Fernando Lima (FL), avençado do PSD, de S. Bento a Belém

Fernando Lima tinha inteligência, formação e domínio do estado da arte do jornalismo. Podia ter sido um bom jornalista sem renegar a matriz conservadora, mas, à incerteza da profissão, preferiu a avença política, a sinecura e uma reforma suculenta.

Optou cedo pelo emprego partidário. À frontalidade do combate cívico preferiu a intriga e o ajuste de contas, nos bastidores, contra os adversários políticos. Foi o que fez.

Ao lançar ontem o livro de memórias ‘Na Sombra da Presidência – Relato de 10 anos em Belém’, o avençado do PSD não se queixa do partido onde hipotecou a alma, só lamenta a ausência de alma do desalmado Cavaco Silva, que já servia no longo consulado de PM e na fracassada tentativa de ser PR contra Jorge Sampaio.

Imagina-se o sacrifício, suportar o casal Cavaco durante mais de duas décadas, mas não foi masoquismo, foi interesse. Foi amargo o silêncio, até ao último ordenado, durante os últimos seis anos, mas proveitoso, no fim de cada mês, dos anos que vierem.

Terá sido cruel quando, em 10 de junho de 2010, Cavaco e a inefável prótese passaram pelo casal Lima, e o ignoraram. Só a raiva mansa explica que quem diz «não queríamos acreditar no que nos sucedeu», declare agora, sem pudor: “O que então se passou com Cavaco Silva e mulher não contámos a ninguém, pois entendemos que, enquanto eu estivesse em Belém, devíamos manter essa situação em segredo”. Digno! Um comprou o silêncio com dinheiros públicos, o outro aceitou, para garantir a reforma.

Por amor ao PSD, ou ódio ao PS, em conluio com José Manuel Fernandes, colocou no Público (18-08-2009) uma intriga que fez manchete e cuja autoria negou: «Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo governo». Mentiu. O DN provou a falsidade e a origem, e Cavaco, com a grandeza ética que se lhe conhece, não deu justificações, demitiu o paquete e prometeu – diz agora –, ocultar a decisão. Remunerou bem a ociosidade, mas o que magoou FL foi a traição do benfeitor, que comunicou a demissão à Lusa, largando o mordomo silenciado ao opróbrio.

Aguentou seis anos em silêncio. Que grandeza ética! Que dimensão trágica do saprófita do cavaquismo, ora oferecido de novo ao PSD, sem Cavaco e D. Maria, a abrir as portas para continuar no ramo da intriga, contra a esquerda.

O País está mais salubre. Fernando Lima escusava de se expor! O odor do cavaquismo e do seu lacaio fede. O País é que não pode deixar de interpelar o anterior PR sobre o seu comprometimento, ainda que não se acredite que o assessor intrigasse por conta própria.

Só se duvida de que Cavaco tivesse imaginação suficiente para tomar a iniciativa.

Fonte dos factos referidos: DN, 7/09/2016

Comentários

e-pá! disse…
É isso!
O fim de uma longa discrição põe a nu a cadeia de interesses que a motivaram. E esse 'rol de interesses' não podem ser branqueados, ou travestidos, como sendo atitudes honestas e verticais, quer no campo pessoal, profissional ou no político. Na verdade, um jornalista quando abdica dessas atitudes mostra como, em obediência a 'silêncios dourados', aliena a autoestima, desbarata a competência profissional e acaba desrespeitado.
O livro pretensamente histórico (estórico) e subtilmente autobiográficos - como o que publicou e muitos não o vão ler - não consegue, à posteriori, 'lavar-lhe a cara'...

Mais uma vez cabe aqui citar Camões:

"...Remédios contra o sono buscar querem,
Histórias contam, casos mil referem".
Agostinho disse…
Nem o exercício do livro o livrou do equívoco em que viveu. Nem o consolo velhaco de queimar o cavaco na última fogueira onde também se queimou! Definitivamente.

Já era tempo de se confirmarem os equívocos. O outro vai fingindo que nada é com ele.

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