ser amado’, parafraseando um outro Luís, o Buñuel. Acrescento: poderá amar o ‘centrão político’ sem peias, nem disfarces com ou sem exuberâncias (ou radicalismos). Está no seu direito. O que não pode é passar uma vida a representar Miguel de Vasconcelos.

Sócrates é capaz de tudo…

Em 22 de novembro de 2014 escrevi o último texto em que me referi a Sócrates, pelas razões do excerto que aqui transcrevo e que pode ser lido no Ponte Europa:

«Abstraindo do drama pessoal de Sócrates, desejo que os motivos que conduziram ao seu linchamento público sejam cabalmente provados. Os Tribunais são o único órgão da soberania em que ainda devemos acreditar. Não é um cidadão que está em causa, é a Justiça que fica sob escrutínio.»

A entrevista do juiz de instrução, Carlos Alexandre, à SIC, foi de tal modo nefasta para si próprio, para a imagem da Justiça e para os cidadãos que nela confiam, que permite pensar que algum primo de Sócrates subornou a SIC para solicitar a entrevista e outro amigo, infiltrado na ‘Fábrica da Igreja Paroquial de Mação’, o persuadiu a dizer que não tem contas em nome de outros para, assim, desacreditar o processo que tem em mãos.

Só pode ter sido maquiavelismo de Sócrates.

Apostila - Depois deste ataque público a um arguido, feito por quem não tinha o direito de o fazer, o referido juiz perdeu o respeito que a função exige.

sexta-feira, setembro 16, 2016

Brasil: FHC, Lula, Dilma, Temer e …?

O Brasil está em pleno rebuliço. Depois da destituição de Dilma a nova presidência encabeçada por Temer começou a preparar as próximas eleições presidenciais.
Pelo meio o PSDB despachou Eduardo Cunha um peão do tipo Kleenex (de usar e deitar fora) para promover o impeachment de Dilma que não logrou prever a armadilha para onde foi empurrado.
Agora, vão começar a ser despachados, um a um, os eventuais adversários. E dos possíveis candidatos, Lula da Silva, transitou de suposto indiciado para o ‘general’ da corrupção na Petrobrás e o PT transformou-se no alvo principal da ‘operação Lava-Jacto’. link
Todo este conturbado trânsito judicial começa a esclarecer em que estado está a política brasileira e como o Estado pode estar a ser capturado por uma ‘deriva justicialista’. Se ninguém puser cobro a esta deriva as próximas vítimas serão os autores e actores do impeachment, com Michael Temer à cabeça. O caminho que se está a ensaiar não andará longe dos contornos de um ‘neo-peronismo’ serôdio. A tessitura ideológica é bem conhecida mas interessa neste momento perceber qual o percurso.
Tal como na Argentina dos tempos de Perón quando se promoveu a defesa do ‘justicialismo’ estamos perante um modo de abordagem política simultaneamente providencialista e populista.
Na década de 40 o peronismo nunca conseguiu alijar – ou disfarçar - as suas simpatias com os movimentos fascistas europeus.
Hoje, a ‘rectificação brasileira’ também não consegue iludir a conivência com as doutrinas neoliberais, mas poderá também ser a ‘versão canarinha’ de uma paulatina guinada europeia e americana para os resvaladiços terrenos da extrema-direita.
Uma coisa é certa. Temer não tem estatura política para encarnar a personagem de ‘redentor’ e, deste modo, usurpar a presidência da República Federal em moldes peronistas ou neoperonistas. Portanto, no meio da confusão reinante, existem mãos e interesses escondidos. Falta descortinar ‘quem’ porque ‘o quando’ já iniciou a sua demolidora marcha.
Não andaremos muito longe da realidade se apostarmos num período de domínio político que poderá gravitar à volta de um ‘radicalismo evangélico’ cujo protagonista – ainda embuçado - sairá dessas fileiras e será imposto através do ‘império mediático’ que as igrejas pentecostais (e neopentecostais) controlam no Brasil. Poderemos estar na antecâmara da instauração, em Terras de Santa Cruz, de uma 'República Evangélica'...

quinta-feira, setembro 15, 2016

Maria da Assunção Cristas – A queda de um anjo

Maria da Assunção quis fazer jus ao nome subindo ao olimpo autárquico português, tal como a homónima, mãe de Jesus, que, segundo o mito católico, subiu ao céu, em corpo e alma [Assunção], em data, local e meio de transporte incertos. Evocaria ainda a terra onde nasceu, chamada, em tempos mais pios, São Paulo da Assunção de Luanda.

