Turbulencia no PSOE e a crise 'mayor'..


A situação político-eleitoral espanhola conheceu ontem um novo sobressalto. A demissão em bloco de um significativo número de elementos da Comissão Executiva do PSOE visa provocar, no imediato, alterações na liderança partidária e consequentemente mudar o posicionamento institucional deste partido face ao impasse político que Espanha vive link.
 
Figuras históricas preponderantes no PSOE, como é o caso de Felipe Gonzalez  link, há muito que defendem para o partido um posicionamento de ‘oposição-árbitro’, permitindo pela abstenção a posse de um governo minoritário do PP, presidido por Mariano Rajoy, com ou sem apoio explícito, do Ciudadanos.
Seria um governo fraco, dependente de negociações caso a caso com toda a Oposição (e não só com o PSOE), permanentemente no fio da navalha que, teoricamente estaria condicionado refrear a prossecução de políticas de austeridade.
 
Esta será a visão simplicista e muito idílica da situação já que pressupõe um facto que carece de demonstração, isto é, a existência e persistência de uma unidade nas forças políticas da Oposição.
Na realidade, essa condição é ilusória porque se, de facto, existisse no terreno o PSOE, Podemos, Ciudadanos e outros partidos com menor expressão eleitoral (mas todos à Esquerda do PP) teriam conseguido congregar o apoio parlamentar suficiente para formar um outro Governo, alternativo ao do PP.
A situação é, contudo, muito confusa no interior do PSOE e com reflexos muito intensos na política nacional.
 
De concreto, o que aparece como óbvio e inevitável é o fim abrupto da liderança de Pedro Sánchez. Mas essa ‘morte anunciada’ não significa uma mudança automática do posicionamento do PSOE.
 
A situação começou a precipitar-se desde o último domingo com as eleições na Galiza e no País Basco, com os resultados eleitorais obtidos pelo PSOE, sendo a demissão de 17 membros do Executivo partidário uma mera e expectável consequência.
Mas uma coisa é a estratégia partidária outra será a resolução dos problemas que afectam a política nacional no que diz respeito ao fim de um longo interregno governativo.
 
A saída que o PSOE procura encontrar para a crise política espanhola não deve defraudar a vontade expressa pelos maioria dos eleitores (não propriamente os ‘seus eleitores’), nem parecer um simples artifício de sobrevivência.
Se o PSOE ‘deixar passar’ um Governo minoritário, dirigido pelo PP, vai assumir responsabilidades indirectas na governação e não existem indícios, nem esperanças fundadas, de que a Direita espanhola esteja disposta a mudar de políticas e de métodos.
 
Qualquer complacência do PSOE em relação à Direita tem diversas leituras e todas perniciosas. Uma oposição abstencionista é sempre uma atitude débil, é o procrastinar dos problemas, mesmo na modalidade lusa de ‘abstenção violenta’, versão que os espanhóis não devem conhecer ou sequer reconhecer.
 
A 'leitura da Esquerda' é que a maioria dos espanhóis retirou a confiança nas urnas para a Direita continuar a governar. Todavia, a incapacidade da Esquerda em construir uma solução governativa, vai permitir – tudo indica – que a Direita continue a governar.
Esta contradição é altamente desencorajante para o vasto e heterogéneo eleitorado à esquerda do PP de Rajoy.
 
Em alternativa, resta ao PSOE, conjuntamente com as forças de Oposição, promover (a curto/médio prazo?) o derrube, no Parlamento, do Governo empossado em circunstâncias atípicas e arcar com a responsabilidade de detonar mais uma crise.
 
A evolução dos acontecimentos na última semana coloca o PSOE, e de certo modo toda a Esquerda, entre a espada e a parede.
Pouco mais lhe restará do que contemporizar com um alívio dos níveis críticos a atingir as raias do insuportável e aproveitar o tempo para uma reorganização interna.
Todavia, o PSOE não está imune à crise generalizada dos partidos social-democratas, debate-se com as persistentes e cíclicas questões doutrinárias bem como as inevitáveis consequências programáticas. Entalado entre uma deriva liberal de Direita ‘moderada’ (Ciudadanos) e o populismo esquerdista (Podemos), pouco espaço lhe resta.
 
O painel de futuros dirigentes do PSOE está longe de estar clarificado ou decidido.
Não há vultos emergentes com características consensuais e nacionais (difíceis num Estado de múltiplos povos) que se mostrem capazes de reabilitar a 'casa socialista', com evidente ameaça de ruína.
 
Na verdade, a saída da crise está difícil, ou será mesmo impossível, porque o problema não é fundamentalmente partidário. Trata-se de uma crise de regime e começa a ser notório que o reino está moribundo e o actual esquema constitucional, que funcionou no pós-franquismo imediato, esgotou-se.
A solução que poderá estar na incubadora terá um denominador federalista. O Estado Unitário, sob a batuta dos Bourbons, não tem tradução política satisfatória, as autonomias baquearam e estão a conduzir a 'independentismos à solta', com é o exemplo da Catalunha, a que se seguirão outras regiões autónomas. 
Todavia, para encontrar soluções Federais, ou até Confederadas, cada vez mais óbvias, implica a abertura de um novo processo constituinte que, no presente, é um tabu partidário, longe de qualquer tipo de consenso nacional. Alguém terá de dar o primeiro passo.

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