Cristas e a municipal Assunção …

 
Cristas foi lançada para a arena política da capital link e não vai ter uma ‘Assunção’ fácil na capital. Este recente passo encetado para a consolidação da sua liderança é, à primeira vista, demasiado temerário. Soa a uma falsa partida ou a um empurrão.
 
As eleições municipais dão, no presente, sinais que podem, paulatinamente, estar a alterar as suas características originais. Durante largos anos - na nova fase democrática do poder autárquico decorrente do 25 de Abril - gravitaram à sua volta inúmeras manobras político-partidárias (locais, distritais e nacionais). Esta ‘gravitas’ originou, em muitas situações, graves perturbações nos aparelhos partidários, que atingiram transversalmente todos e é fastidioso enunciar os casos.
 
A abertura das candidaturas autárquicas a independentes foi, em princípio, a ‘válvula de escape’ deste sistema mas, também, o rastilho da mudança ainda em curso. Salvo honrosas excepções (que as há) as candidaturas independentes foram a ‘saída airosa’, nem sempre reconhecida pelos eleitores, para situações opacas ou conflituosas no contexto partidário concelhio ou distrital. E temos, em muitos casos, ‘independentes’ com um intenso odor (fedor) partidário ou, outros, vitimas de processos de evicção ou defenestração (em regra à posteriori). Claro que as candidaturas independentes têm intrinsecamente méritos que se revelarão, no terreno e na praxis, quando a sociedade civil (no conceito gramsciano do termo) ganhar peso na polis.
Por enquanto, as grandes reservas circunscrevem-se às eventuais malfeitorias de um retorno do caciquismo.
 
Todavia, a candidatura de Assunção Cristas à presidência da Câmara de Lisboa encerra outros factos e distintas realidades no domínio da estratégia autárquica e, mais do que isso, expõe toda a fragilidade e debilidade na política nacional que está a contaminar a Oposição de Direita. Vamos enumerar 5 itens entre os múltiplos cenários possíveis.
 
Primeiro, a sua condição no interior do partido que necessita de ser consolidada e a sua ‘autoridade partidária’ testada em eleições. Ora, excluindo as autárquicas não existem outras no horizonte (dentro as programadas e afastando sobressaltos intercalares) e ninguém aguenta uma cozedura em banho-maria tão prolongada sem morrer. Em certa medida, a atitude de Cristas é uma ‘reprise’ da que Jorge Sampaio tomou em 1989, em relação à situação partidária de então mas, simultaneamente, está muito distante de uma estratégia a médio e longo prazo que a candidatura sampaísta, ab initio, já revelava.
 
Segundo, este avançar no terreno representa, inelutavelmente, a tentativa de emancipação de complexas e obscuras estratégias de poder em desenvolvimento no PSD e uma procura de saídas directas que não fechem portas, mas não subordinem o CDS a arbitrários calendários diferidos no tempo para sossegar hostes (caso de uma eventual candidatura de Santana Lopes).
 
Terceiro, é muito suspeita a surpresa do PSD. Há muito que uma eventual candidatura de Cristas à Câmara de Lisboa vinha a ser ventilada. Indo para além do surpreendente o rebate que este anúncio causou, tal reacção só poderá caber na concepção de que a actual liderança do PSD não nutre especial entusiasmo pela candidatura de Santana Lopes e a virginal postura de estupefacção não passará de uma encenação.
Recentemente, Assunção Cristas, tinha dado o mote. Quando assume a defesa de ‘classe média’ link – que o governo em que participou terá orquestrado uma violenta sangria atirando centenas de milhares para  pobreza ou limiares -  e o faz em detrimento das tradicionais rondas pelas feiras de Portas, a nova líder estava já a anunciar a sua candidatura a Lisboa (o maior bastião de classe média em Portugal).
 
Quarto, um partido com a diminuta relevância autárquica como é o CDS, possivelmente não disporia um outro candidato na manga, facto que transforma o anúncio numa inevitabilidade interna ou, em alternativa, colocaria irremediavelmente o partido de Cristas a reboque de obscuros tacticismos do PSD.
 
Quinto, na ausência de uma reforma autárquica, agendada pelo Governo Passos Coelho/Paulo Portas, que a novel candidata a Lisboa integrou e que, sob a batuta de Miguel Relvas link, redundou num espalhafatoso fracasso, vamos ter de esperar sentados pelas ‘novas ideias’, anunciadas pelo líder da concelhia link, para esta candidatura, para a urbe e para os(as) 'alfacinhas'.
 
Na realidade, o mais significativo é este anúncio ter surgido na rentrée do CDS. Significa que, no imediato, perderam espaço para se afirmarem como partido de Oposição, pouco ou nada intervirão na definição das políticas nacionais e nada têm para oferecer ao País a não ser cumprirem o calendário eleitoral antecipadamente definido.
 
Muito pouco!

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