Assunção Cristas julgou que o seu partido tinha crescido quando apenas inchou, graças à habilidade de Paulo Portas a extorquir a Passos Coelho o quarto grupo parlamentar da AR. Foi um negócio faraónico que não teve em conta que o PSD tem gente mais capaz que Passos Coelho e o CDS não tem melhor que Portas, por menos honroso que seja.

Julgava fazer refém o PSD e ficou refém de si própria, à espera do desastre que abre a porta a Nuno Melo, menos recomendável, mas mais sagaz, educado na escola do tio, o cónego Melo, da Sé de Braga, e na de Paulo Portas, tal como ele, amante de veículos de alta gama.

Em Oliveira do Bairro, a 252 km de Lisboa, justificou a sua ambição com uma frase de belo recorte literário, vazia de sentido, garantindo que tem “o vento de Lisboa colado à pele e a água do Tejo colada à alma”, do que apenas se deduz que tenha alma, como os crentes creem, não fosse pensar-se que era desalmada.

A atração pela água e pelo ar pode vir-lhe da baía de Luanda e do vento que a percorre, ou de qualquer outro local onde haja ar e água, na certeza de que nenhum dos elementos se cola à pele e, muito menos, à alma.
Não cedendo o PSD à traição do CDS e não podendo Assunção Cristas recuar, num ato de haraquíri, resta-lhe respirar o ar de vereadora e tomar um banho de água tépida que a limpe da ambição desmedida em que tropeçou.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, setembro 14, 2016

Café Santa Cruz – um caso político em Coimbra

Não há sotainas que me assustem, saprófitas do clero, difamadores ou chantagistas pios que me afastem deste caso e do dever cívico de expor eventuais autarcas que venham a mancomunar-se com a Igreja contra o interesse público.

A Concordata é iníqua e precisa de ser denunciada e a lei da liberdade religiosa (Lei n.º 16/2001) é uma fonte de privilégios da Igreja católica, que urge revogar. A lei deve ser comum a todas as associações.

É inaceitável que o casamento religioso produza efeitos civis, quando celebrado por um clérigo católico, e que a dissolução pelo Vaticano produza efeitos civis em Portugal.

As capelanias militares (incluindo polícias), hospitalares e prisionais, sustentadas pelo erário público, ofendem a laicidade do Estado. As aulas da Disciplina de EMRC devem ser abolidas nas escolas públicas. Os docentes são discricionariamente nomeados pelos bispos e pagos pelo Estado, e acumulam tempo de serviço com que ultrapassam colegas em concursos futuros de outras disciplinas para que tenham habilitações.

A República está de joelhos perante a Igreja católica. As religiões devem ser respeitadas e não subsidiadas com isenção de impostos acrescidos com os que lhe são destinados.

Se a propriedade do Café Santa Cruz passar para a paróquia, por intermédio da exótica ‘Fábrica da Igreja Paroquial de Santa Cruz’, os jesuítas podem reclamar a devolução da Universidade de Coimbra, de que foram ‘esbulhados’ pelo Marquês de Pombal e os mouros, os territórios de que os Cruzados os espoliaram, em particular o Algarve.

O acórdão fará jurisprudência.

terça-feira, setembro 13, 2016

Durão Barroso – maoísta com destino de Trotsky

Um estalinista nunca deixa de o ser. Um fascista pode tornar-se democrata, mas um estalinista, nunca. Um estalinista pode chegar a líder de um partido democrático, e não deixa de o ser.

Zita Seabra aproveitou a última relação conjugal para batismo, confirmação, eucaristia, penitência e matrimónio, cinco sacramentos pios por atacado, mas não deixou de ser o que foi no PCP, uma estalinista. Até entrou para o Opus Dei, para o confirmar.

Durão Barroso, maoísta, nunca deixou de ser estalinista no glorioso percurso de Mao a pior, sempre com amplo proveito pessoal.

Com a leveza ética [só Passos Coelho e Luís Montenegro não a veem] com que aceitou, quando PM, férias, com a mulher, os 3 filhos e um primo, viajando no jato privado do empresário João Pereira Coutinho para a sua ilha privativa, no Brasil, em 2002, aceitou as de 2005, no iate de Spiro Latsis, um banqueiro grego, quando estava indigitado para presidente da Comissão Europeia.

Quem se admira que o ex-presidente da CE, presente de Blair e Bush, pela participação no crime da invasão do Iraque, se tenha associado “aos valores desenfreados e antiéticos que a Goldman Sachs representa”, de que o critica um grupo de funcionários da UE?

Quem se surpreende que se tenha envolvido nas manobras a favor da búlgara Kristalina Giogierva, contra Guterres, na reunião do grupo de Bilderberg, em junho, defendendo-a para secretária-geral da ONU, conivente com a família política que adotou o ex-maoísta – o PPE –, de que o PSD se tornou uma mera metástase em Portugal?

Agora é o sucessor, aliás pouco recomendável, que, chocado com o lobista da Goldman Sachs, o obriga, tal como a outros 5007, a ser revistado pelos serviços de segurança nas deslocações à sede do organismo a que presidiu (altura em que já devia ser revistado), a tratar dos negócios do atual patrão.

A sanha (ou inveja?) de Juncker ainda há de, depois de lhe ter retirado os privilégios de “passadeira vermelha”, apagar Barroso das fotos da CE e mandar sicários a Londres, a sede do seu exílio dourado. Felizmente que o destino de Trotsky é mera metáfora, mas o assassínio da honra já foi conseguido.
 
Quem não quer ser lóbi mau não lhe veste a pele.

segunda-feira, setembro 12, 2016

Miranda do Corvo, 11 de setembro

A data de 11 de setembro está carregada de amargas recordações históricas, desde o golpe de Estado do torcionário Pinochet, com apoio do clero autóctone e do Vaticano, até à abominável demência islâmica no cruel ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque, há 15 anos.

Ontem, em Miranda do Corvo, no alto da serra, procedeu-se, sob os auspícios Fundação ADFP: Parque Biológico da Serra da Lousã, à inauguração d’O Templo Ecuménico Universalista’, uma peça integrada num conjunto vasto de realizações, com a presença de convidados de todas as religiões, do GOL e da Associação Ateístas Portuguesa. Uma bela peça, diga-se, a permitir uma viagem culta pela história da humanidade, e a apelar à fraternidade humana.

Quanto ao diálogo inter-religioso, um sonho do Dr. Jaime Ramos, como se fosse possível haver diálogo entre o dogma e a razão, entre a vontade de deuses mudos e funcionários convictos da verdade absoluta, e prosélitos, não me pronuncio agora. Assisti com agrado à cerimónia de um grupo pagão, um pacífico e anacrónico resquício politeísta numa sociedade secularizada.

Mais importante é o trabalho desenvolvido pela Fundação ADFP, onde dezenas de deficientes profundos encontram amparo e outros deficientes são integrados, uma obra social de notável alcance social, modelarmente gerida por quem não recebe qualquer remuneração. Ali estão os refugiados de variadas proveniências e etnias.

Do discurso proferido pelo presidente da Fundação, durante o almoço, deixo dois factos dignos de nota, referidos ao ministro Eduardo Cabrita, aí presente:

1 – Sendo uma instituição com grande número de deficientes, foi-lhe retirado o apoio dos dois professores especializados, apoio que o Estado mantém em duas IPSSs da Igreja católica, no mesmo concelho, com muito menor dimensão;

2 – Havendo vagas para doentes necessitados de ‘cuidados continuados’, com custos de cerca de 1/3 do habitual, em outras instituições, não são preenchidas.

Eu próprio, tenho conhecimento de vários doentes que aguardam em camas do CHUC, muito dispendiosas, e de outros que aí morreram, à espera de uma vaga que não chegou. Só por preconceito se pode negar o humanismo e dimensão cultural e cívica da Fundação para a Assistência e Desenvolvimento e Formação Profissional (ADFP) de Miranda do Corvo.

As cíclicas e imparáveis manobras vindas de Bruxelas...

A pressão das instituições europeias (Comissão Europeia, Ecofin, Conselho Europeu, BCE, Eurostat,…) sobre Portugal e Espanha acerca do défice orçamental, considerado excessivo (como se qualquer défice pudesse de deixar de o ser), faz parte de uma longa série de avaliações em que se misturam as prestações dos burocratas e estratégias políticas.
 
Terá sido fixado o prazo de 15 de Outubro link para serem introduzidas medidas de correcção orçamental sob pena de 'congelamentos' da utilização dos fundos europeus. Isto é, perante a necessidade de investimento que acelere o crescimento económico agita-se o garrote.
 
Ambos os países (Portugal e Espanha) estão a ser discriminados face a situações semelhantes existentes noutros países, nomeadamente com a França, o que está bem patente na célebre frase de Junker: “Défice? A França é a França…”  link.
 
Mas, se partimos (Portugal e Espanha) no mesmo barco, não será de estranhar que ao Governo espanhol seja concedido o alargamento do prazo por mais um ou dois anos link .
É fácil perceber a razão. Muito embora a Espanha tenha um PIB a crescer à volta dos 3% e, portanto, seja mais fácil aplicar medidas para reduzir o défice o que interessa a Bruxelas é, na sombra, influenciar os cidadãos espanhóis no complexo processo eleitoral onde estão envolvidos (2 eleições sem resultados concretos quanto a um futuro Governo e à beira de uma 3ª. volta).
Bruxelas sabe se impuser mais austeridade a Rajoy (e este for obrigado a aceitar) promove o haraquíri da Direita espanhola.  
 
Por outro lado, já todos entendemos que estas pressões não surgem por mero acaso, são produto de uma rigidez ideológica que persiste na senda da austeridade, apesar dos desastrosos resultados obtidos por essa via.
Os peões desta estratégia são múltiplos mas neste universo de predadores destacam-se, na vertente burocrática, o Sr. Jeroen Dijsselbloem e, na política, o Sr. Wolfgang Schaüble. Ambas as personagens não são ‘meninos de coro’ e carregam um pouco recomendável trajecto de vida política a que associam uma gritante falta de imaginação que os leva a serem relapsos admoestadores e começam a entediar até os mais ‘crentes’ e liberais  pacientes.
 
É claro que as manobras em curso, por parte de actuais dirigentes das instituições europeias, têm uma notória concertação com repartição de funções entre a vertente política endossada ao Conselho Europeu, a técnica ao Ecofin, BCE, Eurostat e a burocrática à Comissão. A bissectriz destas prestações tem sido altamente perniciosa para alguns países da UE, ou seja, aqueles que apresentam economias mais débeis e estão em má situação financeira (dívida elevada).
 
Não é por acaso que, em relação a Portugal, foi estipulada a deadline de 15 de Outubro. Essa é a data de apresentação, para discussão parlamentar e conhecimento público, do próximo Orçamento de Estado (2017). Esta é mais uma face das permanentes pressões que vão sendo congeminadas em Bruxelas, Berlim, Frankfurt e que, em última análise, mais do que ajudar, perturbam uma serena e inteligente reversão da situação orçamental deficitária que, em princípio, interessa a todos.
 
Finalmente, sabemos que as instituições europeias acompanham, nomeadamente através do Eurostat, a execução orçamental, em Portugal. Não são visíveis nem previsíveis deslizes, nesse campo, que sejam preocupantes. Mas uma coisa é certa: se a execução orçamental correr bem (como é desejável) deverá imediatamente surgir uma nova questão: a dívida, o crescimento, etc. .
Bruxelas não pára! Resta acrescentar: de chatear e prejudicar alguns dos Estados membros.
 

domingo, setembro 11, 2016

Cristas e a municipal Assunção …

 
Cristas foi lançada para a arena política da capital link e não vai ter uma ‘Assunção’ fácil na capital. Este recente passo encetado para a consolidação da sua liderança é, à primeira vista, demasiado temerário. Soa a uma falsa partida ou a um empurrão.
 
As eleições municipais dão, no presente, sinais que podem, paulatinamente, estar a alterar as suas características originais. Durante largos anos - na nova fase democrática do poder autárquico decorrente do 25 de Abril - gravitaram à sua volta inúmeras manobras político-partidárias (locais, distritais e nacionais). Esta ‘gravitas’ originou, em muitas situações, graves perturbações nos aparelhos partidários, que atingiram transversalmente todos e é fastidioso enunciar os casos.
 
A abertura das candidaturas autárquicas a independentes foi, em princípio, a ‘válvula de escape’ deste sistema mas, também, o rastilho da mudança ainda em curso. Salvo honrosas excepções (que as há) as candidaturas independentes foram a ‘saída airosa’, nem sempre reconhecida pelos eleitores, para situações opacas ou conflituosas no contexto partidário concelhio ou distrital. E temos, em muitos casos, ‘independentes’ com um intenso odor (fedor) partidário ou, outros, vitimas de processos de evicção ou defenestração (em regra à posteriori). Claro que as candidaturas independentes têm intrinsecamente méritos que se revelarão, no terreno e na praxis, quando a sociedade civil (no conceito gramsciano do termo) ganhar peso na polis.
Por enquanto, as grandes reservas circunscrevem-se às eventuais malfeitorias de um retorno do caciquismo.
 
Todavia, a candidatura de Assunção Cristas à presidência da Câmara de Lisboa encerra outros factos e distintas realidades no domínio da estratégia autárquica e, mais do que isso, expõe toda a fragilidade e debilidade na política nacional que está a contaminar a Oposição de Direita. Vamos enumerar 5 itens entre os múltiplos cenários possíveis.
 
Primeiro, a sua condição no interior do partido que necessita de ser consolidada e a sua ‘autoridade partidária’ testada em eleições. Ora, excluindo as autárquicas não existem outras no horizonte (dentro as programadas e afastando sobressaltos intercalares) e ninguém aguenta uma cozedura em banho-maria tão prolongada sem morrer. Em certa medida, a atitude de Cristas é uma ‘reprise’ da que Jorge Sampaio tomou em 1989, em relação à situação partidária de então mas, simultaneamente, está muito distante de uma estratégia a médio e longo prazo que a candidatura sampaísta, ab initio, já revelava.
 
Segundo, este avançar no terreno representa, inelutavelmente, a tentativa de emancipação de complexas e obscuras estratégias de poder em desenvolvimento no PSD e uma procura de saídas directas que não fechem portas, mas não subordinem o CDS a arbitrários calendários diferidos no tempo para sossegar hostes (caso de uma eventual candidatura de Santana Lopes).
 
Terceiro, é muito suspeita a surpresa do PSD. Há muito que uma eventual candidatura de Cristas à Câmara de Lisboa vinha a ser ventilada. Indo para além do surpreendente o rebate que este anúncio causou, tal reacção só poderá caber na concepção de que a actual liderança do PSD não nutre especial entusiasmo pela candidatura de Santana Lopes e a virginal postura de estupefacção não passará de uma encenação.
Recentemente, Assunção Cristas, tinha dado o mote. Quando assume a defesa de ‘classe média’ link – que o governo em que participou terá orquestrado uma violenta sangria atirando centenas de milhares para  pobreza ou limiares -  e o faz em detrimento das tradicionais rondas pelas feiras de Portas, a nova líder estava já a anunciar a sua candidatura a Lisboa (o maior bastião de classe média em Portugal).
 
Quarto, um partido com a diminuta relevância autárquica como é o CDS, possivelmente não disporia um outro candidato na manga, facto que transforma o anúncio numa inevitabilidade interna ou, em alternativa, colocaria irremediavelmente o partido de Cristas a reboque de obscuros tacticismos do PSD.
 
Quinto, na ausência de uma reforma autárquica, agendada pelo Governo Passos Coelho/Paulo Portas, que a novel candidata a Lisboa integrou e que, sob a batuta de Miguel Relvas link, redundou num espalhafatoso fracasso, vamos ter de esperar sentados pelas ‘novas ideias’, anunciadas pelo líder da concelhia link, para esta candidatura, para a urbe e para os(as) 'alfacinhas'.
 
Na realidade, o mais significativo é este anúncio ter surgido na rentrée do CDS. Significa que, no imediato, perderam espaço para se afirmarem como partido de Oposição, pouco ou nada intervirão na definição das políticas nacionais e nada têm para oferecer ao País a não ser cumprirem o calendário eleitoral antecipadamente definido.
 
Muito pouco!